segunda-feira, 25 de abril de 2005



A NOVA SENHORA

Aquando o 30º aniversário do 25 de Abril, em 2004, levantou-se – com toda a razão de ser – uma polémica em relação à tentativa de retirada da letra "R" na palavra "Revolução" em troca da palavra "Evolução". Passados 31 anos, Revolução sim, Evolução talvez. Depende das áreas que queiramos analisar. Na rádio, Revolução não, Evolução ainda menos.
Até há pouco tempo, ainda era possível ouvir na rádio os cantautores de intervenção que por via da história ficaram ligados à revolução. Quase sempre acontecia no dia 25 de Abril (e até mesmo no 1º de Maio). Era previsível que assim fosse, pelo menos nesse dia, ouvir-se com toda a naturalidade canções de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Luís Cília, Manuel Freire, etc. Não constituía surpresa que nesse dia passassem na rádio "Grândola Vila Morena", "Queixa das Almas Jovens Censuradas", "Trova do Vento Que Passa", "Pedra Filosofal", entre muitas outras canções.
Era previsível, era esperado, não era surpresa, mas era necessário. Chegados às três décadas do dia que mudou Portugal, já é quase impossível ouvir aquelas canções que ficaram ligadas à revolução. Não era previsível, nem esperado. Foi uma surpresa e não era necessário.
O que fez mudar – por um dia no ano – o saudavelmente previsível e o naturalmente necessário? A "evolução"? A mudança de mentalidades? Nada disso. Apenas a formatação das rádios e a ditadura desse instrumento (?!) chamado "play-list". A "lista" corta a direito e não contempla a diferença neste dia diferente. Faz tábua rasa da história e da memória. Como formato importado que é, não se adapta às realidades de cada contexto especifico em que é implementada. É um acto sofisticado de censura silenciosa, camuflada.
Pouco ou nada visível, mas que existe e persiste em surdina. Chamam-lhe "estratégia"; marketing; "leis do mercado"; "livre comércio"; adopção de "formatos de sucesso"; etc... eu chamo-lhe censura. Uma forma nova de censura, difusa, inconcreta, sem cara nem corpo físico, logo diferente das formas de censura clássicas que ficaram conhecidas pelas piores razões em Portugal durante 48 anos.
Um radialista que tenha um disco novo (e, ao contrário do que as rádios "mostram", há discos novos e bons todos os dias!) e o queira partilhar com os ouvintes, chega à rádio onde trabalha e não o pode fazer. Está literalmente impedido de fazê-lo. Nem um só tema! Não pode partilhar com quem deve partilhar uma descoberta, uma nova edição, uma reedição ou uma notícia ou curiosidade que se envolva no contexto musical. Se o fizer sofrerá consequências disciplinares. O que é isto senão censura?
Neste dia 25 de Abril, em que rádios nacionais se pôde escutar, por exemplo, a voz de José Afonso? Independentemente de José Afonso ter sido um dos mais destacados autores da chamada cantiga de intervenção e de "Grândola Vila Morena" ter sido magistralmente utilizada como uma das senhas da revolução em Abril de 74, estamos diante de um outro problema bem grave. José Afonso deveria fazer parte dos temas musicais emitidos em qualquer rádio que se preze. Não só no dia da liberdade, mas na liberdade de todos os dias ao longo do ano. Por critérios unicamente ligados com a qualidade. Quando estamos a falar de José Afonso, não estamos a falar de um qualquer artista que obteve êxito nos tops de vendas, ou que teve um hit, ou até que tenha feito um álbum bom. Quando falamos de José Afonso falamos de um dos melhores músicos, compositores e intérpretes de todos os tempos em Portugal.
Falamos do autor (pelo menos para mim) do melhor disco de música portuguesa alguma vez feito: o álbum "Cantigas Do Maio". Toda a obra de José Afonso ultrapassa em muito todas as conotações políticas. É um esteta eclético, intemporal, moderno, único, lusófono, universal.
No entanto, ele está actualmente proibido na rádio. Não por decreto lei, não por imposição de regime, não por ser branco ou por ser português. Mas censurado, sim. O que para o caso vai dar no mesmo. Ele e milhares, milhões de outros. José Mário Branco, por exemplo, editou em 2004 (30 anos depois do 25 de Abril) um novo e magnífico trabalho. Ouviu-se com regularidade na rádio? Não! E hoje, alguém o consegue "captar" na rádio? Também não! Há também gente mais nova a fazer coisas interessantes na música em Portugal, mas não há divulgação na rádio para eles. Alla Polacca; Novembro; Melo D; Sloppy Joe; Les Éléphants Terribles; Old Jerusalem; Los Tomatos; Cool Hipnoise; etc. Onde os podemos ouvir? Não na rádio, salvo sempre as raras (cada vez mais raras) excepções.
Que rádio temos nós que não "arranja" espaço para os melhores? Até os Beatles (mundialmente reconhecidos como a melhor banda de sempre) estão fora das "play-lists". Em detrimento de outros infinitamente menos valiosos. E os Beatles nunca deixaram de ser notícia desde 1962!
Os cantautores de intervenção eram proibidos porque as mensagens que transmitiam faziam pensar. Abalavam as consciências adormecidas pelo desconhecimento e acossadas pelo medo.
Eram proibidos porque despertavam o pensamento para o espírito crítico, para a lucidez sobre o que se estava a passar política e socialmente no país. Eram proibidos porque as letras das suas canções mostravam o caminho para sair da lama que alimentava os algozes, porque faziam reflectir no que não poderia ser ignorado.
Eram proibidos porque levantavam a cortina de ferro que fazia de Portugal um campo de concentração mental.
E hoje, são proibidos porquê? Pelas mesmas razões? Os "play-listers" sempre podem dizer que se quiserem colocar José Afonso na lista de "passáveis" que o poderão fazer sem restrição nenhuma. A verdade é que não o fazem. Podem alegar muitas coisas, como por exemplo dizer que José Afonso "é antigo, já não se usa", ou que "é antiquado", que "não se contextualiza no perfil da estação", que "não encaixa no resto da lista", que "não é dançável", que "as canções são velhas, fora de moda", etc, etc...
Mas estes "play-listers" são os mesmos que repetem até ao inaudível o hit-single, que foi sucesso de plástico há vinte e muitos anos e que rodou até riscar-se nas pistas de carrinhos de choque numa qualquer feira popular. São os mesmos que repetem ad eternum o slow rock-fm vão-de-escada. Nos tempos da ditadura, nos tempos da "Velha Senhora", estavam proibidos na rádio (e fora da rádio) uma série de discos e artistas – a lista negra – e vivia-se no bafiento nacional cançonetismo (que também conseguiu trazer algumas - poucas - coisas boas, como a história se encarregou de comprovar).
Imperava a política sinistra dos três FFF = Fátima, Fado e Futebol, que eram o ópio do povo. Em 2005 só o futebol se mantém inalterado (na verdade, aumentado para quantidades industriais).
Mas tirando os proscritos, podiam-se passar na rádio milhares, milhões de outros. Assim os discos chegassem cá com a rapidez e a facilidade com que chegam hoje. É preciso lembrar que Portugal estava fora do mundo em tudo! Nos actuais tempos de "liberdade", nestes tempos da "Nova Senhora", só podem ser emitidos na rádio uns quantos discos e artistas previamente seleccionados (eleitos?) e com isto proíbem-se todos os outros, que são milhares, milhões deles. Maneira mais cavalheiresca de censurar autores musicais em tempo de democracia ainda ninguém inventou.
O tempo presente na rádio de âmbito nacional em Portugal mais parece o tempo passado do dia 24 de Abril de 1974. Com as óbvias adaptações temporais e estéticas.
Dá a impressão (assustadora, diga-se) que a rádio está a ser feita não para quem devia - OS OUVINTES - mas para uma entidade etérea, digna da obra prima de George Orwell. Foi (para) isto que Abril abriu?
Algo ou alguém está a lucrar – e muito (?!) – com isto, mas não são os ouvintes nem são os profissionais de rádio.
Repare-se no estado a que as coisas chegaram. Já nem sequer se exige que ouçamos José Afonso com a regularidade merecida na rádio ao longo do ano, mas que ao menos se ouça uma vez por ano no dia 25 de Abril. Mas nem isso acontece. O que diria o próprio Zeca de tudo isto se pudesse? Ao certo, ninguém pode saber, mas todos podemos suspeitar o que pensaria sem corrermos o risco de resvalar para a valeta da especulação.
Na altura, tal como hoje, a música emitida na rádio (relembro: com honrosas excepções) não serve a missão de serviço público, não serve o interesse do público, não serve para satisfazer os gostos do público nem serve a música portuguesa. Serve apenas e só para controlar o público.

