quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O que diria Hitchcock?













A Cinemateca Portuguesa é a maior e a melhor janela para o mundo do Cinema. Para quem se interessa e quiser saborear algumas das melhores obras de sempre da sétima arte, é lá que as encontra. Há dias, num desses momentos mágicos, a releitura – em sessão única – do filme «The Woman In The Window» de Fritz Lang (1944). Em Portugal este filme ficou com um título que não faz jus ao original: «Suprema Decisão». A Mulher na Janela (numa tradução à letra) seria bem mais adequado. O filme «The Woman In The Window» não podia ser mais surpreendente. Não só pela primorosa realização, técnicas ousadas e inovadoras – o clímax da criatividade de Lang – mas principalmente pelo final totalmente imprevisível. Como disse de viva voz João Bénard da Costa na apresentação da sessão: O filme cujo final é o mais proibido de revelar a quem nunca o viu.
A Cinemateca tem nestes meses de Janeiro e Fevereiro uma programação absolutamente irresistível. No mês de Fevereiro, por exemplo, estará em exibição única o filme «Spellbound» de Alfred Hitchcock. Sempre com o epíteto de Mestre do suspense, Hitchcock realizou numerosas obras-primas do Cinema, em quase todos os casos com óptimos resultados junto do público e da crítica. «Spellbound» (1945) contou com a participação artística de Salvador Dalí (na sequência do sonho), num dos momentos oníricos mais fantásticos alguma vez produzidos na longa história do Cinema Clássico. De Hitchcock sempre adveio imensa imaginação nas suas obras. Enredos imprevisíveis, desfechos surpreendentes. Tudo era fruto de uma grande capacidade criativa, reconhecida e incontestável. Um (dos muitos) desses casos é o filme «Rear Window» (1954), que em Portugal chegou sob o nome de «Janela Indiscreta». A Rádio sempre conviveu bem com títulos de programas arrancados ao mundo do Cinema. É uma fórmula eficaz, que não desvirtua ambos os universos. Todavia, no baptismo de espaços radiofónicos deveria tentar-se sempre criar nomes próprios sem os ir buscar ao Cinema ou a quaisquer outras fontes de inspiração mais ou menos óbvias. Mas, sublinho, a obtenção de títulos oriundos da arte cinematográfica é eficaz em rádio e costuma resultar.
«Janela Indiscreta» é também o nome de uma actual crónica (que espreita diariamente a blogosfera nacional) de Pedro Rolo Duarte na RDP-Antena1, já foi nome de um programa de divulgação musical da autoria de Ricardo Saló, também na Antena1, nos anos oitenta e desconheço se algum outro espaço radiofónico lhes antecedeu ostentando o mesmo nome. Também houve um blogue com o nome de «Janela Indiscreta». Agora há a «Janela Indiscreta» na TSF com a assinatura de Mário Augusto. Uma crónica diária que vale a pena ouvir pelo conteúdo que apresenta: histórias de bastidores das grandes películas, acontecimentos menos conhecidos e alguns fait-divers relacionados com actores, actrizes, realizadores e demais intervenientes na sétima arte. São crónicas bem documentadas e ilustradas com sons dos filmes referidos. O nome «Janela Indiscreta» assenta bem em qualquer um dos programas anteriormente referidos. Não é essa a questão fulcral. O que está mesmo fora de cena é coexistirem com o mesmíssimo nome, no mesmo tempo, em estações de referência concorrentes. Com tantos e variados títulos assinados pelo Mestre do suspense, não se arranjaria outra designação? O que diria Hitchcock?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Rádio nostalgia 1987

