segunda-feira, 23 de maio de 2005

LONGA É A ESTRADA

A ideia não é minha. Foi-me contada há mais de uma década. Era uma boa ideia na altura, continua a ser agora. Não é inédito. Já existe na prática em outros países, mas está ainda por fazer em Portugal. Rádios de auto-estrada.
São estações de rádio só captáveis nos percursos de auto-estrada, com repetidores de sinal de x em x quilómetros. Esta rádio-serviço destina-se ao apoio aos automobilistas que todos os dias - aos milhares - cruzam as auto-estradas e vias equiparadas (IP; IC). Fornecem informações úteis a quem está ao volante. Rotas, destinos, percursos alternativos, informações sobre as regiões que atravessam, referência a locais importantes (e outros), as sempre úteis e inevitáveis informações de trânsito, música de viagem, uma companhia específica e coincidente com quem passa muitas horas em trânsito em viagens rodoviárias de médio e longo curso. A qualquer hora do dia ou da noite.
Neste Portugal esventrado (desfigurado) por estradas rápidas, faz todo o sentido que haja pelo menos uma rádio dirigida unicamente para quem está em trânsito fora das grandes cidades, estradas nacionais e secundárias. Uma LONG ROAD RADIO para os condutores de longo curso e outros viajantes rodoviários. O ideal seria cada auto-estrada ter o seu serviço-rádio específico, mas como por cá ainda nem uma rádio com este perfil existe, não vale a pena sonhar com uma multiplicidade de canais deste género. Economicamente seria pouco ou nada viável. Mas uma estação assim a nível nacional 24 horas por dia, não só é viável como é necessária. Uma rádio, com este tipo de missão é capaz de tornar menos penoso o tempo da viagem, sempre captável, sem os constrangimentos oferecidos pelas zonas de sombra em que várias – às vezes todas - estações perdem a sintonia (túneis; regiões montanhosas) e também sem as habituais falhas do sistema RDS.
Há já largo tempo que se diz que em rádio tudo está inventado, pelo menos em Portugal. Nunca acreditei nisso, pois não me parece que seja verdade. Acho que há muito por fazer na rádio, e mesmo que se faça algo já não pela primeira vez, sempre se pode fazer de muitas e diferentes maneiras.
Parafraseando o maestro António Vitorino de Almeida, "o acto de ter ideias não custa dinheiro".
Nestes dias em que nos fazem crer que a rádio bateu contra uma parede, está aqui uma boa ideia não descabida no panorama nacional. Acho-a bastante válida. Continua a ser concretizável e continua a ser uma excelente ideia.
Alguém quer pegar?

