domingo, 7 de maio de 2006

A «Doce Mania de Rádio»












RÁDIO COMERCIAL anos 80


Naquele tempo havia um rádio ligado em minha casa 24 horas por dia. Só existiam quatro canais nacionais de rádio: a RDP Antena 1 e Antena 2, a Rádio Renascença e a Rádio Comercial, que também pertencia à Radiodifusão Portuguesa. A Rádio estava sempre ligada na Rádio Comercial, especialmente na emissão de Onda Média. Isto até ter-se dado o advento do FM em Portugal, em larga escala, a partir de 1979. Eu não me lembro do nome do aparelho de recepção que o meu pai trouxe para casa em 1975 e que, na primeira vez que foi ligado, apareceu a voz de Raul Durão na Antena 1. Não me lembro da marca do modelo do aparelho, mas se tiverem oportunidade de ver o filme Apocalypse Now Redux (de Francis Ford Coppolla) aparece um rádio exactamente igual no momento do enterro do jovem soldado. Seria, todavia, com um outro receptor, um pequeno transístor manual (que lá em casa chamávamos de “bonequinha”) que escutaria, pela primeira vez, uma madrugada inteira de rádio. Fi-lo em segredo. Tinha nove anos e o programa que escutei durante toda essa noite chamava-se «A Noite é Nossa», de Ruy Castelar. Foi a primeira de muitas, imensas, incontáveis noites em claro a ouvir rádio. E, obviamente, a ouvir a Rádio Comercial. O programa «A Noite é Nossa», de Ruy Castelar, não duraria muito mais tempo e, passado um ano ou dois, apareceu um outro programa na Rádio Comercial, no mesmo horário, que quase nunca perdia. Era o programa «No Calor da Noite», feito a várias mãos. Uma equipa de notáveis profissionais, entre eles Fernando Correia, Jorge Perestrelo, Luís Filipe Barros e José Augusto Marques. Cada qual fazia à sua maneira mas, em todos eles, havia uma forte dedicação. «No Calor da Noite» era uma companhia nocturna absolutamente arrebatadora. Eu já sabia que se começasse a ouvir esse programa não conseguiria dormir mais até ao fim. Este é apenas um dos muitos exemplos que trago na memória desses templos absolutamente dourados da doce mania de rádio. «Doce mania de rádio», era uma frase cliché do programa «24ª Hora». Esse era outro dos espaços de emissão que eu ouvia assiduamente. Por exemplo, neste programa havia duas crónicas diárias absolutamente imperdíveis: o ressurgimento dos «Cinco minutos de Jazz» de José Duarte (após um interregno de vários anos na rádio portuguesa) e a crónica socio-política de José Manuel Homem de Melo. Mas tal como disse, estes são apenas alguns exemplos de uma torrente contínua de programas na Rádio Comercial, ao longo de 24 horas por dia. As manhãs, até um certo período, eram em simultâneo em Onda Média e FM. Podiam começar com a equipa de Luís Paixão Martins («Hora de Ponta»), Luís Pereira de Sousa («Hora a Hora»), Carlos Pinto Coelho, José Ramos, Herman José, Júlio Isidro, continuando depois com Ruy Castelar, Jorge Pego, etc.
As tardes em Onda Média também foram, durante algum tempo, preenchidas com um programa feminino chamado «Ela», feito por várias elas, e que tinha uma crónica social interessantíssima feita por Carlos Castro. Em FM, era a «Discoteca» de Adelino Gonçalves, «O Vapor» de José La Féria, o «Rock em Stock» de Luís Filipe Barros, «Tempo de Fuga» (rigoroso exclusivo Pausadas de Portugal) com apresentação de José Ramos, «Cabo da Boa Esperança» com apresentação de António Macedo, já pela noite dentro «Quando o Telefone Toca» com Matos Maia (à 4ª feira havia o Top dos discos mais pedidos), o «Café-Concerto» com Maria José Mauperrin, depois a já falada «24ª Hora» que teve como apresentadores Pedro Castelo, Aníbal Cabrita e João Chaves entre muitos outros. Depois vinha «O Passageiro da Noite» de Cândido Mota, «O Som da Frente» de António Sérgio e «O Calor da Noite» dos notáveis de que já falei.
A rádio nessa altura em minha casa era e, acho que em todas as casas, mais importante que a televisão. Muita gente não se lembra mas só havia a RTP 1 e 2. E a televisão em Portugal nessa altura não funcionava 24 por dia. As emissões começavam à tarde, por volta das 17:00 e às duas da manhã ou muitas vezes antes, já estavam encerradas. A rádio sempre foi o órgão de comunicação social mais importante na minha casa. Estava então ligada 24 horas por dia. Acordava a ouvir rádio, tudo o que fazia era ao som da rádio, estudava a ouvir rádio, faltei a algumas aulas para ouvir rádio, quase que gostava de ficar doente para poder ficar em casa a ouvir rádio, deitava-me (e deito-me) sempre a ouvir rádio. Muitas dessas noites, não chegava a dormir. Toda a bagagem musical que fui acumulando ao longo dos anos foi através da rádio. E todo o investimento musical que, posteriormente fiz, foi estimulado pelo que conheci através da rádio. É claro que muitas das coisas que conheci me levaram a conhecer outras e por aí fora (as playlists não permitem isso, salvo as raras excepções do costume). Nessa altura, nos últimos 25 a 30 anos, a rádio tinha uma componente que hoje em dia caiu em desuso: a formação. A rádio tinha três componentes fundamentais: a informação, o entretenimento e a formação. Hoje em dia, a formação está completamente posta de parte. Os programas tinham, de facto, impacto junto das pessoas. Havia muito mais ouvintes que há hoje. Havia mais tempo, as pessoas estavam mais disponíveis para ouvir rádio. E faziam-no, sobretudo em casa. Na altura, a maioria das pessoas não tinha ainda transporte próprio. Hoje em dia a rádio ouve-se essencialmente nos automóveis. Esta diferença de disponibilidade demonstra o quanto diferentes são hoje os ouvintes de rádio. Hoje, ouvem com menos atenção. São menos exigentes na subjectividade das emissões mas, por outro lado, as audiências de hoje em dia são mais exigentes no que toca à informação, ao jornalismo radiofónico. Hoje em dia há mais participação de ouvintes em directo na rádio, há maior interactividade por via dos vários fóruns que se multiplicam em estações de referência, sendo que em muitos destes casos o excesso de palavra cai em redundância e na inutilidade. Transforma-se em ruído. E o excesso de informação transforma-se em desinformação (mas esse é um outro assunto que não interessa agora).
Por vezes, eu colocava dois aparelhos de rádio ligados em simultâneo. Um com o volume de som mais elevado que o outro, para assim produzir-se um efeito em eco que se espalhava por toda a casa. Aquilo era mágico!