Francisco Mateus


P.S. I: Há poucos meses, Jorge Palma, entrevistado por Ana Sousa Dias no programa "Por Outro Lado" na 2 (RTP), mostrou-se bastante indignado com a rádio em Portugal no que diz respeito à divulgação de música portuguesa (Jorge Palma referiu-se à rádio em geral, excluindo a TSF, dizendo que "é uma rádio de notícias"...) E ele não é um dos mais prejudicados. Aqui e acolá, ainda se vão ouvindo alguns (poucos) dos belos temas do autor de "A Canção de Lisboa". Também há os mais favorecidos, que são sempre os mesmos.
A recentemente criada associação "Venham Mais Cinco" (curiosa esta utilização de um título histórico da autoria de José Afonso...) destina-se, dizem os seus fundadores, à defesa da música portuguesa. Da música portuguesa ou da música deles? Defende-se a música portuguesa criando uma associação em prol disso?
Segue-se uma citação do radialista António Sérgio, quanto mais não seja porque eu não o diria melhor: «nunca fui apologista dessas manobras dos "coitadinhos dos músicos portugueses" – uma série de gente que não consegue parir uma canção há mais de 30 anos e quer que ela rode incessantemente nas rádios para viverem à custa daquilo nas quintas onde estão estabelecidos? Artisticamente, penso que estamos a precisar de um novo porta-estandarte».