segunda-feira, 16 de maio de 2005

O JORGE MORREU

Os loucos abrem os caminhos que depois emprestam aos sensatos
Carlo Dossi

Estava a ser preparado um texto sobre relatos de futebol para este blogue. Dedicaria espaço à complementaridade de estilos diferentes de relatar, mas não necessariamente antagónicos, da fantástica dupla de narradores desportivos Fernando Correia/Jorge Perestrelo. Estava a ser pensado para depois da final da taça UEFA , final do campeonato da Superliga e depois da final da taça de Portugal.
É assim o destino. Atraiçoa-nos como o coração. Como o coração atraiçoou a vida de Jorge Perestrelo. Muito foi dito sobre o jornalista após a trágica notícia. Pouco ou nada posso acrescentar. Tive que deixar passar uns dias. Não é fácil falar sobre o inesperado desaparecimento de um companheiro da rádio. Mais que uma dor de alma, é uma dor de rádio... porque esta perde um dos seu grandes vultos em troca de um vazio que vai durar muito. Perda para a rádio portuguesa em geral, para a TSF em particular.
Muito se lhe criticou a falta de exactidão jornalística, entre outras coisas, mas a imparcialidade de Jorge Perestrelo foi tal que só no dia seguinte à sua morte fiquei a saber que ele era simpatizante do Benfica (e trabalhámos na mesma rádio durante onze anos...).
À parte dos excessos de linguagem e outros, a alegria contagiante e o entusiasmo não podiam deixar indiferente quem o ouvisse. Não havia meias tintas, para o melhor e para o pior. Havia nele um aguçado espírito crítico não só contra a corrupção no futebol, como nas manchas nebulosas da classe a que pertencia. E ele disse-o repetidas vezes: "Nos tempos da ditadura, quem fosse contra era censurado ou ia para a prisão. Hoje vai-se para a prateleira".
Por vezes perdia-se em assuntos e conversas paralelas, deixando o ouvinte sem relato e sem saber o que estava a acontecer em campo, fazendo com que os unicamente interessados no jogo de futebol, mudassem de estação à procura do relato propriamente dito. Mas também é verdade o contrário. Prendia muitos ouvintes que se divertiam com o "show" do Perestrelo.
Tendo como exemplo a frontalidade que sempre o caracterizou – e que tantos dissabores lhe causaram – há algo que não devia passar despercebido: no desfile de coristas (muita atenção: NEM TODOS!) que sempre aparecem nestas ocasiões, não faltaram os outrora detractores a tecerem os previsíveis, habituais, necessários (?) elogios. Os mesmos que já o quiseram fora da rádio. Pela hora da morte!
Na dor da perda irreversível, há que separar o bestial da besta que em todos nós habita. O Jorge ou era amado ou odiado, amado e odiado em simultâneo, mas nunca causou indiferença. Isso era impossível. Em muitos dos relatos dele que ouvi (desde o início dos anos 80 na Rádio Comercial) e dos muitos que "tive" que ouvir, havia um recorrente agradecimento aos "deuses do futebol". O Jorge nunca se cansou de afirmar com todas as palavras que o futebol lhe deu muito na vida e agradecia sentidamente esse privilégio. Agora é o futebol, enquanto espectáculo, que lhe fica a dever e muito. Serão necessárias pelo menos duas décadas para que apareça outro assim, mas daqui a vinte anos ainda haverá quem se lembre do estilo de Perestrelo e faça as naturais comparações. Não sabemos hoje se daqui a vinte anos existirão (ainda) relatos de futebol na rádio, ou sequer se existirá Rádio nos moldes actuais. Sabemos apenas que tudo muda e que nada se repete, e o Jorge era a prova provada (era preciso?) que são as pessoas que fazem a rádio e não o contrário. Ele era um criativo, pleno de cor e vivacidade. Lusófono dos três vértices: Portugal, África e Brasil.
Foram 56 anos de vida intensa, tensa, cheia. O coração tende a trair os que querem agarrar a vida com unhas e dentes.
Prematuramente, o Jorge morreu.


A mim, o que interessa é o espectáculo!
Almada Negreiros


Para memória, eis algumas das expressões mais conhecidas criadas por Perestrelo, proferidas em directo durante anos a fio e que ficaram no seu léxico rádiofónico:

"Que bonito é...as bandeiras desfraldadas ao vento...é disto que o meu povo gosta"

"Comigo...riiiiiiiiiiiiipa na rapaqueca"

"Eu, com a minha barriguinha, chegava e facturava"

"Que os deuses do futebol estejam com a selecção portuguesa"

"Ai, ai, ai que o meu coração não aguenta"

"Aguenta coração"

"É fora de jogo, tá levantado o pau"

"Daí, meu querido...nem que o jacaré tussa, digo eu"

"O que é que é isso, ó meu"

"Chuta-me essa merda"

"Bateu nas orelhas da bola"

"Fez a revienga, nion"

"Eu peço aos meus camaradas aí da Matinha para me darem mais graves nos auscultadores, por favor... faltam-me graves na voz"

"O pessoal lá da Matinha deve estar é a ver o canal 18..."

"Não conheço a chipala ali do camarada"

"Futebol sem golo é como comer muamba sem gindongo"

"Isto é um golo de merda! Não relato mais!"

segunda-feira, 9 de maio de 2005

lado B (b)

No passado sábado à noite estive como convidado no programa "lado B", de Pedro Esteves, na Rádio Ocidente. Tal como tinha prometido, aqui está um breve resumo de alguns dos momentos mais importantes da conversa, úteis para quem não pôde ouvir. Como previsto, falou-se de rádio e de música, mas muito ficou por dizer. O tempo passou a correr. Mais abaixo, encontram-se os temas que escolhi como "o meu lado B" que também podem ser consultados aqui.