DADOS HISTÓRICOSA Rádio Comercial foi precedida pelo não menos histórico RCP-Rádio Clube Português. Após as nacionalizações em 1975, o RCP (privado) foi assim nacionalizado e caiu na alçada da RDP. Primeiro este canal nacional de radiodifusão chamou-se RDP-Programa 4. Depois, e por ser a única estação estatal a ter publicidade, começou a denominar-se – por sugestão de João David Nunes – Rádio Comercial.
Dia 10 de Março de 1979: João David Nunes assumia o cargo de director da Rádio Comercial. António Ribeiro é o director de informação.
Junho de 1980: Jaime Fernandes assume o cargo de director de programas.
Outros nomes pioneiros no arranque da Rádio Comercial: Rui Morrison, Paulo Coelho, Júlio Isidro, Dora Maria, Fernando Quinas, Jorge Moreira, Dulce Varela e Pedro Castelo.


Acho que alguma da Rádio que já se vai fazendo, neste momento, em Portugal, não nos deixa muito envergonhados em relação à Rádio que se faz lá fora.João David Nunes, Abril 1981


PROGRAMAS PARA A HISTÓRIA
«Quando o telefone toca» que teve vários apresentadores, mas o único que me lembro bem é Matos Maia. Acompanhava com maior entusiasmo a emissão de quarta-feira por causa do top dos dez mais pedidos da semana. O objectivo era ouvir as canções “Eyes Without a Face” de Billy Idol e “Take a look at me Now de Phill Collins. Estavam lá sempre (1983/84).