António Sérgio (BLITZ/02/Março/2004).



P.S. II: Eis alguns dos melhores trabalhos discográficos da música portuguesa na segunda metade do século XX.
A opinião é estritamente pessoal, e, tirando o álbum "Cantigas do Maio" de José Afonso – que para mim é o melhor disco de sempre da música portuguesa – a ordem é perfeitamente arbitrária. São apenas 10. Podiam ser 31.

José Afonso – Cantigas do Maio
Fausto – Por Este Rio Acima
Carlos Paredes – Guitarra Portuguesa
José Mário Branco – Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades
Amália Rodrigues – Busto
Sérgio Godinho – Pré-Histórias
Carlos do Carmo – Um Homem Na Cidade
Jorge Palma - Só
Sétima Legião – A Um Deus Desconhecido
GNR – Psicopátria

A luta dos povos contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.

Milan Kundera


O que eles dizem (01)

Carlos Tê
EXPRESSO, suplemento Guia, página 30:

«Os Dias Da Rádio»

«(...) É depois de definido o seu público-alvo que uma emissora elabora a "play-list", esse hambúrguer radiofónico destinado a impedir que o radialista se disperse pelo labirinto do seu próprio gosto. Daí hoje já não haver autores de programas de rádio, mas sim amanuenses que accionam o "enter" do programa do computador. Por isso a "play-list" não é uma emanação diabólica do mercado, mas uma ferramenta que fideliza o "target" consumidor e o agrilhoa a uma irresistível cadeia de canções ao fim da qual o espera um "jingle" a um plano de poupança. Poder-se-ia dizer que é uma variante maciça dessa entidade que ganhou espessura artística no século passado – o "disc-jockey". É ela que leva os promotores de markting das editoras a andar
com os discos dos seus artistas no bolso a mendigar um lugar na lista».

Fonte: Jornalismo Porto Rádio


NOTA: O próximo texto neste blogue será sobre o actual trabalho na RDP do radialista Álvaro Costa. Como aperitivo, e no seguimento dos textos de hoje, eis apenas uma curta citação sobre o que Álvaro Costa pensa da rádio actual: «Está tudo tão computorizado que, se o mundo acabasse hoje, parte das rádios portuguesas só o dizia amanhã...»

Álvaro Costa
(BLITZ/11/Janeiro/2005)

E acrescento eu: ... e muitas outras nunca o diriam, pois não está lá ninguém dentro para o fazer.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

SILÊNCIO


O silêncio é de ouro? "Antes e depois do silêncio" é o título de um interessante artigo publicado no suplemento Y do jornal PÚBLICO na passada Sexta-feira. É assinado pelo jornalista Vitor Belanciano.
O artigo de duas páginas vai mais além do que a simples crítica musical em relação a reedições e novas edições de nomes consagrados num outro tipo de som. «Num mundo com excesso de música, Brian Eno, Marc Leclair, Alva Noto + Ryuichi Sakamoto, aproximam-se do silêncio».
O que o artigo aponta em segundo plano é que a música pode ser tudo menos música. Pode ser ruído e não música. Esta nova realidade pode contrariar todos os objectivos com que em princípio a arte da música foi criada. Em vez de atrair, expulsa. Em vez de ser prazer e conforto, pode ser incómoda aos sentidos e deveras desconfortável, causando um profundo mal estar.
Adaptando estes factos ao universo da rádio, o que assistimos hoje nas estações de rádio portuguesas é... falta de silêncio. Não a total ausência de som, a chamada "branca". Não. É o preenchimento de pedaços de emissão com sons fundos, aparentemente acessórios, mas cuja importância é vital para a criação de contrastes, refluxos e separações de cariz ambiental. No fundo é injectar oxigénio numa atmosfera saturada. Mas afinal o que é isso de "silêncio" na rádio? Existe a noção – quanto a mim errada – que as estações de rádio têm de manter sempre os níveis sonoros a bater no vermelho. Sabemos todos – todos o sentimos, mesmo que de forma não muito consciente – que não é lá muito agradável ter de subir o volume do auto-rádio a fim de ouvirmos melhor "o que está a dar na rádio" por causa de um som que de repente aparece mais baixo, até porque logo depois pode vir (vem mesmo!) um outro som bem mais elevado. Dá-se o choque auditivo. Isto não se aplica da mesma maneira para quem não está a ouvir rádio no carro. Difere consoante o local e o ambiente envolvente no momento de escuta. Mas difere também e muito na hora em que se ouve. Hoje em dia as estações de rádio em Portugal não distinguem o dia da noite. Na generalidade. Não se mantém o tipo de conteúdos, mas mantêm-se os mesmos ritmos, o mesmo registo, a mesma postura, por vezes a gritaria. Ao longo de 24 horas de emissão.
Esta prática indistinta não contempla a grande diferença que há entre ouvir rádio de dia e ouvi-la de noite. A manhã é necessariamente diferente da tarde, que por sua vez é diferente da noite e da madrugada. Não considerar estes factores diferenciados é retirar à rádio o "silêncio" que
lhe é devido. Nas rádios que funcionam com playlist, encontramos as mesmas matrizes musicais seja de dia ou seja de noite. Quando muito, o mais que se aproxima (mesmo assim a anos luz!) é um ou outro tema no estilo canção-balada.
Diz-se, não sem alguma razão, que a televisão roubou a noite à rádio. Talvez, dependendo dos casos. Mas foi a rádio e só a rádio que anulou o seu próprio "silêncio", o seu próprio "oxigénio".
O silêncio retemperador, reequilibrador, está banido da rádio. Não faz parte. É olhado com desconfiança. É visto como aberração. A música instrumental não tem lugar na rádio. Há as excepções do costume: a programação (geral) da Antena2; alguns programas de autor ("Íntima Fracção"; "Vidro Azul"); algumas estações locais (Rádio Oxigénio; Marginal; Clássica FM), mas é muito pouco. Não chega.
O espectro está saturado de vozes de vociferam, sons de telefone em overdose que ferem, ruídos desmesurados, playlists exaustivamente repetitivas.
No geral, ouvir rádio cansa! E porquê? Porque não há silêncio! Mas então o silêncio não é de ouro?