«...uma coisa que nós precisávamos... música nova para uma sociedade nova e a rádio seria o caminho certo para isso.»
(...)
«A rádio é o território pátria até mesmo para os gostos que se cultivam em Portugal, que estão nivelados muito por baixo.»
(...)
«...em relação à rádio feita hoje em dia... a importação que se fez sem tratamento nenhum, sem filtragem dos modelos que se praticam na América, nos "states"... foram importados e não foram tratados... não encaixam...»
(...)
«As "playlists" vieram nivelar por um nível que não é o mais alto.»
(...)
«Há uma série de trapalhadas que as "playlists" vieram provocar. Há o divórcio da comunicação, e eu acho que rádio é casamento, não o divórcio que há entre o ouvinte e o animador, o apresentador.
...em qualquer rádio, seja ela uma rádio de informação ou de música 24 horas sobre 24 horas, tem que haver uma ligação entre a pessoa que vai para o ar e apresenta – e dá a cara, neste caso, a voz – um produto, tem de identificar-se com aquilo que vai para o ar. Hoje em dia temos gente a apresentar coisas que não sabem o que são, de onde vêm. Porque é um fulano que nós nem sequer conhecemos de lado nenhum que escolhe as músicas "e agora toma lá disto e despeja aí uma série de horas de música". Quando eu defendo isto é para todas as rádios, não só para a minha rádio ou para esta (Ocidente). É para todas.»
(...)
«...e castra o nascimento de novos talentos. Como é que eu posso falar de um assunto que não domino, quando alguém o impõe? É uma forma de fazer tábua rasa de tudo quanto é gente que possa fazer coisas diferentes. É um fenómeno social, é cultural, é um dos lados negros da globalização. Porque o que nós deveríamos ter era a percepção de extrair o que de melhor a globalização traz... mas não, fazemos precisamente o contrário.»
(...)
«Deverá, sem dúvida, haver uma orientação musical numa rádio que seja de música... de haver uma "playlist", mas uma "playlist" feita pelos profissionais dessa rádio, que é para não haver o tal divórcio entre quem faz e quem apresenta. Tem de haver o tal casamento de comunicação e isso é transmitido para o ar. O ouvinte sente isso.
(...)
«A rádio é um processo de criação. Sem dúvida, é uma forma de arte... uma forma de arte quando é feita com arte. Não é desta maneira... que isto que nós temos hoje é uma soma de partes...é uma manta de retalhos em que é música mais informação, que por sua vez tem mais publicidade, e a seguir vem um relato, e a seguir vem uma entrevista...portanto, não há nada que una isto. Eu entendo a rádio como um todo e tudo tem de ter a ver com tudo. O apresentador tem que ter a ver com aquilo que apresenta e o que vem a seguir tem de ter a ver com o que esteve antes e o que vem depois...»
(...)
«Tudo tem uma razão, e o que se ouve hoje é a soma de partes. Tijolos em cima de tijolos.»
(...)
«Eu acho que estamos a caminhar para o marasmo, se é que já lá não chegámos.»
(...)
«Hoje em dia temos uma "playlist" que dura meses que não se altera quase nunca, com cinquenta ou quarenta e cinco ou oitenta temas. Só podendo passar esses, ficam milhares de fora.»
(...)
