terça-feira, 18 de outubro de 2005

Hoje aconteceu!












Uma tarde aparentemente igual a tantas outras na Radar, no período das 15:00 às 20:00, com animação de Pedro Ramos. Boa música (alternativa!), novidades, destaques, novos lançamentos, algumas rubricas, noticiários, informações (curtas!) de trânsito em Lisboa, boas piadas (secas, só para entendedores!) e, hoje, um convidado muito especial: Mark Eitzel. E quem é ele? Nada mais nada menos que o mentor dos saudosos American Music Club, compositor de eleição, intérprete de créditos absolutamente firmados no universo pop-rock alternativo norte americano. A poucas horas de um espectáculo a solo no Santiago Alquimista em Lisboa, Mark Eitzel esteve como convidado na emissão em directo da Radar. Ele, e a sua guitarra acústica. Em conversa descomplexada (e humilde!) com Pedro Ramos (sempre em inglês, nem sempre com a devida tradução!), na hora 18:00/19:00 aconteceu magia. Para além do óptimo humor, do bom ambiente e das divertidas considerações acerca de uns tais biscoitos mordiscados pelo músico em estúdio, ou da publicidade emitida naquele horário, Mark Eitzel tocou e cantou em directo! Sem rede! E foi um grande momento de rádio, em particular a versão do tema Heart & Soul dos Joy Division. Eis a diferença que a rádio pode fazer. Embora raro, é apenas um exemplo, mas de grande valia. É claro que a estação em causa está ligada à vinda de Mark Eitzel a Portugal, e isso é uma vantagem. Mas é para isso mesmo que servem as vantagens: para se tirar partido delas.

RADAR - a alternativa
97.8 (Lisboa)

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Queridos Anos 80

Este blogue http://www.dear80s.blogspot.com/ dava um grande programa de rádio. Desconheço o autor - assina pelo nome de Tarzan Boy - mas sei que é um homem do norte e que já esteve em directo na televisão, na extinta NTV, no programa XPTO (que não vi) para falar sobre a sua paixão: a música pop dos anos oitenta. O blogue "Queridos Anos 80" foi inaugurado no dia 2 de Novembro de 2003. Trata-se de um exercício saudável de nostalgia de um amante daquela década, com textos bem humorados, mas nem por isso menos informativos. A informação, o conteúdo consubstanciado dos textos, é a mais valia do blogue. Das efemérides, às inúmeras curiosidades dos artistas, dos aniversários ao obituário, das edições raras às analogias improváveis, reedições, concertos, edições raras, estatísticas e sondagens com votos dos cibernautas, tudo e mais alguma coisa tem sido oferecido por este Tarzan Boy. E quase sempre com grande interesse. O que mais me aproxima deste blogue é não só a sua "radiofonia" (já lá vou), mas também um processo assumido de identificação, embora hoje em dia eu habite noutras galáxias. Sim, eu também fui um amante daquele tempo, vivi-o intensamente. Sim, eu também fiz um penteado à vocalista dos A Flock Of Seagulls e por isso fui expulso numa aula de inglês (na minha ingenuidade juvenil pensei que a mentalidade da professora da língua de Shakespeare fosse mais avant gard, mas afinal ela só ouvia Simon & Garfunkel! – que também gosto!). Sim, eu também comprava a revista "Bravo", recortava-a e colava imagens e letras de músicas nas capas dos dossiers escolares. Tarzan Boy e eu devemos andar pelas mesmas idades (mais de 30, não é?). O tom dominante do escriba é totalmente coincidente com a época a que se refere. Enfim, um encaixe perfeito.