Mais um conjunto de temas da incontável série de songs they never play on the radio. A colectânea «Lonely Is An Eyesore» serviu para celebrar o sétimo aniversário da editora independente britânica 4AD. A etiqueta, que tinha no seu elenco artistas como os Cocteau Twins, Dead Can Dance e This Mortal Coil, estava no auge. «Lonely Is An Eyesore» foi para além da normal e costumeira colectânea de comemoração, prescindindo de eleger alguns dos temas mais relevantes do catálogo editado. Serviu para expor temas inéditos de alguns dos seus mais importantes artistas da época, somados ao supra citado trio mais representativo. Tem lugar na «Rádio Crítica» o alinhamento completo e original (com uma excepção) de «Lonely Is An Eysore», editado há vinte anos (ainda em 1987) porque foi a ouvir rádio que estes temas chegaram até mim. São pouco mais de quarenta minutos de um conceito puramente alternativo que, passadas duas décadas, já não existe. Qualquer um dos temas musicais que se seguem não cruzam os éteres nacionais e, quando o fazem, é sem o devido enquadramento. Mas encontrá-los ouvindo Rádio é como tentar encontrar uma agulha num palheiro. Mais do que certo é nem soarem em parte alguma. Alguns dos artistas aqui representados aparecem nas tais chamadas excepções do costume. Na RADAR, por exemplo, encontra-se um ou outro tema dos Cocteau Twins ou dos Wolfgang Press no espaço «Radar-20 anos» (segunda a sexta-feira / 20:00-22:00). Já agora saliento e saúdo o regresso à apresentação por um animador deste espaço, nomeadamente da animadora Catarina Pereira. «Radar-20 anos» esteve demasiado tempo sem locução. Um espaço de rádio – ainda por cima identificado e dirigido a um segmento de ouvintes – sem apresentação é sempre um lugar mais pobre. Contudo, o espaço «Radar-20 anos» tem pechas: inclui temas que nada têm a ver com o dito segmento e sofre, com isso, desvios desnecessários. Belisca o espírito primordial do conceito sob o qual se designa. Por exemplo, ouvir uma canção dos The Doors nestas duas horas – por muito bons que sejam (e são!) e por muito que goste deles (e gosto!) não os quero ouvir aqui. Estão fora do habitat e soa-me a falso. Os Doors acabaram em 1971! O mesmo acontece com os The Beatles (acabaram em 1970!) e passam no «Radar-20 anos». É uma situação por demais ambígua. A “fauna” natural do espaço «Radar-20 anos» é aquilo que eu sempre chamei de os outros anos 80. Muitos desses “espécimes” não estão contemplados. Pegue-se nos nomes deste alinhamento e junte-se outros tantos e mais outros ainda. Alternativos sim; os comerciais estão fora do contexto. Para isso já existe a M80, que também tem as suas pechas, mas aí o horizonte é assumidamente mais alargado. Vai dos anos 70 aos 90, sempre e só com os grandes êxitos que toda a gente – com mais de trinta anos – conhece de trás para a frente. Ou ainda, também para isso, temos a programação musical da RNA-Rádio Nova Antena, maioritariamente com hit-singles da década de 80. Em suma, ao espaço radiofónico «Radar-20 anos» exige-se, com legitimidade e propriedade, que se ocupe dos anos 80 sim, mas com uma maior incidência no panorama alternativo. E material vasto em quantidade e qualidade para isso não falta. É só acertar a agulha.

Lonely Is An Eyesore



Colourbox
Na impossibilidade da obtenção do videoclip do tema “Hot Doggie” – o original na colectânea «Lonely Is An Eyesore» – fica aqui o célebre “Pump Up The Volume” elaborado também por elementos dos Colourbox (no colectivo M/A/R/R/S), sob a chancela 4AD e datado do mesmo ano de 1987. Um single que rodou imenso nas rádios e que também teve expansão na TV. Na altura “Pump Up The Volume” serviu para calar muitas bocas maldizentes que acusavam a editora 4AD de ser incapaz de produzir um mega hit comercial. Eis a resposta, que atingiu o nº1 do top de vendas no Reino Unido.