Francisco Mateus

NOTA: Para quem não pôde ler o artigo que mencionei, aqui se reproduzem algumas das partes mais significativas:
«Está por todo o lado, na rua, nos restaurantes, no metro, na discoteca, nos bares, nos aeroportos, na praia, nos hotéis, na sala de concertos, na loja ou na casa do vizinho. A música tornou-se omnipresente. Não conseguimos ver-nos livre dela. Até os discursos sobre música se tornaram num imenso ruído, diluindo os seus significados. O excesso de comunicação entope. O
excesso de música tornou-se no seu grande inimigo. Às vezes apetece fugir dela. Ou tentar ouvir outra vez, como se fosse a primeira. No silêncio, experiência cada vez mais rara no mundo urbano no séc. XXI.»
(...)
«a música é também paisagem sónica com uma geografia que pode ser construída pelo ouvinte.»
(...)
«Com o expressionismo abstracto ou com o construtivismo russo percebera o óbvio, que a pintura não tinha que ser figurativa, mas que podia criar outros mundos, com diferentes gravidades e leis físicas.»
(...)
«tempo e espaço para o mundo dos excessos. Tempo para pensar. Espaço para reflectir. Uma experiência do quase silêncio para nos voltarmos a concentrar na música.»
(...)
«funciona como uma evocação de um espaço psicológico gerador de climas onde nada parece acontecer e onde tudo tem espaço para acontecer, numa espécie de construção geográfica que pede ao ouvinte que a povoe.»
(...)
«Movendo-se constantemente, mas imóvel como um quadro na parede. Flutuante, livre, é (...) sereno. Parece conter um misto de nostalgia e esperança, construindo um espaço de quietude só para si. (...) gerando nostalgia por um futuro diferente.»
(...)
«parece existir uma intersecção onde arte, sons, natureza e ciência ocupam o mesmo espaço, originando uma música visível, palpável, gráfica, onde a beleza abstracta do silêncio apenas comporta sons essenciais.»
(...)
«microclimas onde as ligeiras pulsações rítmicas e as quase imperceptíveis constelações sonoras de baixas frequências se vão transfigurando no tempo e no espaço, construindo um universo de grande pureza expressiva, a partir de notas de piano acariciadas e dos detalhes electrónicos comprimidos.»
(...)
«O sentimento geral é de uma quietude introspectiva, jogando com os interlúdios, o tratamento de sons concretos, os fragmentos acústicos, as atmosferas expansivas, os arranjos processados de maneira electrónica, as reflexões pausadas, o pulsar orgânico do nascimento e a procura de um silêncio purificador.»

Vitor Belanciano
in PÚBLICO (suplemento Y) 15/Abril/2005


P.S: Vem aí o verão...alguém conhece uma esplanada sem música? Ou sem techno-agressivo ou rock pesado? E com Bossa-Nova, alguém conhece?

