sábado, 25 de fevereiro de 2006

Entrevista a FRANCISCO AMARAL








Sempre pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir
Sempre à espera de um sinal
De uma resposta
Da intimidade de uma esperança


O autor do histórico programa “Íntima Fracção” reflecte sobre a rádio e o fenómeno Podcast. A Íntima Fracção (IF) começou em Abril de 1984, esteve cinco anos na RDP-Antena1, catorze na TSF, e está actualmente na RUC. Também na Internet para download e em formato Podcast.
A pouco tempo de completar 22 anos de existência, e por via das novas tecnologias, a IF conhece uma nova vida.


Quando começaste a fazer rádio?

"No ar", pela primeira vez, no dia 5 de Abril de 1970. Antes, muitas horas para um gravador de banda magnética.


Quando é que a IF chegou à Internet e quando aderiste ao Podcast?

Passei a disponibilizar a IF na Internet, em mp3, em Dezembro de 2003, três meses depois da interrupção da IF na TSF. Com a tecnologia que se designa por podcast, desde Dezembro passado.


Achas que o podcast é uma ameaça à rádio tradicional ou é apenas uma mais valia como foi o aparecimento da Internet?

A maior ameaça à rádio tradicional está dentro dela própria. O podcast não é uma mais valia. É uma alternativa.

Como vês o panorama actual das rádios em Portugal?

Uma contradição proveniente do pensamento liberal económico. Os sectores que aparentemente defendem os direitos da individualidade, são os grandes entusiastas da massificação e do controlo. As rádios portuguesas estão absolutamente controladas, massificadas e banalizadas. Salvam-se algumas pequenas rádios locais – muito poucas – e os exemplos das rádios universitárias.

As playlists são um mal necessário? Um mal necessário para as rádios para a viabilidade económica por via das audiências?

As playlists é um mal. Ponto final. A desculpa da viabilidade económica das rádios é patética, muito pior do que pateta. O panorama actual é o da queda da importância da rádio. A música na rádio está absolutamente desconsiderada. Não é a rádio que faz os êxitos. É a televisão, os vídeo-clips. O papel actual da rádio, em matéria de música, é consolidar os êxitos das grandes distribuidoras. É uma extensão desavergonhada do negócio. Embora esta relação perigosa seja histórica, pelo menos desde o chamado "Payola scandal", nos anos 50 do século XX, nos EUA, a música que a rádio agora ajuda a vender, é a mais "pechisbeque", falsa, e aquela que nunca fará a roda da História andar em frente.


O que pensas sobre a nova lei das quotas de música portuguesa?


Outra patetice. Outra falsidade. A edição de música portuguesa é, e vai continuar a ser, pouca. Vamos ter as rádios a repetir as mesmas coisas. Se ficou a porta aberta para a música cantada em língua portuguesa, vamos continuar a ser colonizados pelo Brasil. Ainda por cima, António Carlos Jobim tem imensa coisa instrumental e, provavelmente, ficará de fora. Gostava de saber o motivo desta lei não se estender à televisão, e não só em matéria de música...


Voltando ao podcast: até onde achas que vai ter este fenómeno?

As vertiginosas mudanças tecnológicas tornam as antecipações arriscadas. Se tudo ficasse como está neste momento, incluindo o tipo de rádio que temos, o crescimento do podcast seria inevitável. Se os preços dos leitores portáteis de mp3 e das ligações à Internet baixarem, o podcast, que é uma espécie de "rádio à la carte", crescerá exponencialmente.


O programa "Íntima Fracção", de que és autor, está a fazer o caminho inverso. Começou na rádio e agora está já em podcast. O podcast é a salvação par aos autores?

Neste momento é uma tábua de salvação para a rádio de autor. Não é a salvação dos autores, porque o podcast não é ainda rentável.


Mas gostarias que a "Íntima Fracção" continuasse no éter? Gostarias que o programa "Íntima Fracção" reencontrasse espaço numa rádio com maior dimensão?

A IF continua no éter, numa rádio abertamente alternativa, a Rádio Universidade de Coimbra (RUC). Estão ali das mais interessantes propostas alternativas ao mainstream radiofónico português. O éter e a rádio de maior dimensão só me interessam na medida em que possam contribuir para uma mais vasta audiência. No entanto, se isso tiver que ser pago com qualquer tipo de concessão, o podcast é uma garantia de efectiva liberdade de criação e de uma possibilidade de distribuição mundial. Pelo seu percurso, não é a IF que tem de encontrar um espaço numa rádio de maior dimensão, é alguma delas que tem de encontrar espaço para a IF.


És ouvinte de rádio? Quando começaste a ouvir e o quê?