«Nós hoje vivemos numa censura à música de qualidade, à variedade. Isto de qualidade é muito subjectivo. Cada um entende a qualidade à sua maneira, mas eu acho que hoje existe uma censura, um castramento, um linchamento, um estalinismo na música que passa nas nossas rádios. O panorama que vai desde o início até ao fim do FM do nosso espectro... nós estamos a ouvir o mesmo disco. Às vezes há rádios – e falo das maiores rádios, das rádios de dimensão nacional – que estão a passar o mesmo disco à mesma hora. E isto é aflitivo, numa altura em que há acesso a muito mais música do que nós tínhamos acesso há cinco ou há dez anos.»
(...)
«É a velha história sobre o que é que nasceu primeiro... se o ovo se a galinha.
Se não houver divulgação, não há produção, se não há produção não há distribuição, se não há distribuição não há vendas, se não há vendas o mercado está como vemos hoje.»
(...)
«Nós não podemos cair nunca na falácia de "dar ao ouvinte aquilo que ele quer ouvir". Temos que dar ao ouvinte aquilo que ele não sabe que existe. Dar a conhecer. Diversidade, diversidade. Não é o que temos hoje.»
(...)
«A Internet é muito bem vinda para conhecermos coisas novas. Para conseguirmos coisas (música) que já não conseguimos em nenhuma loja, raridades, discos que já saíram de mercado, etc...»
(...)
«As editoras é que têm que se adaptar ao novos tempos. Não é possível que um disco com mais de vinte anos custe quase quatro contos/vinte euros. Isto é um absurdo. Como é os 19% de IVA. Um disco tem que ter 5% de IVA que é o que tem um livro. É um produto cultural. Não me venham cá dizer que é entretenimento, que não é.
Eu não vivia sem a música. Acho que a minha vida era uma lástima sem a música. Há uma velha frase de um programa belíssimo que existiu nos primeiros anos da TSF, que era um programa chamado "UNO", que tinha uma frase chave, que era a frase mestra da emissão, que é: "Sem música não há vida, não há vida sem música"... e isto diz tudo. Não é preciso dizer mais nada.
(...)
«A Internet não veio tirar lugar às editoras... as editoras é que se estão a anular a elas próprias não se adaptando.»
(...)
«Os mercados (musicais) têm que se abrir.»
(..)
«Há espaço para as editoras e para os downloads legais na Internet.»
(...)
Eu necessito muito de ter música "visual", isto é, ter o inlay, o livrinho, as informações, as fotografias, os alinhamentos e a caixa... a caixa do CD.»
(...)
«O blogue (Rádio Crítica) é para, essencialmente, aquilo que ainda vale a pena ouvir em rádio... programas de autor. É um blogue construtivo. É positivo. Não é para dizer mal, porque se fosse para dizer mal tinha que ter dez blogues, ou coisa assim. Basta um para dizer o que ainda vale a pena ouvir.»
(...)
«É um blogue em que não haverá espaço para o insulto nem para o golpe baixo.
É coisa rara, porque no meio rádio há muito submundo, e este blogue é para partilhar, dentro da minha perspectiva pessoal de ouvinte. Eu (aqui) assumo o meu papel de ouvinte, que tem o privilégio de fazer rádio e de estar na rádio. É a perspectiva de quem ouve. Eu falo (escrevo) sobre programas que não conheço (na esmagadora maioria dos casos) o autor... não conheço a rádio, sequer.»
(...)
«Crítica positiva! Eu quero fazer a crítica construtiva. Dar relevo ao que é bom em rádio ainda hoje, apesar do panorama ser dantesco, ser estalinista, ser muito mau e cada vez pior. Mas ainda existem ilhas de bom gosto, de resistência.»