This Mortal CoilAcid, Bitter and Sad
Um inédito do projecto pessoal de Ivo Watts-Russel, na altura o mentor e proprietário da editora 4AD. Os This Mortal Coil resultavam da colaboração interna entre músicos da editora e alguns convidados externos. A maioria do reportório assenta em versões de outros autores. À data, os T.M.C. tinham editado um EP homónimo (1983) que incluía a versão da canção “Song To The Siren” de Tim Buckley, na voz de Elizabeth Fraser e na guitarra de Robin Guthrie; o álbum «I’ll End In Tears” (1984) e o duplo «Filigree & Shadow» (1986). Editariam um derradeiro duplo álbum «Blood» (1991). Sob o mesmo mentor e conceitos, surgiria um outro projecto similar, sob o nome de «The Hope Blister» (1998). Ivo Watts-Russel há anos que deixou de fazer parte da editora.



The Wolfgang PressCut the Tree
A banda non sense da 4AD. Ironia, contraditório e perplexibilidade definem os Wolfgang Press. No ano anterior a este tema inédito tinham editado o álbum «Standing Up Straight» que contou com a participação de Elizabeth Fraser dos Cocteau Twins. Michael Allen, Andrew Gray e Mark Cox: um trio muito inventivo, por ventura o mais arty pós-punk em Inglaterra. Formaram-se em 1983 e nunca oficializaram o fim, embora o último trabalho editado seja de 1995.



Throwing MusesFish
A ala rock norte-americana da editora 4AD representada aqui pela banda de Kristin Hersh e Tanya Donelly. “Fish” foi gravado em 1986 (existe uma demo de 1985), mas não chegou a fazer parte de nenhum álbum dos Throwing Muses. É nesta canção que se encontra a frase Lonely Is An Eyesore que daria título a esta colectânea. Os Throwing Muses formaram-se em 1983 e desfizeram-se em 1997. Actualmente Kristin Hersh e Tanya Donelly seguem carreiras separadamente.



Dead Can DanceFrontier
A banda mística da grande casa de talentos que foi a 4AD nos anos oitenta. Aqui no primeiro trabalho gravado por Brendan Perry e Lisa Gerrard, ainda em 1979. “Frontier” viria a fazer parte do álbum estreia dos Dead Can Dance em 1984. Formaram-se sob a designação Dead Can Dance em 1981 na Austrália, emigrando no ano seguinte para Londres. Os Dead Can Dance conheceram diversas formações, mas a dupla original apenas se separaria em 1999, após oito álbuns e um EP. Em 2005 reuniram-se para uma digressão na Europa e América. Bendan Perry editou um trabalho a solo em 1999 e Lisa Gerrard mantém uma proficiente carreira a solo, sendo figura de proa em numerosas bandas sonoras.



Cocteau TwinsCrushed
Na galeria 4AD de 80, os escoceses [de Grangemouth] Cocteau Twins eram a jóia da coroa. “Crushed” foi o tema inédito que fechou o período de ouro da banda. A partir de 1988 foi sempre a descer, até à saída da editora em 1993 à dissolução em 1997. Entre 1982 e 87, os Cocteau Twins ofereceram sonhos pop delicodoce através das múltiplas vozes de Liz Fraser, a guitarra espacial de Robin Gutrie, Will Heggie (o primeiro baixista, apenas no álbum estreia) e a multi-instrumentalidade de Simon Raymond. “Crushed” é o canto do cisne desses tempos coloridos dos Cocteau Twins e a única produção deles editada em 1987.



Dif JuzNo Motion
Um conjunto de músicos que apenas editou dois álbuns. Os Dif Juz eram uma banda de instrumentais, mas contaram com a voz de Elizabeth Fraser no álbum estreia «Extrations» em 1985. Formaram-se em 1980 e duraram meia dúzia de anos. Aquando da edição de «Lonely Is An Eyesore» os Dif Juz já não existiam enquanto grupo. Alguns dos elementos viriam a fazer parte de bandas como os The Jesus & Mary Chain, Butterfly Child e Wolfgang Press.