Fui. Neste momento, oiço rádio no carro e apenas quando não tenho acesso ao leitor de CD´s. No carro oiço a RUC, alguma Antena 2 e, pontualmente, notícias na TSF e na Antena 1. Em casa, sobra-me um pequeníssimo rádio a pilhas. Também oiço rádio através da Internet. Coisas de fora...Comecei a ouvir rádio na primeira infância. Lembro-me dos folhetins do RCP, do programa infantil da Emissora Nacional (Maria Madalena Patacho), das emissões dos domingos de manhã. No liceu, todas as manhãs ouvia rádio logo que me levantava. Ouvi em Onda Média (OM) a Rádio Monte Carlo. Mas foi o FM do RCP que me atraiu. O lendário programa "Em órbita" foi uma enorme referência. Ouvia todos os dias, ao fim da tarde, e mesmo quando passava também na OM à meia-noite. Foi lá que ouvi pela primeira vez "God only knows" [Beach Boys] e uma longa lista de músicas essenciais. Aprendi imenso com esses tempos do primeiro FM do RCP. Mas também ouvi muita rádio nocturna, desde o “Banda Sonora” (com o João David Nunes), “23ª hora” (João Martins) até aos programas de grande criatividade que foram o “PBX” e o “Tempo ZIP” (Carlos Cruz, Fialho Gouveia, José Nuno Martins, João Paulo Guerra...).


Da rádio que actualmente ouves, o que é que não perdes de ouvido?

Como actualmente vivo em Coimbra, a única coisa que não perco de ouvido são os bons momentos da RUC. Há diversas pérolas. Muitas, felizmente. E um diamante: "Vidro Azul", do Ricardo Mariano.


E os radialistas que mais gostas. Quais são?

Actualmente não há radialistas. Há gente que carrega nos botões. Muitos são magníficos criadores estrangulados.


Tens saudades dos tempos das rádios piratas?

Claro que era um tempo entusiasmante. Na época trabalhava na RDP e participei numa emissão pirata, o que me poderia ter criado problemas. Julgava que as coisas seguiriam outro caminho. A legalização domesticou as rádios. Tenho, no entanto, uma forte recordação de uma época em que a Rádio Livre Internacional (Américo Mascarenhas, vindo das rádios livres francesas), fugindo dos serviços rádio-eléctricos, emitia 24/24h um looping com "Moments in Love" dos Art of Noise. Eu ouvia aquilo horas a fio... Naquele contexto, ganhava um estranho sentido de alternativa estética.


Tens tido bom feedback do programa através da Internet e do Podcast?

Muito acima do que alguma vez pensei! Um espanto absoluto apodera-se de mim quando vejo um simples blogue sobre um programa de rádio – sem ser de massas! – atingir as centenas de milhares de visitas! E um muito maior espanto quando verifico que a IF é ouvida um pouco por todo o mundo.


Queres continuar a fazer rádio para sempre?

Esta é uma pergunta duríssima. Penso fazer rádio enquanto sentir necessidade de o fazer. Tal como um pintor, um escritor, um realizador. Para mim, a rádio é uma actividade criativa nobre. Quando sentir que não há mesmo espaço a não ser para a imbecilidade, estarei numa outra luta, aquela que permita a reabilitação da rádio. Deixo, no entanto, uma ressalva. A evolução tecnológica pode transformar profundamente os conceitos sobre os quais estamos, agora, a reflectir.


O actual panorama radiofónico em Portugal...é irreversível?

É. As coisas poderão melhorar andando para a frente, não para trás.


Qual seria a saída/salvação para a actual rádio tradicional?

Esquecer-se que é rádio tradicional...


Em todos estes anos, qual o período de rádio que viveste que mais gostaste? E qual foi o pior?

Desde que faço rádio, os anos 80 foram os melhores. Senti-me também muito feliz quando entre 1996 e 2003 fiz, no meu próprio pequeno estúdio, a “Íntima Fracção” para a TSF. Anos absolutamente felizes. O ter acompanhado e participado em todas as frentes, na criação da Rádio Jornal do Centro (TSF- Coimbra), em 89/90, foi também um momento muito bom.
O pior? Não sei... desde que estivesse na rádio, tudo me parecia bom. "Even the bad times are good"! Passei por situações muito injustas na RDP, embora tenha sido lá que aprendi muita coisa e onde vivi grandes momentos. Mas o pior momento foi na noite de 28 de Setembro de 2003. A última IF na TSF. Uma mágoa inelutável. Os Rolling Stones tocavam nessa noite em Coimbra e era o prenúncio da "nova" rádio que aí vinha. Quer dizer, o "velho" a fazer-se "novo". Antes da IF entrar no ar, o Francisco Mateus, em antena, fez-lhe uma sentida homenagem. Ele sabia que, também ele, iria entrar num buraco negro. Só que o ciclo é impossível de conter. Depois da escuridão, virá a luz!