A minha selecção "ladoB":

José Afonso - Maio maduro Maio
Kraftwerk - radioactivity
John Cale - (I keep a) close watch
Robert Wyatt - memories of you
Dead Can Dance - dawn of the iconoclast
Hugo Largo - grow wild
Wunder - how we are

Francisco Mateus

quinta-feira, 5 de maio de 2005

lado B

No próximo Sábado à noite vou estar no programa "lado B", na rádio Ocidente. Fui convidado pelo autor do programa para "revelar" o meu "lado B", escolhendo alguns dos temas musicais que mais gosto e, essencialmente, para falarmos de rádio. Vão ser abordados vários ângulos da rádio que se pratica em Portugal e, como sempre acontece nestas ocasiões, muito vai ficar por dizer. Mas não perderei a oportunidade para dizer o que penso, por exemplo, sobre o fenómeno das "play-lists". Na próxima semana colocarei em texto alguns dos momentos do programa, principalmente para quem não pôde escutar a emissão. O programa "lado B", da autoria de Pedro Esteves, insere-se numa série de emissões que encontram espaço em rádios locais (ou regionais, se ocupam mais que uma frequência), onde é menor a miríade de obstáculos à realização de rádio em nome próprio. Mal remunerados ou mesmo não remunerados, os espaços de autoria em rádios locais espalhadas pelo país, vão do melhor ao pior. As rádios e os programas. Mas também há os de eleição, merecedores de maiores palcos. O "lado B" faz parte destes.
É um espaço de uma hora de divulgação musical, audível na grande Lisboa (rádio Ocidente, 88.0 fm / sábado para domingo, 00:00/1:00). Como o nome indica, são outras as músicas seleccionadas pelo autor do programa, Pedro Esteves. Outras paisagens musicais no vasto universo alternativo pop-rock anglo saxónico na sua maioria. No "lado B" sabe-se que toca o quê, de onde vem, o que faz e por ventura para onde vai. Ou seja, não se resigna a ser mera passagem de música, mesmo que diferente. É informação. Fica-se a saber algo mais, e isso é já desde si, uma marca distintiva nos programas que se dedicam a esta matéria, fazendo uso da tecnologia global para publicar alinhamentos, críticas e sugestões disponíveis na internet, embora a rádio Ocidente não esteja on-line. O programa "lado B" tem também, à média mensal, um convidado em estúdio para conversar e "mostrar" o seu "outro lado". Os programas de autoria nas rádios locais gozam de uma liberdade criativa actualmente quase inalcançável nas estações de maior dimensão. Há casos de puro amadorismo, onde ainda se joga com amor à camisola, o que é compreensível e necessário, pois as pessoas que querem fazer rádio têm de
começar por algum lado. Existem programas com longo historial nas pequenas rádios e que já se tornaram "parte da mobília". São marcas das estações que os emitem e têm seguidores atentos e fãs fiéis. Estes realizadores de alma romântica subsistem no éter pelo poder da força de vontade e não pela vontade da força.
O programa "lado B" completa este mês de Maio o primeiro aniversário.

Francisco Mateus

segunda-feira, 2 de maio de 2005

Porto sem Abrigo
















Seria demasiado chamar-lhe "velho" homem da rádio, porque apesar de alguma veterania, acho que ele ainda tem muito para nos dar. Álvaro Costa. É ele o condutor do programa "Porto Sem Abrigo" nas noites de 5ª para 6ª na Antena1, da meia-noite à uma.
E o que é este Porto desabrigado? Pode ser muita coisa. Depende do tema que Álvaro Costa queira pegar e desenvolver durante uma hora de pura autoria radiofónica.
Recentemente, por exemplo, homenageou o mítico John Peel, após a notícia da morte do mais famoso radialista britânico. Ou mais recentemente ainda, uma hora em directo (via telefone) com José Cid, onde numa deliciosa conversa se desfiou com muita eficácia a vida do lendário Quarteto 1111. Para quem não sabe ou já não se lembra, o Quarteto 1111 foi uma banda de vanguarda num Portugal cinzento e triste nos tempos da "velha senhora". José Cid lembrou com toda a oportunidade que o quarteto que liderava foi o primeiro grupo português a ser emitido no saudoso e histórico programa "Em Órbita" nos anos sessenta. Um dos (muitos, imensos) artistas portugueses actualmente proscritos nas rádios nacionais, foi lançado no conhecimento português ao mais alto nível radiofónico no programa que mais à frente estava, furando o bloqueio intencional que o lendário programa de rádio "oferecia" à música portuguesa. A apresentação então feita rezava assim:

«Ao fim de dois anos e meio de emissão diária EM ÓRBITA inclui pela 1ª vez na sua sequência um original escrito em português. Na justificação então apresentada para esse precedente cuja abertura teve uma boa dose de sensacionalismo e de inesperado concluía-se nos seguintes termos: Temos para nós que, o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos
mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de EM ÓRBITA acarretam.
Tendo por título "A Lenda de El-Rei D. Sebastião" é escrito por um português tocado e cantado por portugueses. Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo,
focando em especial aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.
O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita de versos directos, certeiros, desenfeitados. Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país. É um tema eterno, de criação nacional e de vaidade perene e universal.»

