segunda-feira, 11 de abril de 2005

JANEIRO 1987














Uma noite de inverno, fria. À luz fluorescente de uma cozinha, um rádio está ligado em cima do frigorífico. Passa da meia-noite. Os vidros molhados do lado de dentro da marquise de alumínio revelam a diferença de temperatura entre o interior acolhedor da cozinha e o lado de fora da casa. No acolhimento caseiro estão mãe e filho, um jovem adolescente com cerca de quinze anos. O resto da família já dorme. O prédio está em silêncio. A romper suavemente o silêncio da noite está um som transmitido pela rádio. Um som diferente. Um soar de saxofone, envolvente, ele próprio envolto por uma space-guitar.
Aquela música inspiradora atrai o miúdo. Ele veio a saber mais tarde que era o início do tema Lazy Calm dos Cocteau Twins. Depois, da mesma música emana um cântico feminino em double-voice.
O encanto instalou-se. O jovem rapaz já não conseguiu mudar o posto sintonizado, que por acaso não era o mais procurado por ele. Foi depois deitar-se e escutar o resto do programa na quase total escuridão do quarto.
As persianas deixavam ainda entrar parte da iluminação da rua. Na rádio fala uma voz masculina dizendo frases interessantes. Palavras mágicas que falam de traços luminosos riscando o futuro incandescente, pedaços de azul por entre as nuvens, esperança, tempo, passado... e mais sons invulgares, remetendo para paisagens imaginárias, pátrias distantes, morfologias inexistentes. E outras palavras.
Aquele momento de rádio colou-se-lhe à pele. Ao Domingo à noite nunca mais o perderia de ouvido. Era imaculado o gesto de sintonizar aquele posto mágico durante duas horas semanais. Gesto esse que acompanhou-o sempre a partir daí. O miúdo passou a adolescência, chegou à vida adulta, atravessou experiências e calendários, até ele próprio chegar à terra da rádio.
O miúdo era eu.
O programa, "Íntima Fracção".



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