Há sempre um traço azul no futuro incandescente


ÍNTIMA FRACÇÃO
RUC – Rádio Universidade Coimbra
Sábado p/ Domingo (01:00/02:00)
Rádio: http://www.ruc.pt/
Blogue: http://www.intima.blogspot.com/
Download: http://www.esec.pt/radio/programas/intimafraccao/if.html
Podcast: http://www.gavezdois.com/
Dedicação: http://www.if-no-ar.blogspot.com/


...............................................................................................................................

O que eles dizem (09)


Podcast = Futuro da rádio?


«É uma extensão da mesma; uma forma de prolongar o contacto com as rádios e chegar a outras audiências»

Ana Ricciardi
(Cotonete)

……………………………………………………………………………………………

«É uma boa alternativa à rádio convencional graças a uma diferença: podemos descarregar conteúdos bastante mais especializados que a rádio não pode passar (novos projectos musicais, conteúdos educativos…)»

Filipe Barreto
(«Jam Session»)

…………………………………………………………………………………………….

« [Poderá] assumir um papel de intervenção na divulgação da cultura urbana mais marginal e potenciar novos focos de “resistência estética” que, de outra forma, estariam condenados à clandestinidade e que assim se podem propagar num regime hi tech mas a low cost».

«[O Podcast] é uma matéria ainda restrita a determinados circuitos mas que pode devolver a “marca autoral” que a rádio parece ter perdido face á formatação e alteração dos hábitos de consumo.»

Rui Torrinha
(Rádio Universidade do Minho)

…………………………………………………………………………………………….

«Duvido que a rádio convencional, a curto prazo, desague no Podcast. No entanto a viagem já se iniciou e (…) o Podcast emergirá como um mundo de possibilidades muito mais vastas do que a rádio tradicional».

Francisco Amaral
(«Íntima Fracção»)

…………………………………………………………………………………………….

«O que vai ter a mais do que a rádio é a diversidade e liberdade de conteúdos, não estando preso ás regras normalmente impostas aos media tradicionais».

Duarte Velez Grilo
(«Blitzkrieg Bop»)

……………………………………………………………………………………..


«São propostas diferentes embora haja espaço para que os dois universos se encontrem. Os podcasts (…) podem fazer um trabalho mais profundo que o das rádios comerciais. A relação é semelhante à dos blogues e dos sites pessoais com jornais e revistas».

Guilherme Werneck
(«Discofonia»)

……………………………………………………………………………………….


O Podcast é o acesso a qualquer tipo de áudio, em forma de emissão radiofónica, audioblogue (um blogue oralizado) ou outro tipo de registo criado por qualquer pessoa.

Luís Guerra
In BLITZ
24.Janeiro.2006

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

CINCO MINUTOS JAZZ









Um, dois…um dois, três, quatro, Cinco Minutos Jazz!

E já lá vão quarenta anos! O mítico programa de José Duarte [na realidade trata-se de uma Crónica Diária] completa hoje quatro décadas de existência. Um longo caminho percorrido na rádio, uma longa história cheia de histórias à volta do Jazz, sempre pela mão do mesmo autor. É notável! Nos dias da rádio de hoje em Portugal, que programa poderá assinalar semelhante data? Principalmente dedicando-se a um género musical que não se dirige às massas. De resto, o Jazz sempre foi um género musical mal tratado pela rádio portuguesa. Houve e há programas de Jazz espalhados por algumas estações de rádio em Portugal, umas vezes mais, outras vezes menos, mas lá vai havendo.
É certo e sabido que estamos em Portugal, e uma estação de rádio exclusivamente dedicada ao Jazz não seria sustentada pelo mercado publicitário existente. Daí o papel fundamental do serviço público neste domínio. Uma rádio de Jazz nos Estados Unidos, por exemplo numa cidade como Nova Iorque, é escutada por uma imensa minoria de pelo menos dois milhões de ouvintes, o que a torna desde logo absolutamente viável. Mas ainda assim não poderia haver mais dedicação ao Jazz por parte das rádios portuguesas?
O que nunca houve foi coerência, continuidade, permanência e sapiência no tratamento. A excepção é os “Cinco Minutos Jazz” diários de José Duarte. Uma fórmula simples: um curto mas incisivo texto dito (não lido) e inequivocamente explicado, um tema Jazz (instrumental ou vocal), um genérico perene, sempre "Lou’s Blues" de Lou Donaldson, e… um simples “até amanhã”. José Duarte fez e faz mais pelo Jazz em cinco minutos que qualquer outro produto radiofónico ao longo dos últimos quarenta anos. Tornou-se popular pela simplicidade, pelo poder de comunicação do seu autor. “Cinco Minutos Jazz” quebrou muito gelo que havia entre o Jazz e o público português. É claro que ainda há muito desse gelo para derreter, mas a crónica diária de José Duarte já contribuiu mais para isso do que se esperaria na noite de 21 de Fevereiro de 1966, às 23:00 na Rádio Renascença. Enquanto ouvinte, “apanhei” estes cinco minutos pela primeira vez em Outubro de 1983, na Rádio Comercial. Exactamente os cinco minutos antes da meia-noite de 2ª a 6ª, incorporados no alinhamento de conteúdos do programa “24ª Hora” de João Martins. Desde então nunca mais os perdi de ouvido.
“Cinco Minutos Jazz” habitou outras estações e frequências: Rádio Comercial, RDP – Antena 1 e Antena 2. Actualmente apenas no primeiro dos canais públicos e nos horários abaixo indicados. Na Antena 2 José Duarte assina um outro e novo programa de Jazz – “Jazz Com Brancas” – iniciado em Janeiro último. José Duarte mantém ainda viva “A Menina Dança”, nas noites de sábado para domingo, a partir da meia-noite. Uma vida dedicada à rádio, à causa de um género musical inesgotável que é o Jazz e seus derivados mais directos. Assim é José Duarte, um profissional de rádio que produz e muito rende em quantidade e sobretudo em qualidade, quando muitos da sua geração se encostam ou encostaram já à reforma.