EM ÓRBITA, Agosto 1967

Este Porto também foi abrigo, em pelo menos três emissões, para a merecida homenagem aos 25 anos dos GNR e do meio século de vida de Rui Reininho. Em suma: uma hora semanal de um comunicador nato - Álvaro Costa poderia estar a falar deliciosamente durante sessenta minutos sobre cinzeiros e ninguém daria por o tempo passar - qualquer tema pode ser assunto neste
"Porto Sem Abrigo", projectando sem pejos as potencionalidades de uma cidade invicta para o século XXI. Do norte "um convite à tribo da rádio". Do Porto para Portugal e para o mundo. Assumidamente.
(Álvaro Costa é também co-autor do programa "Bons Rapazes" na Antena3, em parceria com Miguel Quintão e Cristina Alves nas noites de Domingo. O percurso de Álvaro Costa na rádio portuguesa começa em 1980 no Programa3 da RDP, que passa a chamar-se Rádio Porto, mais tarde Rádio Comercial Norte; NRJ-Rádio Energia; Antena1; Rádio Nova; Antena3. Nasceu a 29 de Agosto de 1959).

E o que pensa actualmente Álvaro Costa sobre a rádio? Socorro-me (mais uma vez) do semanário BLITZ (11/Janeiro/2005) que dedicou largas páginas ao fenómeno e ao estado da rádio em Portugal:
«Durante uma década, o espaço tradicional de comunicação rádio foi-se perdendo e, mais do que marginalizado, foi colocado num gueto e olhado com algum receio virológico por parte dos fatos cinzentos. Isto quer dizer que, à medida que o tempo vai passando, certos nomes vão-se afastando. Para haver rádio de autor é preciso que haja comunicadores apaixonados, subjectivos,
capazes de ter opinião e, ao mesmo tempo, de perceberem aquilo que os rodeia. Não defendo o "ó tempo volta para trás" mas o que me parece absolutamente bizarro entre nós é o exagero, a distorção, o absurdo, o desequilíbrio (no jogo de forças entre o modelo de playlists e a rádio de autor)».
(...)
«Tecnologicamente, a evolução da rádio em Portugal é assombrosa. A questão é que essa tecnologia surgiu numa altura em que é muito difícil fintá-la. Ou seja: o comunicador de hoje tem à sua frente meios que lhe dão um outro rigor e embrulho, mas que fazem dele um prisioneiro. O apresentador de hoje gravou de véspera o patati-patata que vai dizer um milhão de vezes durante o ano. Depois faz-se um mix e temos um programa de rádio do século XXI com cinco horas. Este vazio está a criar profissionais cuja única função é mexer em botões. Tanto faz ter lá o Pato Donald ou o Emplastro - desde que saibam carregar nos botões e digam umas coisas já absolutamente desenhadas pelos marketeers, temos rádio. A questão é: como equilibrar isto tudo?».
(...)
«Quando se fala em números, ninguém fala da quantidade de pessoas que a rádio, em geral, vai perdendo ao longo dos anos. Isso é que é o principal para mim. Mas também há que ser claro: temos 50 e tal canais de televisão, internet, jogos de computador, o cinema de massas que nos últimos 10 anos se tornou uma alternativa poderosíssima. Hoje, a música (ou seja, aquilo que,
essencialmente, é veículado pela rádio) já não é o centro da vida das pessoas, como foi há algumas gerações. Por outro lado, há essa ideia peregrina de uma espécie de digitalização sem quaisquer limites da comunicação rádio. E o Porto não poderia fugir a essa regra. O Porto não tem, nesta altura, massa crítica, nem humana, nem económica, para ter estações autónomas».
(...)
«A morte do John Peel abalou um bocadinho algumas consciências ou, pelo menos, obrigou as pessoas do meio a falar de algumas coisas. Por outro lado, há meia dúzia de resistentes...e não falo daquela cena patética de não ter consciência da realidade. Eu sou um defensor da playlist criativa, aberta, que sirva para arrumar e não para tornar o comunicador num prisioneiro digital. E há uma coisa importantíssima: as pessoas confundem comunicar com falar. Pode-se estar 10 minutos ao microfone e não dizer nada, como estar 30 segundos e dizer muito».
(...)
«Está tudo tão computorizado que, se o mundo acabasse hoje, parte das rádios portuguesas só o dizia amanhã...»

E acrescento eu: ... e muitas outras nunca o diriam, pois não está lá ninguém dentro para o fazer.