«Piadinhas e Torradinhas» e «Graça com Todos» dos «Parodiantes de Lisboa». As “piadinhas surgiam cedo pela manhã (no Inverno ainda de noite) e a “Graça” à hora do almoço (13:00/14:00) . Sempre de segunda a sexta-feira. Inesquecível a dupla Patilhas e Ventoinha, que aparecia já nos últimos dez ou quinze minutos da sessão «Graça com Todos». Lá iam eles desvendar mais um bizarro crime. Patilhas era o chefe, o inteligente. Ventoinha o bronco, o desastrado. Mas não eram poucas as vezes que o subalterno surpreendia e embrulhava o chefe…

«Café da Manhã» com Ruy Castelar e companhia. Da companhia fizeram parte duas estreantes vozes femininas, hoje ausentes do éter: Maria Alexandra e Isabel Risques. Onda média pura e dura, com música portuguesa, francesa e latino americana. Passatempos/ofertas e ouvintes em directo. Este era o Ruy Castelar diurno. Antes tinha havido o histórico «A Noite é Nossa» e, depois do «Café da Manhã», Ruy Castelar voltaria à terna noite para realizar o «Fantástico». Durou anos a fio, só sendo pulverizado pela privatização da Comercial em 1993. Fica na memória do «Fantástico» as intervenções da astróloga brasileira Diva Ferreira e especialmente os directos de Carlos Rebelo a partir da discoteca “Green Hill” na Foz do Arelho. O programa «Fantástico» ainda teve um remake na Rádio Nova (Porto) numa altura em que dispunha de emissão de e para Lisboa. Mas nunca mais voltou a ser a mesma coisa e a fantasia perdeu-se.

«A Grafonola Ideal» de Júlio Isidro. Salvo erro, apenas em Onda Média. E, se a memória não me atraiçoa, Júlio Isidro teve uma ou mais vozes femininas a acompanhá-lo neste programa da Comercial. Mas fez mais, especialmente a «Febre de Sábado de Manhã». Este último conseguiu feitos impensáveis na rádio de hoje. Qual é o programa que hoje conseguiria encher um estádio de futebol durante três horas para assistir a actuações musicais numa manhã de Sábado?

«Cantores do Rádio» de José Nuno Martins. Destaque óbvio para a música brasileira e estórias associadas. Outro programa de José Nuno Martins que deixou marcas na Rádio Comercial nos anos 80 foi «Interiores».

«Piquenicão» de Costa Macedo, numa romaria anual com ouvintes, amigos, familiares e agricultores. A rádio ao vivo e em directo. Literalmente.

«TNT-Todos no Top» de Jorge Pego, que numa determinada fase contou também com apresentação de Manuela Moura Guedes. Lembro-me da entrevista a Paul McCartney por altura da edição do álbum “Pipes Of Peace” (1983). A guerra-fria estava num dos seus pontos mais críticos.

«Rock em Stock» de Luís Filipe Barros. (Por um bom período de tempo foi feito por Ana Bola). Talvez o mais memorável dos programas da Comercial de 80, a par do «Som da Frente» e da «Discoteca». Rasgou horizontes e deu o Rock que os ouvintes portugueses nunca tinham escutado.

«Círculo em FM» de Paulo Coelho e Fernanda Ferreira, um programa que também contou com a apresentação de José Ramos.

«Discoteca» de Adelino Gonçalves. Um dos marcos da Comercial de 80. Enfoque especial para a chamada música negra mais dançante (funk) acompanhada por muito mais. Foi aqui, por exemplo, que se ouviu pela primeira vez o tema “Drive” dos Cars ou “Nightshift” dos Commodores em homenagem ao então assassinado Marvin Gaye (1984).

«O Vapor» de José La Féria. A ponte entre a «Discoteca» e o «Rock em Stock». Muito diferente – para melhor – era este La Féria daquele que também militava na Onda Média.

«Rolls Rock» , «Lança Chamas» , «Rei Lagarto e outras histórias» e em particular «Som da Frente», todos estes programas da autoria de António Sérgio. A história fala por si.

«Cabo da Boa Esperança» Apresentação de António Macedo. Um programa que abordava assuntos africanos. Não teve vida longa este programa da Comercial de 80 (final da tarde), mas a inigualável apresentação fica na memória. Outro programa de António Macedo que marcou: «É de Noite Já se Vê». (E aquela entrevista em directo em que o cantor Toni de Matos ainda conseguia fumar mais cigarros que o entrevistador?).

«Café Concerto» calmo e intimista de Maria José Mauperrin (ver mais abaixo).