Francisco Mateus

P.S: PPPSSSTTT!!! À hora que publico este texto, está "a dar" na rádio!


CINCO MINUTOS JAZZ
RDP – Antena1 (2ª a 6ª feira)
01:55; 18:55; 22:55

Há um concerto comemorativo dos 40 anos de “Cinco Minutos Jazz” esta noite no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz em Lisboa.


É o programa diário - de segunda a sexta - mais antigo da Rádio portuguesa. A primeira emissão foi em 21 de Fevereiro 1966. Desde 1993 na Antena 1, tem como objectivo divulgar música jazz de todos os estilos e de todos os anos. Jazz de New Orleans, swing dos anos 30, bebop dos anos 40, hard bop dos anos 50, estilos que coabitam até com o free jazz. A sua abertura e fecho pertencem já à História da Rádio portuguesa.


Outros programas de Jazz na Rádio pública:

Jazz Com Brancas” de José Duarte
RDP – Antena2
2ª a 6ª feira (20:00 às 21:00)

Um Toque de Jazz” de Manuel Jorge Veloso
RDP – Antena2
Sábados & Domingos (16:00/18:00)


Saiba mais sobre Jazz em: http://www.jazzportugal.net/
E sobre José Duarte em: www.jazzportugal.ua.pt/joseduarte/

sábado, 18 de fevereiro de 2006

VIDRO AZUL


























Notas frágeis, sons de alma, viagens neste e noutro tempo, paisagens de sombra e nevoeiro



Situa-se naquele território da bela longinquidade sem ser distante nem sequer hermético.
Numa má comparação, diria que é um “oceano pacífico” (de águas mais profundas) do futuro a que entretanto já chegámos. Está, com as devidas diferenças, na linha da “Íntima Fracção” e é herdeiro dos extintos programas de autor onde predominava a toada calma – não lenta – de uma certa proximidade, proporcionador de reflexão por parte do ouvinte. Todo este quadro é realizado através de uma voz suave, calma e pausada, pela riqueza estilística de sons e canções em desfile, contendo uma indispensável componente informativa sobre o que nos é oferecido musicalmente, acasalando com indiscutível felicidade o novo com os outros tempos. A predominância está na música dita alternativa. E é mesmo uma alternativa, principalmente nos dias de hoje. O bom senso e o bom gosto moram aqui. Basta visitar o blogue do programa. Em calendários mais saudáveis, este programa, esta composição sonora, teria lugar merecido e garantido numa emissora de maior dimensão no espectro radiofónico nacional. Tal não acontece, como sabemos. “Vidro Azul” é um todo, embora separado por um intervalo publicitário que divide as duas horas de emissão. Via Internet, o todo está lá! É assim o programa de Ricardo Mariano, na RUC – Rádio Universitária de Coimbra, na Internet para descarregamento em formato mp3 e também em Podcast. Para ouvidos limpos e espíritos pouco sobressaltados.


Entrevista a RICARDO MARIANO


Quando começaste a fazer rádio?

Fui seleccionado para o curso de programação da Rádio Universidade de Coimbra em 2000. A RUC, todos os anos, promove cursos de Programação, Informação e Técnica. A partir de Abril de 2002 – e ainda como formando – comecei, efectivamente, a fazer rádio... inicialmente através de uma crónica chamada "Quarto Escuro" no programa Metro do Pedro Arinto. Nessa experiência inicial fazia uma espécie de abordagem discográfica e biográfica a cantautores que gostava (e gosto): Nick Drake, Mark Kozelek, Stina Nordenstam, Mark Eitzel e outros.