Clan Of XymoxMuscoviet Musquito
Agrupamento holandês, que esteve na 4AD no início da carreira. Formaram-se em 1983 e ainda continuam a editar discos. “Muscoviet Musquito”, tema inédito e exclusivo para «Lonely Is An Eyesore», foi a última aparição dos Clan of Xymox na 4AD. O álbum «Medusa», em 1986, foi o ponto mais alto da carreira artística desta banda de Amesterdão.



Dead Can Dance – The Protagonist
Um longo instrumental aquando das sessões de gravação do álbum desse ano «Within The Realm Of a Dying Sun». Foi uma pena não ter ficado no alinhamento desse disco dos Dead Can Dance. No entanto, “The Protagonist” foi o tema escolhido por Ivo Watts-Russel para encerrar o alinhamento da colectânea «Lonely Is An Eyesore», na comemoração do sétimo aniversário da editora independente britânica 4AD.

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O que eles dizem (33)

O seu programa A Hora do Lobo acabou ao fim de dez anos no ar, na Rádio Comercial, porque, segundo a estação, não se encaixava na nova grelha. Foi realmente este o motivo?

O argumento foi esse. Que o meu programa não tocava a playlist da rádio. Mas os directores de programas mudaram e os administradores também. Enquanto me deixaram fazer a minha emissão, as coisas correram muito bem, a partir do momento em que me vêm dizer que A Hora do Lobo já não era adequada à nova grelha que vai entrar e que, em simultâneo, a minha voz já não faz parte do alvo etário a que se destina, então o fim era óbvio. Cheguei a ter o director de programas a dizer que era difícil imaginar-me à tarde a apresentar Shakira ou João Pedro Pais. Isso fica para quem o diz. Porque a seguir, se a SIC o quiser, estou a apresentar, em voz off, a Floribella, que não é para o meu grupo etário. É tudo uma questão de colocação de voz... Há um certo amargo na situação, principalmente na parte do " já não serve"!

Mas está de volta à rádio com o programa Viriato 25, na Radar. Como surgiu esta oportunidade?

Depois de resolver toda a questão logística com a Comercial, comecei a falar com pessoas. Houve uma hipótese na Antena 3, mas era para um horário madrugada dentro. Entretanto, falei com o Luís Montez da Radar, que acaba por ser o meu mentor porque nos encontrámos ao fim de dez anos, visto que foi ele que me levou para a Comercial em 97, para fazer A Hora do Lobo. E agora voltamos a encontrarmo-nos. Nesta altura, ele tinha uma proposta para mim, que eu considero de prime time [risos], que é fazer um programa das 23.00 à 01.00. Inicialmente, até era para ser das 22.00. E o mais curioso é que recebo imensas mensagens a dar-me os parabéns, por estar de volta.

(…)

O homem que marcou, musicalmente, várias gerações
António Sérgio, o homem da voz profunda e do anel com uma pedra de ónix preta (presente da mulher em 83), continua a fazer parte do universo de quem cresceu a ouvir a sua voz na rádio, desde a década de 70 na Rádio Renascença. Educou o ouvido de muitos, para géneros como o rock alternativo, o heavy metal ou o jazz, mas nunca pela música latino-americana, como o cha-cha-cha, ou o mambo. "Não gosto, nem nunca gostei", diz. Quando vem viver para Portugal, vindo de Angola, estranha o tipo de música que se ouve por esta bandas - francesa e italiana -, porque estava habituado a ouvir música anglo-saxónica, desde muito pequeno, que lhe traziam da África do Sul. Editou o primeiro álbum pirata de punk - Punk Rock 77 - que foi apreendido por ser considerado ilegal, mas acabou por ser absolvido do processo.