Alguns discos de (e com) “SILÊNCIO” que posso recomendar:

Brian Eno – Ambient 4 On Land
Virginia Astley – From Gardens Were We Feel Secure
David Sylvian & Holger Czukay – Flux + Mutability
Anne Clark & Martyn Bates – Just After Sunset
Harold Budd – The White Arcades
David Toop – Pink Noir
Roger Eno – Voices
Murcof – Martes
Arvo Part – Te Deum
Art Of Noise – The Ambient Collection
Gavin Bryars – After The Requiem
Heiner Goebbels – Shadow/Lanscape with Argonauts
Robert Rich & B. Lustmond – Stalker
Penguin Café Orchestra – Union Café
Ingram Marshall – Evensongs
Paul Giger – Ignis
Robert Fripp – That Which Passes
Silvania – Naves Sin Puertos
Russel Mills – Undark
Ryuichi Sakamoto – Coda
Michael Stearns – Baraka
David Sylvian – Approaching Silence
A Reminiscent Drive – Given
Lisa Gerrard & Patrick Cassidy – Imortal Memory
Craig Armstrong – The Sapce Between Us.

segunda-feira, 11 de abril de 2005

JANEIRO 1987














Uma noite de inverno, fria. À luz fluorescente de uma cozinha, um rádio está ligado em cima do frigorífico. Passa da meia-noite. Os vidros molhados do lado de dentro da marquise de alumínio revelam a diferença de temperatura entre o interior acolhedor da cozinha e o lado de fora da casa. No acolhimento caseiro estão mãe e filho, um jovem adolescente com cerca de quinze anos. O resto da família já dorme. O prédio está em silêncio. A romper suavemente o silêncio da noite está um som transmitido pela rádio. Um som diferente. Um soar de saxofone, envolvente, ele próprio envolto por uma space-guitar.
Aquela música inspiradora atrai o miúdo. Ele veio a saber mais tarde que era o início do tema Lazy Calm dos Cocteau Twins. Depois, da mesma música emana um cântico feminino em double-voice.
O encanto instalou-se. O jovem rapaz já não conseguiu mudar o posto sintonizado, que por acaso não era o mais procurado por ele. Foi depois deitar-se e escutar o resto do programa na quase total escuridão do quarto.
As persianas deixavam ainda entrar parte da iluminação da rua. Na rádio fala uma voz masculina dizendo frases interessantes. Palavras mágicas que falam de traços luminosos riscando o futuro incandescente, pedaços de azul por entre as nuvens, esperança, tempo, passado... e mais sons invulgares, remetendo para paisagens imaginárias, pátrias distantes, morfologias inexistentes. E outras palavras.
Aquele momento de rádio colou-se-lhe à pele. Ao Domingo à noite nunca mais o perderia de ouvido. Era imaculado o gesto de sintonizar aquele posto mágico durante duas horas semanais. Gesto esse que acompanhou-o sempre a partir daí. O miúdo passou a adolescência, chegou à vida adulta, atravessou experiências e calendários, até ele próprio chegar à terra da rádio.
O miúdo era eu.
O programa, "Íntima Fracção".

ABRIL 1984

















Foi há vinte e um anos. O panorama radiofónico em Portugal era escasso em propostas. Para além dos canais públicos e da igreja, não existiam – oficialmente - rádios privadas. Havia sim já muita vontade em que o poder político abrisse a radiodifusão à iniciativa privada. Dava-se por esses tempos o início (nalguns casos, continuidade) em força das chamadas rádios piratas.
Embora as opções de escolha dos ouvintes não fosse muita, com apenas três rádios nacionais (RDP; RR; Comercial), as grelhas eram em muitos casos interessantes e com resultados de sucesso reconhecido de numerosos programas. Pode-se dizer que há vinte e um anos a paisagem radiofónica, embora não perfeita – longe disso – vivia dias bem mais saudáveis que hoje.
Era suposto, deveria ser suposto, que com o surgimento de mais estações a oferta se multiplicasse e o painel de alternativas para o ouvinte se alargasse, tornando-se assim mais aliciante. Nada disso. O que assistimos hoje é a um absurdo afunilamento do produto final. Assistimos à importação directa de conteúdos made in america sem tratamento prévio, ao seguidismo, à cópia fácil, ao descarado plágio, ao anti-pensamento, à anti - criação, ao automatismo, à não - comunicação. Há excepções, como em tudo, mas eis a regra aos ouvidos de toda a gente.
O programa de rádio Íntima Fracção apareceu num tempo em que as emissões mais reflexivas não eram abundantes. Como, aliás, nunca foram. O conceito do programa, de apelo ao imaginário do ouvinte, não é (não era na altura) uma qualquer espécie de fórmula mágica, mas era (e é) uma fórmula diferente, alternativa ao ruído dominante, e é sem dúvida nenhuma, uma fórmula que resulta da criatividade e da originalidade. É o tal "pedaço de azul no céu".
A "Íntima Fracção" teve também as suas influências, de resto assumidas publicamente pelo seu autor Francisco Amaral. Os programas "W" , de Miguel Esteves Cardoso e João David Nunes, na Rádio Comercial (muito antes da privatização) no início dos anos oitenta, e o mítico "Em Órbita", de Jorge Gil (e outros) durante a primeira fase, na década de sessenta. Não há mal nenhum, considero até ser bastante nobre revelar influências. Menos positivo (para não dizer outra coisa) é o conjunto de imitações e escabrosos plágios que se seguiram nos anos seguintes.
Há um ano, nos vinte anos da Íntima Fracção, escrevi noutro sítio o que penso e principalmente o que sinto em relação ao programa "Íntima Fracção". Queria apenas acrescentar que a rádio portuguesa de hoje não é – não pode! - ser saudável quando não encontra lugar – o devido lugar! - para um programa como a "Íntima Fracção".
Marguerite Yourcenar escreveu em O Tempo, Esse Grande Escultor que não existe nem passado, nem futuro, mas sim uma série de presentes sucessivos.
E, sendo assim, o futuro pode já ser hoje mesmo. Com todas as contigências e conjecturas conhecidas, a "Íntima Fracção" está já no futuro e vem ao nosso encontro através da RUC para ouvintes em Coimbra e através da internet (podendo-se efectuar downloads nos suportes PC; MD; CD; MP3; etc.) para ouvintes em todo o mundo. Em qualquer dia, a qualquer hora.