Quando começou o "Vidro Azul"?

A primeira emissão foi para o ar no dia 14 de Outubro, ocupando o espaço 20h-21h na grelha de Inverno de 2002 – lembro-me que abri com o tema “Sacrifice” da Lisa Gerrard.
Sabes, acho que poucos sabem mas o “Vidro Azul” (VA) entrou na grelha mesmo à última. Como eu era dos poucos que já trabalhava – a maior parte dos meus colegas nesse ano ainda estudava – tinha pouquíssimo tempo disponível. Um dia, numa sessão de spots, olhei para a grelha ainda provisória e vi aquele buraco das 20h. Achava-o ainda muito, como dizer… pouco nocturno mas, como não me causava grande transtorno pessoal avancei com a proposta. Foi aceite.

Agora o programa também habita o universo Podcast

Já há algum tempo que pensava numa forma de disponibilizar o programa para lá do directo e da emissão online. Foi aventada a hipótese de se colocarem, para audição stream, alguns dos programas da RUC através do servidor da rádio. No entanto, por razões técnicas que desconheço, foi impossível concretizar essa pretensão. Assim, o Paulo Santos, um amigo e realizador do excelente “RuClub” (programa de Jazz na RUC), incentivou-me e ajudou-me a criar o Podcast utilizando o mesmo serviço que ele. Foi assim, no final do ano passado.

Achas que o Podcast é uma ameaça à rádio tradicional?

Não acho que seja uma ameaça... pelo contrário! O caso do VA é paradigmático. Como programa da RUC, rádio com sintonia de espectro limitado, o Podcast possibilita a todos os que não residam em Coimbra ou que, na altura do directo não podem escutar via emissão online, ouvir o programa durante a semana até à emissão seguinte.
Pelas reacções que vou tendo e percebendo, ninguém deixa de ouvir o directo do VA – se puder fazê-lo – para ouvir o programa mais tarde, por download em formato Podcast. Há, de facto, algumas pessoas que depois do directo guardam o programa para repetirem a audição – o que muito me lisonjeia – e esta é uma das extraordinárias qualidades do Podcast. Poder-se gravar, numa qualidade óptima um programa de rádio. É magnífico.

Até onde achas que vai ter este fenómeno?

Sinceramente, não sei. Gostava muito que o Podcast servisse como um formato promotor da rádio de cariz alternativo que se vai fazendo por aí. E se calhar isso vai acontecer, espero. Acho que vai crescer muito. Por arrasto, quando as coisas se agigantam, surge muita coisa má. No entanto, o Podcast tem potencialidades divulgadoras e informativas extraordinárias.

O programa "Vidro Azul", de que és autor, está a fazer o caminho inverso. Começou numa rádio e agora está em Podcast. O Podcast é a salvação para os autores?

Não vejo as coisas assim. O Podcast é um complemento do VA. Existe para possibilitar a escuta para os que antes não o podiam fazer. Poderá, no entanto, ser importante para dar voz àqueles que estão "abafados" nas rádios de sintonia nacional e mais não podem fazer – há excelentes exemplos por aí. Houve rádios que mudaram para pior, tendo gente de uma qualidade excelente e agora desperdiçada. O Podcast para essas pessoas pode ser um novo respirar.

Mas gostarias que o "Vidro Azul" continuasse no éter? Se sim, gostarias que o programa "Vidro Azul" encontrasse espaço numa rádio com maior dimensão?

O lugar do VA é no éter. Essa é a minha paixão. Não o concebo de outra forma e é aí que me sinto confortável. Sabes, já quis que o VA explodisse para mais gente, numa rádio maior. Mas, nunca tentei, e por tudo aquilo que tenho dito, seria impossível. Não há quem me queira – nem sei se tenho qualidade para outros voos – e estaria sujeito a critérios editoriais que desvirtuariam a linha estética do programa.

Como vês o panorama actual das rádios em Portugal?

O produto das rádios nacionais, de sintonia nacional, é muito igual e absolutamente desolador. Estas rádios são, cada vez mais, formatadas, obtusas, espelho das castradoras playlists que afogam o papel do realizador de rádio e abreviam a oferta de novos, alternativos e criativos programas de rádio. Depois isto é um ciclo vicioso. As rádios das massas regem-se, inevitavelmente, conforme os critérios e padrões umas das outras. Falta coragem, muita coragem. Temos as antenas 1, 2 e 3: a rádio pública. A Antena 3, quando surgiu, assumiu-se como uma rádio diferente. É o que se vê!... Com a excepção de alguns programas nocturnos, não oferece nada de novo. A Antena 2 lá se vai abrindo ao Jazz – ainda pouco – mas tem ali espaço para tanto e ninguém põe mão naquilo. Será que, por exemplo, a “Íntima Fracção” do Francisco Amaral não cabe ali? Haja coragem!