António Sérgio
In: «Diário de Notícias»
Segunda-feira, 24 Dezembro 2007
Entrevista de Catarina Vasques Rito

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Outono/InFerno



Rodrigo Leão – Voltar (2006)

O Amor é o tema mais utilizado no imenso universo de canções de todo o mundo. Todas as rádios de todos os países estão pejadas de canções de amor. Amores felizes (poucos), amores falhados (a esmagadora maioria), amores de todas as espécies: não correspondidos e por corresponder, traídos, doentios, fatais, fatalistas, perdidos, recuperados, letais, mortais, imortais e outros que tais. O Outono e o Inverno trazem a chuva e o tempo cinzento. Cenários evocantes de sentimentos melancólicos, derrotistas, tristonhos, pessimistas e resignados. Da chuva diz-se que é romântico. Não sei qual é romantismo que poderás encontrar nas mortes censuradas nas cheias de Odivelas em 1967, ou nos enormes danos que provocaram no Alentejo trinta anos depois e em outras incontáveis calamidades causadas por catástrofes naturais.
Para ti, que gostas do Inverno – e terás andado de pés descalços na neve da montanha – talvez não seja demais passares os olhos pelas notícias das intempéries de neve e chuva que matam pessoas, especialmente idosos e crianças por esse mundo fora, incluindo no Primeiro Mundo. Mas que magia teria a dança de Gene Kelly se não fosse a chuva, numa das mais felizes sequências cénicas de toda a história do Cinema? Que musa inspiradora teriam poetas e prosadores se ela não caísse do céu em forma de água? O Outono e o Inverno provocam efeitos contraditórios. As depressões e a taxa de suicídio aumentam no Outono e no Inverno. Já dizia Yourcenar: “No meio do triste e enevoado Inverno…”. É também por isso que nunca se devia ouvir dizer na Rádio “Amanhã vai estar bom tempo…”, ou “O tempo vai estar mau…”. Estará mau para certas circunstâncias, será abençoado noutras. A neutralidade na divulgação do boletim meteorológico é vital na Rádio. Sol na eira e chuva no nabal é coisa que nunca acontecerá. O aguaceiro é bom para a terra cultivada, mas pode provocar graves acidentes no meio urbano. O sol escaldante sabe bem para quem se bronzeia na praia, mas é terrivelmente penoso para o camponês que trabalha na seara. O tempo nem é bom nem é mau. É-o e ponto final. A Natureza não se compadece com estados de espírito.
Na Rádio já ouvimos todo o tipo de evocações amorosas em formato de canção. Nuns casos até à exaustão, noutros por falta de oportunidade e divulgação.
Num momento de inspiração, o tema “Voltar” faz voltar à memória todas as viagens impossíveis de retorno, nos meandros emocionais, num sempre instável equilíbrio sobre a ténue linha que separa o Amor do Ódio. Equilíbrio instável, como nos dias instáveis de Outono e Inverno, capazes de transformar a vida num autêntico inferno. Tristeza bucólica nos campos, caos e confusão nas cidades. Deseja-se então um regresso a casa. Procura-se um posto mágico e o descanso após um dia de estoiro. Com chuva ou com tempo seco, em todas as viagens a paisagem parece mais bonita no regresso.
E que tal uma canção sobre a filosofia da vida, por exemplo? Ei-la pelos Dead Can Dance, no album «Into The Labyrinth».
Hoje, mesmo em dias cinzentos e chuvosos, até mesmo pela calada da noite, é impossível de a captar no éter… é mais uma para a longuíssima lista de “Songs They Never Play On The Rádio”. As playlists não mudaram o tema dominante das canções difundidas, apenas a qualidade com que o tema é apresentado por essas cançonetas. Mas depois de ouvir-mos “The Carnival Is Over”, descobrimos que ela é, também, uma canção de Amor. Talvez seja o Amor a filosofia da vida.