ÍNTIMA FRACÇÃO
Sempre pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir.
RUC – Rádio Universidade de Coimbra - 107.9 fm Domingo p/ Segunda-feira (00:00/01:00)
Repetição: Segunda p/ Terça-feira (02:00/03:00)
Internet: http://www.esec.pt/radio/programas/intimafraccao/if.html

Breve historial do programa Íntima Fracção:
1984 – 1989: RDP-Antena1
1989 – 2003 : TSF-Rádio Notícias
2004 – (actualidade): RUC e ESEC Rádio on-line

NOTA: Da autoria de Francisco Amaral, está aqui uma crítica que não escrevi, mas que subscrevo. Integralmente:

«Na noite de 7 para 8 de Abril de 1984, sábado para domingo, concretamente às 0 horas de 8 de Abril, começou a ser realizada (em directo) a primeira Íntima Fracção. Local : estúdios da RDP em Coimbra. Broadcast : Antena 1. Na época, havia três estações de rádio em Portugal : RDP Antena 1; RDP Rádio Comercial; Rádio Renascença.
As músicas que passavam na rádio, incluiam: 99 Red balloons/Nena; Joanna/Kool & the Gang; Wouldn't it be good/Nik Kershaw; Relax/Frankie Goes To Hollywood; Hello/Lionel Richie; Jump/Van Halen; Robert De Niro's waiting/Bananarama; Doctor doctor/Thompson Twins; Your love is king/Sade; It's a miracle/Culture Club; Radio Ga Ga/Queen; My ever changing moods/Style Council ... Embora, passados 21 anos, algumas destas memórias possam saber bem, não era disto que a IF se iria fazer.
Os sons iniciais da IF andaram pelos discos dos Cocteau Twins, Smiths, Brian Eno, Harold Budd, Laurie Anderson, This Mortal Coil, Aztec Camera, Rainy Day, Ry Cooder, Howard Devoto, Magazine, Durutti Column, Red Guitars, Felt, Nick Cave, John Cale, Velvet Underground, Virginia Astley, Sétima Legião, John Surman... com repescagens de outras épocas onde se incluiam Buffalo Springfield, Dylan, Doors, Cohen...
Não era habitual (nem fácil !), juntar e passar estas coisas durante duas horas. Hoje - e nunca o poderia ter imaginado em 1984 - ainda é menos habitual e muito mais difícil fazer o mesmo. Seja com aqueles sons ou com os que em 2005 poderão ser os seus equivalentes. O (quase) desaparecimento dos realizadores radiofónicos, resulta da expansão das playlists (fabricadas por uma ou duas pessoas, por sua vez controladas por uma outra que tem de mostrar resultados a outras, que supostamente exigem um produto de que o público goste, mas verdadeiramente o que pretendem é controlar esse público), das rádios automatizadas sem coração (nem alma!), do amadorismo das locais exploradas como se fossem mercearias que passaram a mini-mercados, da praga dos programas jovens adultos (onde é necessário haver umas 4 vozes sobrepostas e uma série de esgares, supostamente risos, contentes com tudo e com coisa nenhuma), da rádio interactiva (horas de suposta democracia popular, na qual falam os que têm acesso ao telefone e sabem como conseguir vez no parlatório) e, claro, a rádio de sempre - boa viagem, cuidado com o piso e já são 8 e 27!
A rádio portuguesa é, actualmente, quase toda igual. Tirando as estações que produzem informação (Antena 1 e TSF) - com preenchimento musical muito discutível, especialmente a TSF que baixou o nível para um patamar impensável, não há rádios alternativas de cobertura nacional, nem sequer verdadeiras rádios temáticas.
Tirando ilhas de resistência (universitárias e uma? ou duas? locais), a lógica é a de que o mercado formata a rádio. Não é verdade ! A rádio é que formata o mercado (veja-se a história da TSF). Devido a este panorama, e já que a Antena 2 se abriu apenas (vagamente) ao jazz, cabe ao Estado (coisa maldita que provoca tonturas aos opinion-makers persistentemente colocados nos media nacionais) a criação de uma alternativa credível e responsável.
Contra tudo e por certo contra todos, defendo a criação de um novo canal de rádio de cobertura nacional. Conteúdos? Tudo o que os outros não têm, mais as poucas coisas boas que os outros ainda têm. E é assim que se comemora o 21º aniversário da Íntima Fracção.»