Acontece porém que este interessante blogue cobre, na esmagadora maioria, o cenário pop-rock dos 80s mais celebrado pela fama e sucesso comercial: A-Ha, A Flock Of Seagulls, The Adventures, Alphaville, Rick Astley, Bananarama, The Bangles, Berlin, Blondie, Belinda Carlisle, Bros, Classix Nouveaux, The Communards, The Cult, Culture Club, Dead Or Alive, Depeche Mode, Duran Duran, Echo & the Bunnymen, Eurythmics, Fine Young Cannibals, Frankie Goes To Hollywood, Gazebo, The Housemartins, The Human League, Billy Idol, Industry, Jesus And Mary Chain, Kajagoogoo, Cyndi Lauper, Secret Service, Spandau Ballet, Wham!, Wet Wet Wet... e muitos mais. Estão lá todos. Até aqui tudo muito bem, mas também há os outros anos oitenta e, sobre esses, nada ou quase nada. Onde está aquela outra faceta mais alternativa, tão interessante, tão fascinante, misteriosa e sedutora da década de oitenta? Japan, David Sylvian, Robert Wyatt, World Party, Nick Cave & The Bad Seeds, Working Week, Television, Tom Verlaine, Harold Budd, Brian Eno, This Mortal Coil, Cocteau Twins, Dead Can Dance, Wolfgang Press, M.A.R.R.S., Siouxie & The Banshees, John Cale, Cindy Talk, Howard Devoto, Magazine, Clan of Xymox, Mark Eitzel, American Music Club, Pale Saints, Modern English, D.C. Lee, Heidi Berry, The Gist, Rema Rema, Bauhaus, Art Of Noise, Bithday Party, Laurie Anderson, Colourbox... e muitos, muitos outros. Completaria e de que maneira uma visão muito mais abrangente sobre os eighties. É apenas uma opinião. Considero ser uma pecha deste blogue musical, mas sendo um blogue é de livre arbítrio e o seu autor fará sempre nele e dele o que muito bem entender. Assim é e assim deverá ser.

A música dos anos 80 tem presença assídua um pouco por quase todas as rádios em Portugal. Há mesmo espaços dedicados aos temas musicais mais representativos, os que arrasaram os tops durante meses a fio (lembram-se do "I Just Call To Say I Love You" do Stevie Wonder?), ou os que nem pelas melhores razões humanitárias ficaram na memória (Band Aid ou USA For Africa), ou os por péssimas razões estéticas (“You´re My Heart, You´re My Soul” dos Modern Talking!). Ainda hoje é possível encontrá-los, estes e outros, dispersos nas playlists que deambulam na nostalgia “oitentista” dos quadrantes hertzianos. Mas o surgimento das memórias de 80 nas várias frequências nacionais, regionais e locais, vem sempre desguarnecido de enquadramento (não só as canções de 80!). Aparecem amiúde misturadas com coisas de hoje ou de outras datas e que nada têm a ver. Mas isso já é entrar noutro assunto. Voltando ao blog "Queridos Anos 80": era perfeitamente viável adaptá-lo à rádio. Juntando os textos às canções, "cozinhando" o melting pot, saíria daqui um pitéu, mesmo ignorando os outros anos oitenta e até os anos oitenta portugueses, que também teriam o seu justo espaço e interesse!

Estamos a meio da primeira década do século XXI. Daqui a não muito tempo já serão os anos 90 a serem mais recordados e mais marcadamente destacados nas rádios e nos blogues que se proponham a seguir o exemplo deste Tarzan Boy. Ainda assim, e antes que o tempo certo passe de vez, mantém-se a utilidade de contextualizar devidamente e tratar melhor musicalmente os 80s, principalmente na rádio. O espaço de tempo que vai do dia 1 de Janeiro de 1980 até ao dia 31 de Dezembro de 1989 representa a primeira década completa de vida da geração (à qual pertenço) que agora atinge - ou atingiu já - os 30 anos de idade. Musicalmente através da rádio, tenho a certeza que esta "colheita" não deixaria de aderir ao mood.

O que existe nesta matéria em rádio com mais um pouco de espessura, pelo menos do que conheço, encontra-se em duas estações: RNA-Radio Nova Antena (92.0 Lisboa), que se ocupa de um universo musical maioritariamente made in 80, na faceta mais comercial da época; e na RADAR (97.8 Lisboa), no espaço "Radar 20 anos" (2ª a 6ª / 21:00 - 23:00) num menu mais alternativo. Ambos os casos sem reforço informativo, sem contextualização, logo, pobre na apresentação.

Há blogues que dariam bons livros (alguns já o fizeram), outros chegaram à televisão, outros dariam bons filmes. Este ( http://www.dear80s.blogspot.com/ ) estaria reservado à rádio. Vale uma aposta?


Francisco Mateus

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Disco são?




