P.S: Quem é que dizia isto?: Sinto a existência da felicidade pelo barulho que faz ao ir embora…



Dead Can Dance – The Carnival Is Over (1993)

Outside The storm clouds gathering,
Moved silently along the dusty boulevard
Where flowers turning crane their fragile necks
So they can in turn
Reach up and kiss the sky

They are driven by a strange desire
Unseen by the human eye
Someone is calling

I remember when you held my hand
In the park we would play when the circus came to town.
Look! Over here.

Outside
The circus gathering
Moved silently along the rainswept boulevard
The procession moved on the shouting is over
The fabulous freaks are leaving town

They are driven by a strange desire
Unseen by the human eye
Someone is calling
The carnival is over

We sat and watched
As the moon rose again
For the very first time


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O que eles dizem (32)

O grande Amor é a Vida.
O pequeno amor são as escaramuças.


Jorge Colombo
In: «Pessoal & Transmissível»
TSF-Rádio Notícias
Agosto 2007

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

5º melhor podcast do ano






Foi feita a eleição, no passado dia 15 de Dezembro, dos melhores blogues de 2007. Na categoria Podcast, a «Rádio Crítica» ficou na 5ª posição. A nomeação e votação ocorreu online. Nunca fui – nem sou – adepto de tops, aficionado de rankings, devorador de records ou outras almejadas formas de alcances famigerados. A existência de um blogue como a «Rádio Crítica» não corre para nada, não concorre com nada. Existe apenas para difundir ideias, reflexões sobre o mundo da Rádio, para expandir a paixão por esse meio de Comunicação Social, para destacar aspectos vários, principalmente os aspectos positivos. No entanto, há que respeitar outras opiniões e assim, resta-me agradecer aos leitores/ouvintes da «Rádio Crítica» que durante o ano 2007 estiveram em sintonia e quiseram realçar essa preferência através de uma votação. Apenas um reparo meramente técnico: a «Rádio Crítica» não é um podcast. Debruça-se sobre o fenómeno e tem dois podcasts acoplados [«Como no Cinema» e «Pontos de Fuga» ] mas, em bom rigor, não é um podcast, pelo que a sua qualificação na lista de melhores podcasts do ano está desadequada.

Ver classificação aqui

Ecos finais do ano






O alinhamento da última «Íntima Fracção» do ano que terminou, é antecedido por uma curtíssima frase que resume muita coisa: "…adeus cruel 2007…"
A sucinta frase pode provocar simultaneamente choros e risos, mas é capaz de ser difícil encontrar muita gente que consiga dizer o contrário. O ano findo não foi daqueles que mereçam ficar guardados num álbum cor-de-rosa. Razões para isso não faltam e, no universo da Rádio em Portugal, também não. Apesar de não ter acontecido nenhuma catástrofe no seio do éter, a verdade é que a Rádio não progrediu nada em 2007. Está ainda para se saber se é decadência ou apenas estagnação, sendo que a se for só esta última também não é positivo. O pior de tudo, e é uma factor pouco salientado, é que a cada ano que passa as audiências baixam sempre um pouco mais. A cada ano que passa, há sempre menos pessoas a escutar Rádio. Os factores são por diversas vezes bem apontados, mas isso não inverte a curva descendente da procura e dos investimentos publicitário, logístico e humano. A Rádio não está para acabar nem está próximo do fim, mas também está a demorar muito a redefinir-se, a expandir-se, e continua muito lenta a saber tirar partido das suas máximas valências. Um aliado novo da Rádio, o formato Podcast, não avançou nada em 2007. Apenas algumas estações tiram uma pequena parte do melhor proveito deste recente dispositivo, mas de forma incompleta e em alguns casos de forma negligente, dando-lhe pouca importância. É um erro estratégico, como já alguns conseguem ver. Está tudo nas mãos dos decisores, mas são esses que vêem menos…
As classes dirigentes mostram-se pouco ágeis a agir em conformidade com os tempos actuais. Por norma não agem, antes, reagem e muitas das vezes já tarde demais ou de maneira atabalhoada. Os dias que correm não contemplam encostos à sombra da bananeira. Correm velozes.

