segunda-feira, 18 de abril de 2005

SILÊNCIO


O silêncio é de ouro? "Antes e depois do silêncio" é o título de um interessante artigo publicado no suplemento Y do jornal PÚBLICO na passada Sexta-feira. É assinado pelo jornalista Vitor Belanciano.
O artigo de duas páginas vai mais além do que a simples crítica musical em relação a reedições e novas edições de nomes consagrados num outro tipo de som. «Num mundo com excesso de música, Brian Eno, Marc Leclair, Alva Noto + Ryuichi Sakamoto, aproximam-se do silêncio».
O que o artigo aponta em segundo plano é que a música pode ser tudo menos música. Pode ser ruído e não música. Esta nova realidade pode contrariar todos os objectivos com que em princípio a arte da música foi criada. Em vez de atrair, expulsa. Em vez de ser prazer e conforto, pode ser incómoda aos sentidos e deveras desconfortável, causando um profundo mal estar.
Adaptando estes factos ao universo da rádio, o que assistimos hoje nas estações de rádio portuguesas é... falta de silêncio. Não a total ausência de som, a chamada "branca". Não. É o preenchimento de pedaços de emissão com sons fundos, aparentemente acessórios, mas cuja importância é vital para a criação de contrastes, refluxos e separações de cariz ambiental. No fundo é injectar oxigénio numa atmosfera saturada. Mas afinal o que é isso de "silêncio" na rádio? Existe a noção – quanto a mim errada – que as estações de rádio têm de manter sempre os níveis sonoros a bater no vermelho. Sabemos todos – todos o sentimos, mesmo que de forma não muito consciente – que não é lá muito agradável ter de subir o volume do auto-rádio a fim de ouvirmos melhor "o que está a dar na rádio" por causa de um som que de repente aparece mais baixo, até porque logo depois pode vir (vem mesmo!) um outro som bem mais elevado. Dá-se o choque auditivo. Isto não se aplica da mesma maneira para quem não está a ouvir rádio no carro. Difere consoante o local e o ambiente envolvente no momento de escuta. Mas difere também e muito na hora em que se ouve. Hoje em dia as estações de rádio em Portugal não distinguem o dia da noite. Na generalidade. Não se mantém o tipo de conteúdos, mas mantêm-se os mesmos ritmos, o mesmo registo, a mesma postura, por vezes a gritaria. Ao longo de 24 horas de emissão.
Esta prática indistinta não contempla a grande diferença que há entre ouvir rádio de dia e ouvi-la de noite. A manhã é necessariamente diferente da tarde, que por sua vez é diferente da noite e da madrugada. Não considerar estes factores diferenciados é retirar à rádio o "silêncio" que
lhe é devido. Nas rádios que funcionam com playlist, encontramos as mesmas matrizes musicais seja de dia ou seja de noite. Quando muito, o mais que se aproxima (mesmo assim a anos luz!) é um ou outro tema no estilo canção-balada.
Diz-se, não sem alguma razão, que a televisão roubou a noite à rádio. Talvez, dependendo dos casos. Mas foi a rádio e só a rádio que anulou o seu próprio "silêncio", o seu próprio "oxigénio".
O silêncio retemperador, reequilibrador, está banido da rádio. Não faz parte. É olhado com desconfiança. É visto como aberração. A música instrumental não tem lugar na rádio. Há as excepções do costume: a programação (geral) da Antena2; alguns programas de autor ("Íntima Fracção"; "Vidro Azul"); algumas estações locais (Rádio Oxigénio; Marginal; Clássica FM), mas é muito pouco. Não chega.
O espectro está saturado de vozes de vociferam, sons de telefone em overdose que ferem, ruídos desmesurados, playlists exaustivamente repetitivas.
No geral, ouvir rádio cansa! E porquê? Porque não há silêncio! Mas então o silêncio não é de ouro?