Francisco Amaral
http://intima.blogspot.com/
07/Abril/2005

Ainda não tinha escrito neste blogue sobre pessoas que conheço pessoalmente.
É esta a primeira vez, não será por certo a última. Por isso, posso ser suspeito em escrever o que escrevo sabendo-se que conheço pessoalmente o autor da Íntima Fracção, sabendo-se que durante quase dez anos estivemos na mesma rádio, sabendo-se que existe uma amizade que nos liga. Mas essa é uma apreciação apenas viável à primeira vista. Ouço-o desde Janeiro de 1987 (que pena tenho eu de não ter sido mais cedo) e conheci-o bons anos depois. O que pensava sobre Francisco Amaral enquanto profissional não se alterou em nada com esse facto. O que digo e penso sobre Francisco Amaral enquanto profissional já o dizia e pensava antes de o conhecer.
Foi numa manhã soalheira de Dezembro, em Coimbra. Marlene Dietrich fazia anos nesse dia, o mesmo dia em que se anunciava publicamente que Coimbra iria ser Capital Nacional do Teatro sob a direcção de Ricardo Pais. A TSF fazia largo destaque dessas duas notícias. Dirigi-me ao edifício Dallas, onde Francisco Amaral assegurava o horário da manhã (07:00/10:00) na RJC-Rádio Jornal do Centro / TSF-Coimbra. Nesse tempo, antes da aquisição da rádio pela Lusomundo, as várias delegações da TSF tinham emissões próprias (Porto/Coimbra/Lisboa) em vários períodos do dia. As manhãs que se faziam em Coimbra, não ficavam nada a dever ás emissões à mesma hora na TSF-Lisboa (com António Macedo) e na TSF-Porto (com Inês Meneses). Já me tinha apercebido disso enquanto ouvinte, mas pude comprová-lo in-loco durante a última hora de programa dessa manhã de Dezembro, em que fui gentilmente recebido por Francisco Amaral no estúdio de emissão. Ali pude constatar profissionalismo e versatilidade acima da média. Apesar de já estar a fazer rádio a sério há algum tempo, foi ali, naquele momento que obtive mais uma confirmação interior de que era mesmo aquilo que eu queria fazer na vida. Assim foi e assim é.
Passados já tantos anos, continua a ser-me difícil voltar a ver e ouvir o mesmo que naquele dia.