Referiste-te às playlists… o que pensas do uso e abuso das playlists?

As playlists são uma imposição das grandes editoras. Infelizmente, no nosso país, há muito o "efeito bola de neve" – as rádios nacionais tendem a seguir as piores políticas.
É claro que as rádios menos poderosos têm de seguir estes critérios editoriais para sobreviver, mas, a meu ver, as playlists são impostas pela indústria e as rádios nem esperneiam.

O que pensas da nova lei sobre as quotas de música portuguesa?

Ridícula, ditatorial, mais uma perigosa e negra notícia para a rádio. Obrigar-se uma rádio e os respectivos realizadores (se ainda os há!) a passar uma percentagem delimitada de música portuguesa é de um autoritarismo bacoco impressionante e datado. Depois é a história da música que se oferece... estou certo que a música portuguesa de qualidade não vai passar (essa, salvo raras excepções, nunca passa). A rádio vai jorrar uma autêntica "Chuva de Estrelas".

És ouvinte de rádio? Quando começaste a ouvir e o quê?

Gosto muito de rádio. Lembro-me de escutar muito a "Hora do Lobo" do António Sérgio, depois a "Íntima Fracção" do Francisco Amaral – que infelizmente descobri tarde – e, desde sempre, a RUC.

Da rádio que actualmente ouves, o que é que não perdes de ouvido?

As notícias e o desporto da TSF e Antena 1 e o que a RUC passa.

E os radialistas que mais gostas. Quais são?

Continuo a gostar do António Sérgio mas, as minhas referência são, desde sempre, o Pedro Arinto (RUC) e Francisco Amaral (RUC). No entanto, também gosto do estilo de locução do Henrique Amaro... tem muita sobriedade. Tenho, também, colegas na RUC que são óptimos: Paulo Santos (“RuClub”), Inês Saraiva (“Livro de Cabeceira”), Rui Caniço (“Botox”), Inês Patrão (“Inter Rail”) e outros.

Tens saudades dos tempos das piratas?

Bem, eu não acompanhei esses tempos. Embora já ouvisse a RUC enquanto rádio Pirata. Mas, felizmente, ela é ainda "meio pirata"!

O "Vidro Azul" é o "teu" programa ou o programa "possível"?

É, definitivamente, o meu programa!!

O que dizes dessa experiência de trabalhar numa rádio de autores como a RUC? Respira-se um ambiente estimulante e de criatividade contínua?

Sem dúvida. A liberdade é total e partilha-se de uma forma muito forte e emocional o amor que se tem pela rádio. Somos todos uns carolas, ninguém recebe. Ainda há diletantes e isso é comovente e sustenta o espírito da RUC.

Tens tido bom feedback do programa através da Internet e do Podcast?

Sim, a resposta tem sido surpreendente... o que me deixa um pouco embaraçado.
É óptimo saber que vou tendo novos ouvintes e que eles podem chegar do mundo inteiro. E depois é engraçado perceber que havia pessoas que passavam há muito pelo blogue e nunca tinham escutado o “Vidro Azul”. O Podcast veio possibilitar este encontro.

Queres continuar a fazer rádio até que a "voz te doa"?

Sim, claro. A rádio e a música provocam-me um sentimento inexprimível.


VIDRO AZUL
Um programa de rádio e outros "estilhaços"...

RUC – Rádio Universidade Coimbra (107.9 FM ): 2ª Feira (23:00/01:00)
Repetição: Sábado p/ Domingo (02:00/04:00)
Rádio: http://www.ruc.pt/
Blogue:http://www.vidroazulruc.blogspot.com/
Podcast:http://www.vidroazul.libsyn.com/


Os programas de autoria nas rádios locais gozam de uma liberdade criativa actualmente quase inalcançável nas estações de maior dimensão. Há casos de puro amadorismo, onde ainda se joga com amor à camisola, o que é compreensível e necessário, pois as pessoas que querem fazer rádio têm de começar por algum lado. Existem programas com longo historial nas pequenas rádios e que já se tornaram "parte da mobília". São marcas das estações que os emitem e têm seguidores atentos e fãs fiéis. Estes realizadores, de alma romântica, subsistem no éter pelo poder da força de vontade e não pela vontade da força.


Francisco Mateus

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Entrevista a PEDRO ESTEVES















O programa "lado B", da autoria de Pedro Esteves, insere-se numa série de emissões que encontram espaço em rádios locais (ou regionais, se ocupam mais que uma frequência), onde é menor a miríade de obstáculos à realização de rádio em nome próprio. Mal remunerados ou mesmo não remunerados, os espaços de autoria em rádios locais espalhadas pelo país, vão do melhor ao pior. As rádios e os programas. Mas também há os de eleição, merecedores de maiores palcos. O "lado B" faz parte destes.

