sábado, 6 de maio de 2006

CMR-CORREIO DA MANHÃ RÁDIO

A luz da cidade

Sintonizei (Lisboa, 101.5 FM) pela primeira vez o CMR em Abril de 1987. Fiquei “preso” à sintonia porque passava álbuns na íntegra. Sem palavra, sem nada. A minha permanência mais assídua neste posto devia-se não só à audição de discos inteiros (é preciso fazer notar que há quase vinte anos o consumo de música não era a democracia aberta que é hoje) mas principalmente pela curiosidade e expectativa de “quando é que alguém vai falar?” 
Não esperei muito. Semanas mais tarde aparecia uma voz (gravada) masculina, possante e grave a dizer simplesmente isto: “Correio da Manhã Rádio”. Era aquilo a que hoje se designa por Teaser. A voz era de Rui Pego. Pouco depois surgiram os primeiros jingles, os primeiros spots, as primeiras vozes, os primeiros programas. Nascia uma nova rádio. Posso dizer que assisti – como ouvinte – ao nascimento de uma rádio desde o seu início anónimo de ocupação de banda.
O CMR-Correio da Manhã Rádio partiu da iniciativa do empresário Carlos Barbosa, fundador do jornal Correio da Manhã, que viu na rádio uma extensão do diário, um dos mais vendidos em Portugal. Vivia-se o período mais arrojado e estimulante do fenómeno das rádios pirata. Rui Pego foi o homem forte escolhido para fundar e dirigir a nova estação de Lisboa. Foi criada uma equipa de luxo, maioritariamente vinda da Rádio Renascença, ao mesmo tempo que era dada a oportunidade a novos valores. 
O CMR era uma estação de formato music/news. Programas mais elaborados ou de autor só à noite e também ao fim-de-semana. De segunda a sexta-feira, das 07:00 às 20:00 a rádio cumpria-se com painéis de animação e noticiários de hora a hora. Eu gostava deste figurino. Era prático, simples e eficaz.
O CMR nasceu em 1987 e viria a ser extinto em 1993. Para mim, enquanto ouvinte, o melhor período foi até 1990. Principalmente por causa dos seguintes programas: 

«Faces Ocultas»: João Gobern é o único apresentador que me lembro deste programa feito a várias mãos. Um olhar diferente sobre um trabalho musical ou um artista. A cosmética editorial era de primeiríssima categoria. Não me lembro do dia nem horário de transmissão, mas lembro-me que era à noite.

«Mercado Negro»: João Vaz e a divulgação da chamada “música negra”, com predominância para os ritmos mais dançantes. Depois de Adelino Gonçalves, João Vaz foi o melhor divulgador da música negra norte americana e não só norte americana.

«Espelho d’Água»: Teresa Fernandes (desde há bons anos a voz off da TVI) na hora de almoço ao fim-de-semana (sábados, 13:00/15:00). Faça o fim-de-semana connosco. Requinte, bom gosto musical, por vezes muito aligeirado e… uma boa voz que, depois da extinção do CMR, não (que me desse conta) voltaria à rádio.

«A Dois Passos do Paraíso»: Fernanda de Oliveira Ribeiro (domingos, 13:00/15:00). O irmão dominical do «Espelho d’Água».

«Sábado à Noite Em Paris»: A esta altura perdi de memória sobre quem fazia este programa de charme nos sábados à noite do CMR. Retenho no entanto o indicativo, com a voz de Teresa Fernandes e a música (parte instrumental) do tema “La Folie” dos Stranglers. Recordo em particular uma emissão sobre cinema francês no fim do verão de 1989 (Jeanne Moreau, Marguerite Duras, «India Song»; Nouvelle Vague, etc…). Foi simplesmente deslumbrante.

«Os Silêncios de Ouro»: madrugadas dos sete dias da semana (02:00/07:00) onde eram emitidos álbuns na íntegra. No início destas cinco horas era divulgada a lista das escolhas (só com o nome dos artistas) e depois era ouvir a passagem de álbuns na sua forma integral, incluindo os espaços (brancas) entre cada tema. Nunca existiu a preocupação de ligar as partes, sendo a lista absolutamente ausente de critério. Há pelo menos três álbuns que fiquei a conhecer e a gostar graças a esta solução (fácil, diga-se, a fim de preencher um espaço vazio). Os três não poderiam ser mais díspares na forma, estilo e conteúdo: Bruce Springsteen & The E-Street Band “Live 1975-1985”; Curiosity Killed The Cat “Keep Your Distance”; Dead Can Dance “Whitin The Realm Of A Dying Sun”. Elucidativo?

«Baile de Finalistas»: Luís Ferreira de Almeida com canções pop-rock das décadas de 50 e 60, ao final da tarde (sábados e domingos). Tinha dinâmica e quase que se conseguia estar in the school ao som daquelas memórias dos que eram jovens nos tempos da música yé-yé.

