segunda-feira, 4 de abril de 2005



A VOZ DO LOBO

Há quantos anos ouvimos a voz deste lobo solitário? Durante quantos mais teremos o privilégio de a ouvir?
No primeiro mês deste ano, António Sérgio completou 55 anos de idade, e o programa de que é autor na Best Rock FM, dedicou-se à celebração da data. A emissão, que contou com depoimentos de várias pessoas que se foram cruzando na vida pessoal e profissional de António Sérgio, foi uma homenagem - em vida! - a uma das personagens mais marcantes do panorama radiofónico português dos últimos trinta anos.
Ouço-o há, pelo menos, vinte e cinco anos, dava eu os meus primeiros "passos" enquanto ouvinte. Já António Sérgio estava no projecto pioneiro que se iria transformar na saudosa Rádio Comercial, a então RDP - Canal 4, já depois de bons tempos passados na Rádio Renascença com o mítico programa "Rotação" (que nunca cheguei a captar por motivos de escassa idade!). "Rolls Rock" é então o primeiro programa de António Sérgio na RDP-Canal 4 / Rádio Comercial e o primeiro em que o escutei. Sei que era um espaço de divulgação musical, música essa que não ouvia em mais lado nenhum, tendo em conta que o que mais (ainda) se ouvia por esses tempos eram as emissões em Onda Média.
Não me lembro bem do formato do programa (era ainda muito miúdo), mas o que se destacou logo - e eu senti-o muito - foi aquela voz. Aquele timbre.
Absolutamente distinto dos demais. Uma voz funda, muito grave, estranha até. Nunca mais a perdi de ouvido. Já ouvi pessoas dizerem "Ah, não percebo lá muito bem o que ele diz". Eu digo-lhes: "Podem não perceber (sempre) o que ele diz, mas sempre podem perceber o que ele quer dizer".
Seguiu-se o advento em força do FM em Portugal e entrava-se no período dourado da rádio de autor.
"Rolls Rock"; "Som da Frente"; "Rei Lagarto e Outras Histórias"; "Lança Chamas" e "O Grande Delta" são títulos memoráveis de António Sérgio na Rádio.
Já em 1993, após o definhar e a consequente privatização da "velha" Comercial, António Sérgio integra o elenco (de luxo) fundador da XFM. A aventura terminou em 97, altura em que António Sérgio regressa à comercial para fazer "A Hora Do Lobo" (3ª a sábado/ 00:00-02:00).
Em 2003, com a reformulação das rádios do grupo Media Capital, A Hora Do Lobo abandona a cobertura nacional da Rádio Comercial para encontrar "toca" na então recém criada Best Rock FM, com uma cobertura local reduzida às cidades de Lisboa, Porto, Coimbra e Santarém e também através da internet no portal IOL.
Merecedora de outros quadrantes, a "voz do lobo" lá vai soando na noite para todos aqueles que conseguem captar a sua sintonia ou têm acesso à internet. A Hora Do Lobo (Best Rock FM / 3ª a Sábado / 00:00-02:00) dedica-se ao pensar, ao ser alternativo. Num tempo de massificada formatação e segmentação na rádio, o programa e a atitude de António Sérgio é um produto cujo conceito é, por motivos conjunturais, contra corrente.
A Hora Do Lobo não se "limita" a divulgar novas edições das chamadas franjas da industria Pop-Rock. O espaço está recheado de rubricas fixas: "Santuário"; "Lista Rebelde"; "Viagens Downtown"; "Debaixo da Língua"; "Tempo de Descobertas"; "Fadas, Unicórnios e Cyborgs" e "A Fala da Tribo"(onde há um ou mais convidados em estúdio, por vezes com interessantíssimas sessões musicais ao vivo nas noites de 6ª feira). Estas duas últimas rubricas contam com a colaboração/autoria preciosa de Ana Cristina Ferrão. Seria exaustivo esmiuçar cada uma destas rubricas, pelo que o melhor é mesmo ouvi-las. Aliás, recomendam-se vivamente.
Em declarações ao semanário BLITZ em Março de 2004, António Sérgio questionado pelo jornalista Jorge Mourinha dizia que « Estar no ar um determinado período de horas por dia é uma necessidade absoluta, apesar de não ver ninguém, de não saber se me estão a ouvir do outro lado. Há aqui algo de catártico...»; «Não me sinto dinossáurio; sinto-me um bocado mais velho e, sim, francamente solitário. Na época dos realizadores, conversávamos muito entre nós, trocávamos muitas impressões».
A época dos realizadores a que António Sérgio se refere é, essencialmente, a Rádio Comercial, principalmente na primeira metade dos anos 80, em que essa Doce mania de rádio destilava talento e conteúdos originais de extremo interesse, obtendo considerável impacto junto dos ouvintes.
Sou do tempo em que se faltava às aulas para ficar em casa a ouvir rádio. Cheguei a "fugir" da escola, correndo para casa para apanhar o início dos programas.
Doce mania de rádio... é de lá que vem o uivo do lobo. O mais admirável no estoicismo e na atitude de "A Hora Do Lobo" é o conservar daquele tipo de programas repletos de pontos de interesse, que se ligam todos uns aos outros. Bem diferente do que aparece hoje no ar, em que as peças do puzzle sonoro não encaixam entre si.
O Mestre, como carinhosamente é chamado, é o último "sobrevivente" em actividade - e que nunca suspendeu funções - desse tempo de autores de radiodifusão da antiga Comercial.
Como ele próprio afirma: «Sou o último dos moicanos!»
Mas o Mestre deixa legado. Para além dos muitos fãs e admiradores (eu incluído) e, para além de lamentáveis plágios e imitações, ainda há quem queira seguir as sábias pegadas deste lobo solitário. Existem já alguns nomes na praça: Miguel Quintão, Nuno Calado, António Freitas, e mais haveria se o actual mercado rádio não asfixiasse o romper de novos talentos. As novas gerações estão a perder referências.
Citando ainda António Sérgio no semanário BLITZ há pouco mais de um ano. Então e sobre o futuro? «Hoje em dia, uma pessoa vai tendo a noção que não vai fazer rádio eternamente, se bem que se conseguir ser como o John Peel (entretanto falecido já depois destas declarações), ainda tenho uma boa década ou mais de rádio por fazer...»
Mas hoje em dia, o "futuro" ou a "morte", podem muito bem assumir outras formas. Rodeado de "playlists" por todos os lados, a rádio de autor está a ser dizimada quase por completo. O futuro que António fala, pode aparecer em fato cinzento, envergado por alguém menos escrupuloso, isento de sensibilidade humana e rádiofónica e comunicar, talvez por e-mail, talvez por SMS ou MSN e deixar escrito em caracteres trincados: "a partir d'amanhã o sr. deixa de fazer parte do projecto"; ou "o sr. no dia tal escusa de aparecer para fazer o seu programa".
Não queremos que António Sérgio seja o "John Peel português", porque comparações destas podem, no mínimo, ser injustas. Queremos que António Sérgio continue a ser "O António português".

Take care
Stay tuned!

(Há uma "extensão" escrita da "Hora Do Lobo" no caderno indígena do semanário Independente às sextas feiras).

Francisco Mateus



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