Em Maio de 2005 publiquei aqui um texto sobre o programa “lado B” por altura do primeiro aniversário do programa de Pedro Esteves. Agora a entrevista, quando o Podcast já é uma realidade consumada para este programa de rádio.


Como e quando aderiste ao Podcast?

Aderi ao Podcast em meados de Agosto do ano passado, imediatamente após me ter apercebido da sua existência e das suas potencialidades. Não foi um processo fácil. Demorei algum tempo a perceber como funcionava, sobretudo a criação dos “feeds” (rss), que são a base da actualização automática de ficheiros. Antes disso, o “lado B” existia já online, para download directo.

Achas que é uma ameaça à rádio tradicional ou é apenas uma mais valia como foi o aparecimento da Internet?

Ambas as coisas. Este fenómeno, ainda incipiente em Portugal, vai obrigar a rádio a mudar. É portanto uma ameaça porque a vai obrigar a mudar, o que, tendo em conta o actual panorama, é bom.

Panorama actual...o que te parece o "panorama actual"?

Miserável. As rádios são todas iguais. As pessoas vão perceber que não vale a pena ouvir uma playlist feita por outros quando a música está aí, na Internet, e que podem escolher a gosto as suas músicas preferidas. A música, que passa actualmente nas nossas rádios generalistas, chega primeiro à Internet. A rádio vai ter de se adaptar a esta realidade.

As playlists são um mal necessário? Um mal necessário para as rádios, isto é, uma espécie de concessão ou uma necessidade para a viabilidade económica por via das audiências?

Excluindo os programas de autor que, julgo eu, vão regressar, deve haver uma linha orientadora, que deve servir para definir a imagem sonora da estação. Não deve é ser estanque. Como está, é limitativa, em todos os aspectos. E quem mais perde, como sempre, são os ouvintes. É uma concessão. Serve interesses, também económicos.

Mas voltemos ao Podcast: até onde achas que vai ter este fenómeno?

Não tenho uma ideia concreta. Acho que vai crescer muito, a maioria de fraca qualidade, e depois, naturalmente, o público irá separar o trigo do joio. As rádios vão aderir ao fenómeno, porque será uma forma de fazer chegar os seus conteúdos. E da produção caseira, irão surgir talvez, novos animadores para a rádio. Também é possível que a rádio venha a emitir nas suas grelhas, programas que na sua génese são Podcasts.

O Podcast é a salvação para os autores?

O “lado B” é, de raiz, um programa de rádio, que se serve da Internet para chegar a mais gente, e mais longe. O fecho anunciado da Rádio Ocidente não vai matar o "lado B". Ele sobrevive, porque existe a Internet. A produção de programas com emissão via Podcast é talvez uma forma de os "não autores" da rádio – porque as rádios são cada vez mais espaços fechados, onde os animadores nunca são realizadores – produzirem conteúdos do seu interesse, à sua maneira.

Mas gostarias que o "lado B" continuasse no éter?

Sim, teria todo o interesse, mas não é fundamental.

Coloco a pergunta ao contrário: que interesse poderá haver em ter um programa numa estação de rádio se via Internet pode chegar mais longe e a mais gente?

Boa pergunta! No caso do "lado B", tem interesse porque ele, na sua origem, é um espaço de autor que pretende mostrar uma "alternativa" ao panorama de estagnação musical actual nas rádios. Na Internet isto não se verifica com a mesma amplitude.

Não se verifica "ainda" ou não se verificará de todo?

Não sei. O utilizador português é jovem, curioso, dado a novidades, e elas estão aí, na Internet. Se quer ou procura o “comercial”, o óbvio, o imediato, o caminho mais fácil é ligar o rádio.

És ouvinte de rádio?

Cada vez menos.

Quando começaste a ouvir e o quê?

Comecei a ouvir rádio na adolescência, fascinado com o seu potencial de comunicação. Comecei pelas estações de onda média, pela Renascença, pelo António Sala e companhia, pela voz e pela palavra (era o que a minha mãe ouvia). Mais tarde descobri o FM, a Rádio Comercial, o António Sérgio, o Luís Filipe Barros. Foi esse o "gatilho" que me levou para a rádio, ainda miúdo, aos 13 ou 14 anos, no tempo das rádios piratas.

Tens saudades desses tempos das piratas?

Sim, na medida em que eram tempos de grande liberdade. Tempos que os Podcasts de hoje me fazem lembrar, curiosamente. Embora para mim seja hoje impensável fazer rádio nesses moldes.

Vive-se o mesmo espírito?

