segunda-feira, 11 de abril de 2005

ABRIL 1984

















Foi há vinte e um anos. O panorama radiofónico em Portugal era escasso em propostas. Para além dos canais públicos e da igreja, não existiam – oficialmente - rádios privadas. Havia sim já muita vontade em que o poder político abrisse a radiodifusão à iniciativa privada. Dava-se por esses tempos o início (nalguns casos, continuidade) em força das chamadas rádios piratas.
Embora as opções de escolha dos ouvintes não fosse muita, com apenas três rádios nacionais (RDP; RR; Comercial), as grelhas eram em muitos casos interessantes e com resultados de sucesso reconhecido de numerosos programas. Pode-se dizer que há vinte e um anos a paisagem radiofónica, embora não perfeita – longe disso – vivia dias bem mais saudáveis que hoje.
Era suposto, deveria ser suposto, que com o surgimento de mais estações a oferta se multiplicasse e o painel de alternativas para o ouvinte se alargasse, tornando-se assim mais aliciante. Nada disso. O que assistimos hoje é a um absurdo afunilamento do produto final. Assistimos à importação directa de conteúdos made in america sem tratamento prévio, ao seguidismo, à cópia fácil, ao descarado plágio, ao anti-pensamento, à anti - criação, ao automatismo, à não - comunicação. Há excepções, como em tudo, mas eis a regra aos ouvidos de toda a gente.
O programa de rádio Íntima Fracção apareceu num tempo em que as emissões mais reflexivas não eram abundantes. Como, aliás, nunca foram. O conceito do programa, de apelo ao imaginário do ouvinte, não é (não era na altura) uma qualquer espécie de fórmula mágica, mas era (e é) uma fórmula diferente, alternativa ao ruído dominante, e é sem dúvida nenhuma, uma fórmula que resulta da criatividade e da originalidade. É o tal "pedaço de azul no céu".
A "Íntima Fracção" teve também as suas influências, de resto assumidas publicamente pelo seu autor Francisco Amaral. Os programas "W" , de Miguel Esteves Cardoso e João David Nunes, na Rádio Comercial (muito antes da privatização) no início dos anos oitenta, e o mítico "Em Órbita", de Jorge Gil (e outros) durante a primeira fase, na década de sessenta. Não há mal nenhum, considero até ser bastante nobre revelar influências. Menos positivo (para não dizer outra coisa) é o conjunto de imitações e escabrosos plágios que se seguiram nos anos seguintes.
Há um ano, nos vinte anos da Íntima Fracção, escrevi noutro sítio o que penso e principalmente o que sinto em relação ao programa "Íntima Fracção". Queria apenas acrescentar que a rádio portuguesa de hoje não é – não pode! - ser saudável quando não encontra lugar – o devido lugar! - para um programa como a "Íntima Fracção".
Marguerite Yourcenar escreveu em O Tempo, Esse Grande Escultor que não existe nem passado, nem futuro, mas sim uma série de presentes sucessivos.
E, sendo assim, o futuro pode já ser hoje mesmo. Com todas as contigências e conjecturas conhecidas, a "Íntima Fracção" está já no futuro e vem ao nosso encontro através da RUC para ouvintes em Coimbra e através da internet (podendo-se efectuar downloads nos suportes PC; MD; CD; MP3; etc.) para ouvintes em todo o mundo. Em qualquer dia, a qualquer hora.

ÍNTIMA FRACÇÃO
Sempre pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir.
RUC – Rádio Universidade de Coimbra - 107.9 fm Domingo p/ Segunda-feira (00:00/01:00)
Repetição: Segunda p/ Terça-feira (02:00/03:00)
Internet: http://www.esec.pt/radio/programas/intimafraccao/if.html

Breve historial do programa Íntima Fracção:
1984 – 1989: RDP-Antena1
1989 – 2003 : TSF-Rádio Notícias
2004 – (actualidade): RUC e ESEC Rádio on-line

NOTA: Da autoria de Francisco Amaral, está aqui uma crítica que não escrevi, mas que subscrevo. Integralmente:

«Na noite de 7 para 8 de Abril de 1984, sábado para domingo, concretamente às 0 horas de 8 de Abril, começou a ser realizada (em directo) a primeira Íntima Fracção. Local : estúdios da RDP em Coimbra. Broadcast : Antena 1. Na época, havia três estações de rádio em Portugal : RDP Antena 1; RDP Rádio Comercial; Rádio Renascença.
As músicas que passavam na rádio, incluiam: 99 Red balloons/Nena; Joanna/Kool & the Gang; Wouldn't it be good/Nik Kershaw; Relax/Frankie Goes To Hollywood; Hello/Lionel Richie; Jump/Van Halen; Robert De Niro's waiting/Bananarama; Doctor doctor/Thompson Twins; Your love is king/Sade; It's a miracle/Culture Club; Radio Ga Ga/Queen; My ever changing moods/Style Council ... Embora, passados 21 anos, algumas destas memórias possam saber bem, não era disto que a IF se iria fazer.
Os sons iniciais da IF andaram pelos discos dos Cocteau Twins, Smiths, Brian Eno, Harold Budd, Laurie Anderson, This Mortal Coil, Aztec Camera, Rainy Day, Ry Cooder, Howard Devoto, Magazine, Durutti Column, Red Guitars, Felt, Nick Cave, John Cale, Velvet Underground, Virginia Astley, Sétima Legião, John Surman... com repescagens de outras épocas onde se incluiam Buffalo Springfield, Dylan, Doors, Cohen...
Não era habitual (nem fácil !), juntar e passar estas coisas durante duas horas. Hoje - e nunca o poderia ter imaginado em 1984 - ainda é menos habitual e muito mais difícil fazer o mesmo. Seja com aqueles sons ou com os que em 2005 poderão ser os seus equivalentes. O (quase) desaparecimento dos realizadores radiofónicos, resulta da expansão das playlists (fabricadas por uma ou duas pessoas, por sua vez controladas por uma outra que tem de mostrar resultados a outras, que supostamente exigem um produto de que o público goste, mas verdadeiramente o que pretendem é controlar esse público), das rádios automatizadas sem coração (nem alma!), do amadorismo das locais exploradas como se fossem mercearias que passaram a mini-mercados, da praga dos programas jovens adultos (onde é necessário haver umas 4 vozes sobrepostas e uma série de esgares, supostamente risos, contentes com tudo e com coisa nenhuma), da rádio interactiva (horas de suposta democracia popular, na qual falam os que têm acesso ao telefone e sabem como conseguir vez no parlatório) e, claro, a rádio de sempre - boa viagem, cuidado com o piso e já são 8 e 27!
A rádio portuguesa é, actualmente, quase toda igual. Tirando as estações que produzem informação (Antena 1 e TSF) - com preenchimento musical muito discutível, especialmente a TSF que baixou o nível para um patamar impensável, não há rádios alternativas de cobertura nacional, nem sequer verdadeiras rádios temáticas.
Tirando ilhas de resistência (universitárias e uma? ou duas? locais), a lógica é a de que o mercado formata a rádio. Não é verdade ! A rádio é que formata o mercado (veja-se a história da TSF). Devido a este panorama, e já que a Antena 2 se abriu apenas (vagamente) ao jazz, cabe ao Estado (coisa maldita que provoca tonturas aos opinion-makers persistentemente colocados nos media nacionais) a criação de uma alternativa credível e responsável.
Contra tudo e por certo contra todos, defendo a criação de um novo canal de rádio de cobertura nacional. Conteúdos? Tudo o que os outros não têm, mais as poucas coisas boas que os outros ainda têm. E é assim que se comemora o 21º aniversário da Íntima Fracção.»

Francisco Amaral
http://intima.blogspot.com/
07/Abril/2005

Ainda não tinha escrito neste blogue sobre pessoas que conheço pessoalmente.
É esta a primeira vez, não será por certo a última. Por isso, posso ser suspeito em escrever o que escrevo sabendo-se que conheço pessoalmente o autor da Íntima Fracção, sabendo-se que durante quase dez anos estivemos na mesma rádio, sabendo-se que existe uma amizade que nos liga. Mas essa é uma apreciação apenas viável à primeira vista. Ouço-o desde Janeiro de 1987 (que pena tenho eu de não ter sido mais cedo) e conheci-o bons anos depois. O que pensava sobre Francisco Amaral enquanto profissional não se alterou em nada com esse facto. O que digo e penso sobre Francisco Amaral enquanto profissional já o dizia e pensava antes de o conhecer.
Foi numa manhã soalheira de Dezembro, em Coimbra. Marlene Dietrich fazia anos nesse dia, o mesmo dia em que se anunciava publicamente que Coimbra iria ser Capital Nacional do Teatro sob a direcção de Ricardo Pais. A TSF fazia largo destaque dessas duas notícias. Dirigi-me ao edifício Dallas, onde Francisco Amaral assegurava o horário da manhã (07:00/10:00) na RJC-Rádio Jornal do Centro / TSF-Coimbra. Nesse tempo, antes da aquisição da rádio pela Lusomundo, as várias delegações da TSF tinham emissões próprias (Porto/Coimbra/Lisboa) em vários períodos do dia. As manhãs que se faziam em Coimbra, não ficavam nada a dever ás emissões à mesma hora na TSF-Lisboa (com António Macedo) e na TSF-Porto (com Inês Meneses). Já me tinha apercebido disso enquanto ouvinte, mas pude comprová-lo in-loco durante a última hora de programa dessa manhã de Dezembro, em que fui gentilmente recebido por Francisco Amaral no estúdio de emissão. Ali pude constatar profissionalismo e versatilidade acima da média. Apesar de já estar a fazer rádio a sério há algum tempo, foi ali, naquele momento que obtive mais uma confirmação interior de que era mesmo aquilo que eu queria fazer na vida. Assim foi e assim é.
Passados já tantos anos, continua a ser-me difícil voltar a ver e ouvir o mesmo que naquele dia.



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