«Morrison Hotel» de Rui Morrison. Sobriedade e bom gosto. Música de todos os tempos em perfeita simbiose. A voz distinta do autor complementava o atraente enquadramento.

«Pedras Rolantes» do próprio Rui Morrison com Rui Neves e Ricardo Camacho. A três mãos, uma emissão musical mas com palavra. Dos três.

«24ª Hora» O melhor magazine radiofónico que alguma vez ouvi. Era uma segunda e nova vida do mítico «23ª hora» vindo da Rádio Renascença (que nunca ouvi pela simples razão de que ainda não era nascido), mas já aqui os tempos eram outros. Um programa idealizado e concebido pelo grande produtor de rádio, que foi João Martins. A «24ª Hora» teve vários apresentadores (José Nuno Martins, Jorge Pego, Aníbal Cabrita, João Chaves, António Macedo, etc.) sendo Pedro Castelo o mais assíduo. Outros nomes participantes: Tomás Taveira (arquitectura), Paulo Gil, António Rolo Duarte, José Vaz Pereira (cinema). O lugar deixado vago pela “vigésima” ainda continua por preencher devidamente na rádio em Portugal.

«Cinco Minutos de Jazz» de José Duarte. Começou em 1966. Conheceu um hiato de vários anos após o 25 de Abril, mas retornou em Outubro de 1983 justamente na 24ª hora. Aí sim, apanhei o acontecimento na hora e sigo os «Cinco Minutos» até hoje.

«O Passageiro da Noite» O programa mais famoso na longa carreira radiofónica de Cândido Mota. O mais famoso e o mais polémico…

«Country Music» de Jaime Fernandes. Até hoje, o melhor programa de rádio sobre a canção tradicional norte americana.

«Dança Atlântico», «Trópico de Dança», «A Escola do Paraíso» e «W». O que uniu todos estes projectos? Um homem, um nome, muitas ideias: Miguel Esteves Cardoso. Não esteve sozinho. Ao lado do seu poder de génio, também materializado no mundo da rádio, estiveram João David Nunes, David Ferreira e Margarida Mercês de Melo. Já agora, onde estás tu, MEC?

«Pão Com Manteiga» durou 98 semanas. Uma equipa de luxo liderada por Carlos Cruz: José Duarte, Mário Zambujal, Joaquim Furtado, Bernardo Brito e Cunha, Eduarda Ferreira, Orlando Neves.
Parte desta equipa esteve também envolvida em outros programas memoráveis, ainda sob a liderança de Carlos Cruz «Contra Ataque», «Duplex» e «Uma Por Semana». O Senhor Televisão também era um Senhor Rádio. Qualidade acima da média (na altura muito elevada).
Irreverência, intransigência, independência. Alguém consegue pedir mais?

«A Flor do Éter» e «Rebéu-béu Pardais ao Ninho» de Herman José & companhia: Vítor de Sousa, Margarida Carpinteiro, Lídia Franco e Ana Bola. Lembram-se do infindável folhetim «Fedora Fedoreva»? Radio novela humorística. Hoje não existe nada parecido.

«Se7e por Se7e» uma extensão radiofónica do semanário de artes e espectáculos «Se7e», com coordenação do então director da publicação Carlos Cáceres Monteiro.
E que equipa: António Macedo, João Gobern, Pedro Rolo Duarte, entre outros.

«As Noites Longas do FM Estéreo» António Santos no seu melhor momento (monumento) de rádio.

«À Sombra de Edison» de Jorge Gil com locução de Cândido Mota. A arte do som e da palavra num ensaio experimentalista.

«Tardes de Desporto» O futebol era quase sempre ao Domingo. Por vezes, raramente, também ao sábado. Artur Agostinho, Fernando Correia, Jorge Perestrelo, David Borges, Fernando Emílio, Abel Figueiredo (relatadores); António Macedo (como repórter de pista); Carlos Cardoso (comentador de arbitragem); Fernando Neves de Sousa (comentador de futebol); José Augusto Marques, Orlando Dias Agudo, etc. Mas o desporto na Comercial não era só futebol, como hoje acontece nas três maiores estações nacionais (Antena1, TSF, Renascença). Havia transmissões dos campeonatos mundiais e europeus de Hóquei em Patins, o atletismo tinha acompanhamento regular, o automobilismo também, em particular o saudoso Rali de Portugal Vinho do Porto. As inesquecíveis vitórias olímpicas de Carlos Lopes (Los Angeles, 1984) e de Rosa Mota (Seul, 1988) foram relatadas em directo na Rádio Comercial por Fernando Correia. Arrepiante, soberbo.