Corria o ano de 1977 quando o fenómeno "DISCO" atingiu o auge a nível mundial e também em Portugal. O Disco Sound enquanto género havia começado uns anos antes. Uma mistura altamente dançável de Funk e outras correntes ritmadas da música negra (R&B, Smooth Soul) abrilhantados por efeitos electrónicos, indumentárias exuberantes, cores garridas e, claro, a inevitável bola de cristal em permanente rotação. Esse ponto alto de popularidade do Disco Sound foi alcançado muito à custa do filme "Saturday Night Fever" (Febre de Sábado à Noite) com John Travolta no principal papel (Tony Manero) e com banda sonora a cargo dos Bee Gees. O sucesso, quer da película, quer da música, foi brutal. Ao ponto de passar-se da adoração à saturação num espaço de poucos anos, e, o fenómeno DISCO - que tantas latitudes influenciou - caiu em desgraça. O repúdio que se seguiu foi tal que a banda sonora de Saturday Night Fever destruiu quase por completo a carreira dos irmãos Gibb, que pelo menos até aí corria sem beliscaduras. Nos Estados Unidos, por exemplo, surgiu mesmo um movimento mais ou menos organizado "anti-Disco", que, entre outras excentricidades, proibiu a passagem dos Bee Gees na rádio (algumas estações) e em que os discos (vinil) eram pura e simplesmente destruídos em plena praça pública. Tudo isso é passado. O ex - fenómeno DISCO transformou-se em sazonais acções de nostalgia. Foi depois devorado pela aparição em cena de uma saudável New Wave no mundo pop-rock, pelos estilos New Romantic, Electro-Pop e por aí em diante. O som do DISCO passou a relíquia inconsequente, e quase trinta anos depois, só mesmo sob o manto da nostalgia desses anos de cores fluorescentes e pistas vibrantes é que se recorre à audição de temas que marcaram para sempre este Sound que dominou os mercados ocidentais durante a segunda metade dos anos 70 e ainda os inícios de 80. Apesar de um certo estigma ( preconceituoso ) que o Disco Sound deixou em muita gente, não tenho vergonha absolutamente nenhuma em revelar que a banda sonora do filme Saturday Night Fever foi o primeiro disco que comprei, ainda em 1977, bem em cima do acontecimento. Foi o meu delírio (e da minha irmã) nos primeiros tempos da escola primária. Dançávamos e cantávamos as canções do duplo vinil, cujo filme fez de Travolta uma estrela mundial e colocou os Bee Gees nas bocas do mundo. Sim, eu venho do DISCO! Depois seguiu-se a idolatria por "Born To Be Alive" de Patrick Hernandez, "Heart Of Glass" dos Blondie, "Dancin' Queen" dos Abba e toda a tralha Disco que vinha na onda da época. Mas houve também um "outro" Disco, mais refinado, mais elegante e com melhores ambições estéticas: os Chic ou Giordio Moroder, por exemplo. Aliás, o álbum "C’est Chic" dos Chic (1978) é, para mim, o melhor trabalho de sempre do Disco Sound. Gosto do Disco Sound porque marcou uma época colorida não só da minha vida em particular como também da própria industria musical, hoje em dia tão votada à lamentação. À luz destes primeiros anos do século XXI, tudo aquilo assume uma aparência um bocado bizarra, por vezes - e com alguma razão - a descambar para o mau gosto... Mas é mesmo isso! É toda aquela atitude exageradamente Kitsh que confere aos anos dourados do Disco Sound características únicas e irrepetíveis.

Eu conheci e aderi ao Disco ouvindo rádio!
Tudo isto para dizer que o Disco Sound já não existe - há muito tempo - na rádio. Há uma excepção: o programa "Clube-Disco" no RCP - Rádio Clube Português. Sábados à noite, mesmo a condizer com o espírito de "Febre de Sábado á Noite"...durante sete (!) horas consecutivas. Os clássicos estão lá todos: Bee Gees, Donna Summer, Chic, Patrick Hernandez, Boney M, Village People, Lips Inc., Kelly Marie, Tavares, etc, etc. Até aqui tudo bem. Acontece que neste Clube-Disco desfilam temas que em nada têm que ver com o período histórico - musical de que se ocupa. A frase do programa é mesmo esta: "Clube-Disco o Melhor do Disco Sound" O melhor?! Repito: os clássicos estão lá todos! Mas como é possível ouvir-se Leo Sayer (numa balada!) ou os temas "Der Kommissar" de Falco, "Solid" de Asford & Simpson (contemporâneos do Disco, mas este tema está fora do género. É de 1984!), "I Feel For You" de Chaka Khan (versão no ano de 1984 de um original de Prince), "When the Going Gets Tough, The Tough Get Going" (1986!) de Billy Ocean, e outros temas e artistas que - repito - nada têm a ver com o Disco Sound? Quem conheceu o o período em causa - e é a esses que o programa se dirige - sabe bem distinguir o que é e não é Pure Disco. Mas um público mais jovem, que não viveu nem conheceu o fenómeno Disco Sound está a consumir lebre com rabo de gato... ou, dito de outra forma, está a ser enganado. Mas o selo de garantia continua lá: "O Melhor do Disco Sound"!