Sim, no sentido da liberdade. Quando fazes o que te apetece sem ter de dar satisfações a ninguém, isso é liberdade.

Podcast “igual” a rádios piratas?

Julgo que sim, "ainda".

O "lado B" é o "teu" programa ou o programa "possível"?

Até ver é o meu programa. É um espaço dinâmico, em crescimento. E eu a crescer com ele.

No início deste ano começaste a introduzir novos conteúdos no programa, tornando-o mais dinâmico. Podes desvendar algo mais sobre isso?

Decidi convidar alguns amigos ligados também ao mundo da rádio para produzir conteúdos (sempre relacionados com música). Acho que enriquece o programa. Não sou o único a ter coisas para dizer, e outras vozes no "lado B" confere-lhe outro dinamismo. São um complemento.

Da pouca rádio que actualmente ouves, o que é que não perdes de ouvido?

Um ou outro programa de autor. O “mq3” e o “Coyote” na Antena 3, bem como alguns conteúdos informativos, nomeadamente da TSF. Raramente oiço emissão de continuidade. Oiço por vezes a Radar e a Oxigénio.

E os radialistas que mais gostas, quais são?

Aí está uma pergunta difícil. Quase não existem radialistas. Somos "papagaios" dos outros.
Mas o Miguel Quintão e o Álvaro Costa são uma dupla fantástica, e a Mónica Mendes, uma excelente comunicadora. Há depois bons jornalistas na rádio a produzir conteúdos de grande qualidade.

Simultaneamente animas espaços de continuidade na TSF desde Agosto de 2004. O que dizes dessa experiência?

Tem sido muito enriquecedora. É uma rádio diferente dos formatos a que estava habituado, mas com uma dinâmica muito interessante. Aprende-se muito ali.

O que te parece esta nova lei das quotas de música portuguesa nas rádios?

Parece-me uma idiotice que só visa proteger os lóbies da industria nacional, ou seja, um punhado de artistas que, na maioria, é medíocre em termos de qualidade. O que provavelmente vai fazer prova desta ideia é o facto de muitos bons artistas lusos continuarem "obscuros" no mercado e nas playlists das rádios, se não mesmo, excluídos!

Terminamos como começámos, falando de Podcast. No teu blogue tens uma ligação para esclarecer dúvidas sobre Podcast. Para quem se inicia no processo, o que mais aconselharias?

Aconselharia a pôr ideias em prática. Mais do que questões técnicas, o que faz falta são ideias e conteúdos.

Tens tido bom feedback do programa através da Internet e do Podcast?

Sim, bastante bom. Aliás, devo dizer que o feedback que tenho recebido deriva da audição via Internet. O que é um estímulo para continuar.


lado B
Rádio Ocidente (88.0 FM)
Sábado p/Domingo (00:00/01:00)
Repetição Domingo (19:00/20:00)
Blogue: http://web.mac.com/pedroesteves/iWeb/ladob
Blogue arquivo: http://ladob-arquivo.blogspot.com/
Podcast: http://ladob.libsyn.com/rss

............................................................................................................

MAIS PODCAST 2006

Em 2005 a palavra Podcast entrou em definitivo no vocabulário da Internet e no mundo da rádio, não tanto por ser Rádio, mas por poder ameaçar ou favorecer a rádio.
Eu sou daqueles que acreditam que pode favorecer mais do que prejudicar, mas é preciso que a rádio não perca o comboio que está em andamento acelerado.
O Podcasting não é o fim da rádio. É mais uma opção Rádio, com todas as possibilidades de ser mais interessante e estimulante que a rádio tradicional em determinados conteúdos.

P.S: A minha estreia no Podcast aconteceu em Janeiro deste novo ano. Uma curta crónica (“Linhas Cruzadas”) mensal, de cariz musical, no programa “lado B” de Pedro Esteves. Um gentil convite que não quis recusar. Ao autor do programa, públicos e devidos agradecimentos.

Mais: Está disponível na Internet um programa de rádio sobre Rádio.
É no linkComo No Cinema”. Nestes endereços:

http://pwp.netcabo.pt/radiozero/
http://www.radio-zero.blogspot.com/



Francisco Mateus

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Mais ligações

Foram adicionadas novas ligações na lista de blogues e sites. Há novos blogues, novas páginas e novas descobertas a fazer na Internet num cada vez mais alargado espaço de reflexão sobre Rádio.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Entrevistas

Fevereiro é mês de entrevistas na Rádio Crítica. São depoimentos de “viva-voz” de alguns autores de rádio (e não só) que já aderiram ao Podcast. Por ordem de entrada em cena nos próximos dias: Pedro Esteves, autor do programa “lado B” e Ricardo Mariano, autor do programa “Vidro Azul”. Outros se seguirão.


Francisco Mateus