Lembram-se da jovem Bebel Gilberto, filha de João, sentada ao lado do pai a cantar a letra feminina de “Chega de Saudade”? Ei-la aqui de novo, muitos anos mais tarde, aos pés do pai. Porém, desta vez sem cantar. Apenas a admirar a arte do progenitor. João Gilberto nunca foi dado a duetos. Em disco apenas o fez, muito timidamente, com a sua então mulher Miúcha, em 1976. Ao vivo, para além da filha Bebel, João Gilberto aceitou os duetos femininos com Astrud Gilberto, Rita Lee e ainda as participações de, como anteriormente assistimos, cantoras como Gal Costa e Maria Bethânia. Com vozes masculinas, fez duetos com Caetano Veloso e, antes disso, com Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A timidez de João Gilberto é reconhecida em todas as vertentes da sua vida. O escritor Jorge Amado – que com a sua mulher Zélia Gatai foi padrinho do casamento de João com Miúcha – conta que João Gilberto lhe pedira para interceder junto do então futuro sogro Sérgio Buarque de Hollanda a fim de poder facilitar o matrimónio com a filha e irmã de Chico Buarque. “Ronda” é um tema antigo da música brasileira. Foi escrita originalmente em 1945 e gravada pela primeira vez em 1953, pela voz da cantora Inezita Barroso. Existe uma grande capacidade das cantoras e cantores brasileiros cantarem como se fossem do sexo oposto, vestindo a pele do outro. “Ronda” é uma canção escrita para uma mulher cantar, mas João Gilberto não ligou ao género e, com sabedoria e autoridade, converteu este tema numa canção totalmente ao estilo Bossa Nova.
Crónica que deveria estar a passar na Rádio. Não passa na Rádio, mas passa aqui durante cinquenta dias até ao fim do ano. Texto inicialmente escrito para Rádio adaptado para leitura on-line.