segunda-feira, 4 de abril de 2005



A VOZ DO LOBO

Há quantos anos ouvimos a voz deste lobo solitário? Durante quantos mais teremos o privilégio de a ouvir?
No primeiro mês deste ano, António Sérgio completou 55 anos de idade, e o programa de que é autor na Best Rock FM, dedicou-se à celebração da data. A emissão, que contou com depoimentos de várias pessoas que se foram cruzando na vida pessoal e profissional de António Sérgio, foi uma homenagem - em vida! - a uma das personagens mais marcantes do panorama radiofónico português dos últimos trinta anos.
Ouço-o há, pelo menos, vinte e cinco anos, dava eu os meus primeiros "passos" enquanto ouvinte. Já António Sérgio estava no projecto pioneiro que se iria transformar na saudosa Rádio Comercial, a então RDP - Canal 4, já depois de bons tempos passados na Rádio Renascença com o mítico programa "Rotação" (que nunca cheguei a captar por motivos de escassa idade!). "Rolls Rock" é então o primeiro programa de António Sérgio na RDP-Canal 4 / Rádio Comercial e o primeiro em que o escutei. Sei que era um espaço de divulgação musical, música essa que não ouvia em mais lado nenhum, tendo em conta que o que mais (ainda) se ouvia por esses tempos eram as emissões em Onda Média.
Não me lembro bem do formato do programa (era ainda muito miúdo), mas o que se destacou logo - e eu senti-o muito - foi aquela voz. Aquele timbre.
Absolutamente distinto dos demais. Uma voz funda, muito grave, estranha até. Nunca mais a perdi de ouvido. Já ouvi pessoas dizerem "Ah, não percebo lá muito bem o que ele diz". Eu digo-lhes: "Podem não perceber (sempre) o que ele diz, mas sempre podem perceber o que ele quer dizer".
Seguiu-se o advento em força do FM em Portugal e entrava-se no período dourado da rádio de autor.
"Rolls Rock"; "Som da Frente"; "Rei Lagarto e Outras Histórias"; "Lança Chamas" e "O Grande Delta" são títulos memoráveis de António Sérgio na Rádio.
Já em 1993, após o definhar e a consequente privatização da "velha" Comercial, António Sérgio integra o elenco (de luxo) fundador da XFM. A aventura terminou em 97, altura em que António Sérgio regressa à comercial para fazer "A Hora Do Lobo" (3ª a sábado/ 00:00-02:00).
Em 2003, com a reformulação das rádios do grupo Media Capital, A Hora Do Lobo abandona a cobertura nacional da Rádio Comercial para encontrar "toca" na então recém criada Best Rock FM, com uma cobertura local reduzida às cidades de Lisboa, Porto, Coimbra e Santarém e também através da internet no portal IOL.
Merecedora de outros quadrantes, a "voz do lobo" lá vai soando na noite para todos aqueles que conseguem captar a sua sintonia ou têm acesso à internet. A Hora Do Lobo (Best Rock FM / 3ª a Sábado / 00:00-02:00) dedica-se ao pensar, ao ser alternativo. Num tempo de massificada formatação e segmentação na rádio, o programa e a atitude de António Sérgio é um produto cujo conceito é, por motivos conjunturais, contra corrente.
A Hora Do Lobo não se "limita" a divulgar novas edições das chamadas franjas da industria Pop-Rock. O espaço está recheado de rubricas fixas: "Santuário"; "Lista Rebelde"; "Viagens Downtown"; "Debaixo da Língua"; "Tempo de Descobertas"; "Fadas, Unicórnios e Cyborgs" e "A Fala da Tribo"(onde há um ou mais convidados em estúdio, por vezes com interessantíssimas sessões musicais ao vivo nas noites de 6ª feira). Estas duas últimas rubricas contam com a colaboração/autoria preciosa de Ana Cristina Ferrão. Seria exaustivo esmiuçar cada uma destas rubricas, pelo que o melhor é mesmo ouvi-las. Aliás, recomendam-se vivamente.
Em declarações ao semanário BLITZ em Março de 2004, António Sérgio questionado pelo jornalista Jorge Mourinha dizia que « Estar no ar um determinado período de horas por dia é uma necessidade absoluta, apesar de não ver ninguém, de não saber se me estão a ouvir do outro lado. Há aqui algo de catártico...»; «Não me sinto dinossáurio; sinto-me um bocado mais velho e, sim, francamente solitário. Na época dos realizadores, conversávamos muito entre nós, trocávamos muitas impressões».
A época dos realizadores a que António Sérgio se refere é, essencialmente, a Rádio Comercial, principalmente na primeira metade dos anos 80, em que essa Doce mania de rádio destilava talento e conteúdos originais de extremo interesse, obtendo considerável impacto junto dos ouvintes.
Sou do tempo em que se faltava às aulas para ficar em casa a ouvir rádio. Cheguei a "fugir" da escola, correndo para casa para apanhar o início dos programas.
Doce mania de rádio... é de lá que vem o uivo do lobo. O mais admirável no estoicismo e na atitude de "A Hora Do Lobo" é o conservar daquele tipo de programas repletos de pontos de interesse, que se ligam todos uns aos outros. Bem diferente do que aparece hoje no ar, em que as peças do puzzle sonoro não encaixam entre si.
O Mestre, como carinhosamente é chamado, é o último "sobrevivente" em actividade - e que nunca suspendeu funções - desse tempo de autores de radiodifusão da antiga Comercial.
Como ele próprio afirma: «Sou o último dos moicanos!»
Mas o Mestre deixa legado. Para além dos muitos fãs e admiradores (eu incluído) e, para além de lamentáveis plágios e imitações, ainda há quem queira seguir as sábias pegadas deste lobo solitário. Existem já alguns nomes na praça: Miguel Quintão, Nuno Calado, António Freitas, e mais haveria se o actual mercado rádio não asfixiasse o romper de novos talentos. As novas gerações estão a perder referências.
Citando ainda António Sérgio no semanário BLITZ há pouco mais de um ano. Então e sobre o futuro? «Hoje em dia, uma pessoa vai tendo a noção que não vai fazer rádio eternamente, se bem que se conseguir ser como o John Peel (entretanto falecido já depois destas declarações), ainda tenho uma boa década ou mais de rádio por fazer...»
Mas hoje em dia, o "futuro" ou a "morte", podem muito bem assumir outras formas. Rodeado de "playlists" por todos os lados, a rádio de autor está a ser dizimada quase por completo. O futuro que António fala, pode aparecer em fato cinzento, envergado por alguém menos escrupuloso, isento de sensibilidade humana e rádiofónica e comunicar, talvez por e-mail, talvez por SMS ou MSN e deixar escrito em caracteres trincados: "a partir d'amanhã o sr. deixa de fazer parte do projecto"; ou "o sr. no dia tal escusa de aparecer para fazer o seu programa".
Não queremos que António Sérgio seja o "John Peel português", porque comparações destas podem, no mínimo, ser injustas. Queremos que António Sérgio continue a ser "O António português".

Take care
Stay tuned!

(Há uma "extensão" escrita da "Hora Do Lobo" no caderno indígena do semanário Independente às sextas feiras).

Francisco Mateus