«Lugar de Lua»:
do mar e o poeta solitário escolhe igreja para casar
O lugar onde o coração se esconde é onde contra a casa soa o sino e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde é onde o vento norte corta luas brancas no azul
Em 1989, Paulo Guerra em diálogos voz/poesia/música. (Sábado, 22:00/23:00).

«Até Jazz»: De Raul Vaz Bernardo e José Navarro de Andrade. O Jazz divulgado por dois entendidos. A vez e a voz dos especialistas do género na rádio.

«Deserto Azul»: Programa de Miguel Cruz ao fim de semana. Divulgação de correntes mais easy listening do Jazz instrumental.

«O Ano de Todos os Perigos»: Uma emissão especial no balanço feito ao ano de 1988. Uma espécie de grande reportagem musicada. O resultado final deste melting pot foi, no mínimo, soberbo.

«Especiais musicais»: Foram muitos e foram muito bons. Alguns (poucos) exemplos: Isabel Antena, Tim Buckley, Bob Dylan, Suzanne Veja, Bossa Nova, 10.000 Maniacs, The Smiths: o ocaso (no fim de 1987) da banda de Morrissey e Johnny Marr teve um epílogo à altura no CMR.

«Manhãs do CMR»: Primeiramente sob a condução de Rui Pego, foi depois durante muito tempo da responsabilidade (animação) de Mário Fernando. Em grande nível. A rivalizar no mesmo horário (2ª a 6ª, 07:00/10:00) estavam António Macedo (TSF), António Sala (Rádio Renascença), José Ramos (Rádio Comercial) e Francisco Sena Santos (informação na Antena1). À excepção da Rádio Renascença – que não ouvia – era para mim uma séria dificuldade escolher em qual das manhãs ficar. Muitas dessas vezes perdia-me a saltar de um lado para o outro. Às vezes conseguia-me fixar num deles, mas não era nada fácil… 

«Entrevista»: Já nos primeiros anos da nova década de 90 lembro-me de algumas entrevistas feitas à noite por Pedro Rolo Duarte (durante a semana de segunda a sexta, durante uma hora, 23:00/00:00). Na primeira metade de 1992 lembro-me de dois convidados vindos da TSF: António Macedo, frisando com humor o facto de estar ali em directo naquela hora para a entrevista e de daí a não muitas horas ter de estar antes das seis da manhã no edifício ao lado para fazer emissão na TSF. Outro convidado foi Nuno Santos, ao tempo animador/coordenador na TSF. A diferença entre as duas entrevistas foi a parcialidade demonstrada por parte do entrevistador. Afectuosidade e afabilidade para com António Macedo, uma certa aspereza e pouca complacência para com Nuno Santos. Mas era precisamente essa ausência de imparcialidade que tornavam interessantes as entrevistas/conversas de Pedro Rolo Duarte no CMR. Pois se nem uma rocha lunar é indiferente ao que a rodeia, quanto mais um ser humano.

O Fim
Nos inícios da década de 90, o CMR flectiu um bom bocado o seu projecto inicial. Em minha opinião, mal. O período 1987-1990 foi inigualável e lamentavelmente descontinuado. Pareceu-me que o CMR quis rivalizar com a TSF. Começou, por exemplo, a transmitir relatos de futebol e debates políticos. Descaracterizou-se bastante e perdeu-me como ouvinte. A TSF já me tinha conquistado a alma e o coração. Assisti ao muito promissor e radiante nascimento do CMR, mas já não estava lá aquando do fim.
Apesar da legalização e da correspondente atribuição de licença de Rádio Regional Sul, em 1993, os proprietários do CMR fundem a estação com a Rádio Comercial aquando da compra e privatização desta. Nem uma nem outra estação ganharam com o negócio. O CMR foi extinto e a Rádio Comercial hoje é uma outra rádio, apenas mantendo o nome forte que é uma marca no mercado.
O lugar criado pelo CMR em Lisboa, de rádio urbana, cosmopolita e moderna, ficou vago e nunca foi preenchido. Houve uma tentativa – negada – de reocupar essa lacuna, com o projecto (ambicioso) da Rádio Central, que apenas durou escassos meses em finais de 1996. Mas, como se sabe, redundou em total fracasso.

Nomes de algumas das pessoas que fizeram o CMR: Rui Pego, Mário Fernando, Nuno Infante do Carmo, João Vaz, José Mariño, Teresa Fernandes, Margarida Pinto Correia, Luís Ferreira de Almeida, Margarida Guimarães, Paulo Guerra, João Gobern, João Pedro Bandeira, Madalena Queirós, José Carlos Cunha, Fernanda Oliveira Ribeiro, Rui Vargas. 




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