Curiosamente, ao mesmo tempo em que ia escutando o RCP e o seu Clube - Disco, o televisor estava ligado (sem som) no canal musical VH1. No canto superior direito estava em permanência a legenda "Viva La Disco". Era suposto ser uma emissão com telediscos de Disco Sound...e, para não variar, lá estavam os habituais clássicos referenciais desta história: "Daddy Cool" dos Boney M, "Stayin' Alive" dos Bee Gees, "In The Navy" e "YMCA" dos Village People, etc... Mas também lá estavam videoclips completamente opostos, como por exemplo "You Spin Me Around Like a Rekord" dos Dead Or Alive (1985), "Get Out Of My Dreams" de Billy Ocean (1988), "Sugar, Sugar" dos Archies (1969), "Everybody's Free" de Rozalla (1991), "Get The Party Starded" de Pink (2002) ou "Start To Fall" dos Cabin Crew (2005). O caldeirão é vasto, variado e derivado, mas é inconcebível que se coloquem ingredientes tão estranhos numa ementa que já de si dispensa tais adornos. Seja na TV, seja na Rádio, seja onde for. Principalmente quando os rótulos exibidos garantem (?!) qualidade pura. Ou será que tudo quanto soe a Funny, Party & Dance é considerado Disco?

Desconheço quem e quais os critérios da pessoa que elabora a playlist do programa. Apenas sei que não é da responsabilidade dos animadores/apresentadores do Clube - Disco. Quando procurei o Clube - Disco do RCP tencionava ser servido pelo Pure som do Disco e não deparar com um produto inquinado que não coincide (na menor parte) com as expectativas levantadas: "O Melhor do Disco Sound"!
O programa Clube - Disco ocupa um espaço enorme em antena, mas sendo o RCP uma estação maioritariamente musical, isso não constitui qualquer tipo de problema. Tenho em crer que é actualmente o maior programa em duração de horas na rádio portuguesa. São sete (!) horas consecutivas de emissão (20:00 - 03:00), mas com a fruta devidamente exprimida, salva-se pouco mais de metade com Disco Sound autêntico. Não seria preferível reduzir a duração de cada emissão e obter-se assim um produto final mais fiel à frase "O Melhor do Disco Sound"? Acho que esta ideia dava uma boa e saudável discussão.
I came from the Disco! Sim, mas do Pure!... e este Disco não está são!

CLUBE-DISCO: o melhor do Disco Sound
RCP- Rádio Clube Português
Sábado p/ Domingo (20:00 - 03:00)
www.rcp.clix.pt


O Clube-Disco está no ar desde 2003, e das várias vezes que ouvi, tem sido apresentado por dois animadores. Sempre com boas performances, mesmo com a vantagem do programa ser previamente gravado: José Candeias (pontualmente) e Aurélio Gomes (na maior parte das emissões). Sobre Aurélio Gomes, umas breves palavras deste ouvinte: É um animador de excelência! Um profissional do mais alto nível. A sua postura em antena dignifica e muito o produto que "vende". Boa voz (infelizmente isso hoje em dia isso conta pouco, mas cá vai), grande ritmo (qb), palavras de circunstância que calham que nem ginjas, bom sentido de humor, óptima presença e agradável companhia. Enfim, uma delícia de apresentação, por ventura merecedora de palcos maiores.

Francisco Mateus


Para nostálgicos dos seventies e com o apoio do RCP:
Festival Disco Fever
Village People + Bonney M
18/Novembro/2005
Pavilhão Atlântico (Lisboa)