Francisco Mateus

NOTA: Para quem não pôde ler o artigo que mencionei, aqui se reproduzem algumas das partes mais significativas:
«Está por todo o lado, na rua, nos restaurantes, no metro, na discoteca, nos bares, nos aeroportos, na praia, nos hotéis, na sala de concertos, na loja ou na casa do vizinho. A música tornou-se omnipresente. Não conseguimos ver-nos livre dela. Até os discursos sobre música se tornaram num imenso ruído, diluindo os seus significados. O excesso de comunicação entope. O
excesso de música tornou-se no seu grande inimigo. Às vezes apetece fugir dela. Ou tentar ouvir outra vez, como se fosse a primeira. No silêncio, experiência cada vez mais rara no mundo urbano no séc. XXI.»
(...)
«a música é também paisagem sónica com uma geografia que pode ser construída pelo ouvinte.»
(...)
«Com o expressionismo abstracto ou com o construtivismo russo percebera o óbvio, que a pintura não tinha que ser figurativa, mas que podia criar outros mundos, com diferentes gravidades e leis físicas.»
(...)
«tempo e espaço para o mundo dos excessos. Tempo para pensar. Espaço para reflectir. Uma experiência do quase silêncio para nos voltarmos a concentrar na música.»
(...)
«funciona como uma evocação de um espaço psicológico gerador de climas onde nada parece acontecer e onde tudo tem espaço para acontecer, numa espécie de construção geográfica que pede ao ouvinte que a povoe.»
(...)
«Movendo-se constantemente, mas imóvel como um quadro na parede. Flutuante, livre, é (...) sereno. Parece conter um misto de nostalgia e esperança, construindo um espaço de quietude só para si. (...) gerando nostalgia por um futuro diferente.»
(...)
«parece existir uma intersecção onde arte, sons, natureza e ciência ocupam o mesmo espaço, originando uma música visível, palpável, gráfica, onde a beleza abstracta do silêncio apenas comporta sons essenciais.»
(...)
«microclimas onde as ligeiras pulsações rítmicas e as quase imperceptíveis constelações sonoras de baixas frequências se vão transfigurando no tempo e no espaço, construindo um universo de grande pureza expressiva, a partir de notas de piano acariciadas e dos detalhes electrónicos comprimidos.»
(...)
«O sentimento geral é de uma quietude introspectiva, jogando com os interlúdios, o tratamento de sons concretos, os fragmentos acústicos, as atmosferas expansivas, os arranjos processados de maneira electrónica, as reflexões pausadas, o pulsar orgânico do nascimento e a procura de um silêncio purificador.»

Vitor Belanciano
in PÚBLICO (suplemento Y) 15/Abril/2005


P.S: Vem aí o verão...alguém conhece uma esplanada sem música? Ou sem techno-agressivo ou rock pesado? E com Bossa-Nova, alguém conhece?

Alguns discos de (e com) “SILÊNCIO” que posso recomendar:

Brian Eno – Ambient 4 On Land
Virginia Astley – From Gardens Were We Feel Secure
David Sylvian & Holger Czukay – Flux + Mutability
Anne Clark & Martyn Bates – Just After Sunset
Harold Budd – The White Arcades
David Toop – Pink Noir
Roger Eno – Voices
Murcof – Martes
Arvo Part – Te Deum
Art Of Noise – The Ambient Collection
Gavin Bryars – After The Requiem
Heiner Goebbels – Shadow/Lanscape with Argonauts
Robert Rich & B. Lustmond – Stalker
Penguin Café Orchestra – Union Café
Ingram Marshall – Evensongs
Paul Giger – Ignis
Robert Fripp – That Which Passes
Silvania – Naves Sin Puertos
Russel Mills – Undark
Ryuichi Sakamoto – Coda
Michael Stearns – Baraka
David Sylvian – Approaching Silence
A Reminiscent Drive – Given
Lisa Gerrard & Patrick Cassidy – Imortal Memory
Craig Armstrong – The Sapce Between Us.



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