… e as perguntas…

Mais do que analisar, reflectir ou criticar, este espaço «Rádio Crítica» tem por vocação primeira levantar questões. Para já, são vinte perguntas que gostaria de ver respondidas, ao longo deste ano que agora dá os primeiros passos. Acho que algumas das respostas já as sei, mas acredito que haja alguém que as saiba melhor. Outras tantas nunca terão resposta, mas como perguntar não ofende…

2007 trouxe algumas respostas a algumas das questões aqui levantadas. Ei-las:

01. Porque é que não acabam as “rádios” gira-discos vazias de vozes e de conteúdos?
Não acabam porque são um negócio fácil, barato, que não dá milhões, mas vai dando algumas centenas, para além do poder que têm em impedir que outras existam.

(...)

03. Porque é que o programa do Provedor da RDP não tem um horário mais favorável?
Passou a ter outro horário e a ter repetições.

04. Porque é que o RCP não se assume claramente como sendo uma rádio informativa em vez de generalista?
As manhãs de segunda a sexta-feira são informativas, o resto da programação não assume essa vertente.

(…)

12. Alguém acredita no cumprimento das quotas de música portuguesa nas rádios?
Talvez nem quem fez a Lei acredite, mas já vigora.

13. Porque é que o jornalista Francisco Sena Santos não regressa à Rádio?
Continua a incógnita e o vazio, apesar do seu podcast diário em forma de Revista de Imprensa Internacional sob o nome «Assim Vai o Mundo».

14. Porque é que o narrador desportivo Fernando Emílio não regressa à Rádio?
Regressou, através de colaborações no renovado RCP.

(…)

19. Porque é que na rádio (não só na rádio) se ouve muitas vezes, por exemplo, isto: “Amanhã, previsão de nuvens a norte (…) e céu limpo a sul”. É linguagem habitual nas previsões meteorológicas para Portugal continental. Ora, a norte de Portugal continental está Espanha (Galiza); Golfo da Biscaia; Irlanda; parte da Escócia; Ilhas Faroé; Mar do Norte; Oceano Glaciar Árctico e o Pólo Norte. A previsão refere-se a qual destas regiões do planeta a norte de Portugal? A sul fica Marrocos e restante costa ocidental africana (hemisfério norte); Ilhas Ascensão, Santa Helena e Tristão da Cunha; Oceano Glaciar Antárctico e o Pólo Sul. A previsão do estado do tempo que se ouve na rádio refere-se a qual destas regiões do planeta a sul de Portugal?
Em 2007 continuaram-se a ouvir coisas assim e muitas outras. É descuido no Português, tornado vício.

20. Alguém responde? Porque é que ninguém responde?
Houve quem respondesse. Obrigado a todos.


Ecos nostálgicos de 1987
Era a Rádio o melhor e maior divulgador de música e no período em questão, na área da grande Lisboa, a estação de referência foi o CMR-Correio da Manhã Rádio.
A música difundida na rádio de há vinte anos (e alguns meses) trouxe algumas estreias comerciais auspiciosas:
Terence Trent d’Arby «Introducing the Hardline According to Terence Trent d'Arby» e Curiosity Killed the Cat «Keep Your Distance». No mundo da então chamada música alternativa, apareceram discos incontornáveis: Dead Can Dance «Whitin The Real of a Dying Sun»; Pieter Nooten & Michael Brook «Sleeps With The Fishes» e a colectânea comemorativa do sétimo aniversário da editora independente britânica 4AD «Lonely is an Eyesore».
Na reentré mainstream de há vinte anos (Setembro/Outubro de 1987) chamaram-lhe na Rádio “O Regresso dos Dinossauros”. Pink Floyd « A Momentary Lapse of Reason»; Sting, com o álbum «Nothing Like The Sun» e Bruce Springsteen (pela primeira vez sem a E-Street Band) com o album «Tunnel Of Love».
Vinte anos depois, o mesmo Springsteen regressou com «Magic» e trouxe consigo a mítica E-Street Band. Toda esta malta jovem – a rondar os sessenta anos de idade – está desiludida com os actuais caminhos da Rádio. “Rádio Nowere” soou em poucas rádios em Portugal. Se a letra fosse cantada em português, ainda tocaria menos.

This is radio nowhere, is there anybody alive out there?

I was spinnin' 'round a dead dialJust another lost number in a file

Dancin' down a dark hole
Just searchin' for a world with some soul

I want a thousand guitars

I want pounding drums
I want a million different voices speaking in tongues

This is radio nowhere, is there anybody alive out there?

De ouvidos bem abertos














Mais uma sessão única, desta vez na principal sala da Cinemateca Portuguesa. Numa outra sala, também ela grande e repleta de público, assisti à estreia da derradeira obra de Kubrick, já com o autor morto, em 1999. Lembro-me das caras das pessoas à saída dessa sessão. Olhares dissimulados entre confusão e perplexidade. Um não sei quê de esquisito estampado nos rostos, lembrando uma das sequências mais eloquentes do próprio filme, aquando das máscaras em primeiro plano. Espanto e surpresa. O filme até que estava a ser… digamos que normal, até à chegada ao baile de máscaras. A partir daí o enredo dá uma grande volta e a dimensão do imprevisto é total. Lembro-me de nessa estreia nacional ouvir alguém na sala fazer soar um exclamado “mas o que é isto?” Anos depois, outra sessão de Eyes Wide Shut, estritamente caseira, na Adelaide Cabete, aos pés de um aquecedor e uma manta sobre os joelhos. Outra vez a perplexidade, o espanto e um silêncio inquietante.
Agora esta sessão muito mais partilhada, com um público mais maduro e informado. A plateia assistente já sabia ao que ia. Era uma revisão, não uma visita debutante.
A música que acompanha a história de Eyes Wide Shut tem a magnitude e eficácia que atravessa quase toda a obra de Stanley Kubrick. A selecção musical, a cargo do próprio cineasta (melómano de reconhecido bom gosto erudito) é também ela uma personagem fulcral na teia de acontecimentos da acção. Marcante. Indispensável. Nos momentos em que a música é o agente principal no desenrolar dos acontecimentos, não pude deixar de lembrar que aquelas peças sonoras da autoria de Jocelyn Pook, ou de György Ligeti, foram montras luminosas na noite da Rádio quando ainda era permitido – em directo – pegar nelas e espalhá-las nos ares. Tudo uma questão de saudade e algo mais.
Naquela noite, o Museu do Cinema fechava o ciclo «Temps d’images: o Cinema à volta de cinco artes, cinco artes à volta do Cinema» [coreografia]. Eyes Wide Shut foi apresentado pelo co-programador Pierre-Marie Goulet e, antes da sala escurecer, ficou bem vincada a ideia que, apesar das críticas depreciativas e da censura nos Estados Unidos (onde o filme foi encurtado a fim de não mostar o festim), o último filme de Kubrick perdurará no tempo. As críticas negativas e a censura passarão, a obra permanecerá.
A sessão na Cinemateca coincidiu com o dia da última publicação em podcast da série de programas «Pontos de Fuga», em que o convidado foi João Bénard da Costa. Nessa emissão, o presidente da Cinemateca explicou o efeito onírico do cinema que, em certa medida, reproduz o mecanismo do adormecimento. Quando estamos a rever um filme que nos marcou e/ou que gostámos muito estamos, conscientemente ou não, a querer repetir as sensações da primeira vez. Estamos a pedir à sala de projecção da história: conta-me outra vez!

…a realidade de uma noite, para não falar na de toda uma vida, possa alguma vez ser toda a verdade.
– E que nenhum sonho é apenas um sonho.