Tantos e tão bons nomes da rádio feita em Portugal, todos juntos sob o mesmo tecto. Nunca mais aconteceu nada assim.
E já agora, retomando e reforçando a saga dos paradeiros de radialistas desta altura:

O que é feito de Abel Figueiredo? Foi com ele a relatar que o Sporting ganhou o último título nacional (1981) antes de uma longa travessia de 19 anos. No final do encontro, o ponta de lança sportinguista Jordão ofereceu a camisola a este narrador da Rádio Comercial. Ouvi tudo em directo! Em 1986, no verão, eram dele os relatos em directo – noite dentro – do campeonato Mundial de Hóquei em Patins no Sertãozinho, Brasil. Lembram-se?

O que é feito Fernando Emílio? Era narrador desportivo (Futebol, Hóquei em Patins, atletismo e ciclismo). Entusiasta, por vezes frenético. Permaneceu na Rádio Comercial após a privatização desta em 1993, mas ainda no decorrer da década de noventa “desapareceu” do éter.

O que é feito de Carlos Cardoso? Especialista em arbitragem de futebol, detentor de uma inconfundível voz rouca. As análises dele ao jogo em directo, principalmente nos grandes encontros de futebol, davam uma outra dimensão aquele tipo de transmissão. Sobriedade e saber, mesmo quando as emoções estavam ao rubro. Já na década de noventa exerceu as mesmas funções na TSF, mas depois disso – já na segunda metade dos anos 90 – nunca mais se ouviu. E se fazem falta análises correctas sobre arbitragem…

O que é feito de Carlos Rebelo? Era o entusiasta repórter de serviço em programas de Ruy Castelar, particularmente nos directos a altas horas da noite na discoteca “Green Hill” na Foz do Arelho. Em que “praia” andará ele agora?

O que é feito de João Gobern? Rádio Comercial e CMR – Correio da Manhã Rádio, onde foi um dos autores do programa «Faces Ocultas». Tem estado com muita regularidade e presença na imprensa escrita. A sua última (?) aparição radiofónica de que me tenha dado conta foi como cronista na TSF na primeira metade dos anos 90.


MEMÓRIA E PASSAGEM
Naqueles tempos fluorescente de rádio – que era um meio mais importante que a televisão – a Rádio Comercial era A Estação. Era a Rádio de referência em Portugal. A mais avançada profissionalmente e em conteúdos. Havia ideias, autores e realizadores que materializavam as ideias e os conceitos. Havia competição interna saudável. Discutia-se a rádio dentro da rádio com os seus protagonistas. Era a casa que albergava formas de expressão diversificadas e artísticas. Só foi possível porque vivia-se e respirava-se um clima de liberdade criativa, de respeito pela liberdade de pensamento e expressão de quem e para quem se fazia a rádio. Impensável nas outras Estações da época (RDP e RR).
Eis que entretanto se desenvolve a grande ritmo o fenómeno das chamadas “Rádios Pirata”, mas isso não foi “o mal” que veio por mal e que tenha afectado a Comercial. O pior veio depois, com o espectro da privatização. Começara a agonia.


1993, A PRIVATIZAÇÃOA empresa proprietária do CMR-Correio da Manhã Rádio compra a Comercial e assim se estragam duas casas. Acabou o CMR que até dada altura, isto é, até começar a copiar a TSF, era a rádio mais bela de Lisboa. Uma estação de charme, fascinante em muitos aspectos, com inegáveis bons profissionais. E acabou a Comercial que até então conheceramos. A fusão não podia dar certo e não deu mesmo. Depois de uma longa agonia de indefinição, novos proprietários transformaram a Rádio Comercial (exclusivamente com emissão em FM) na «Rádio Rock», dirigida por Luís Montez, entretanto saído dos defuntos projectos XFM e NRJ-Energia/Radical. Estávamos já em 1997. O formato «Rádio Rock» foi adoptado após um estudo em que dava conta das preferências dos ouvintes portugueses. Afinal, o que o povo queria era Rock! O modelo (playlist, quase ausência de programas de autor) deu resultados positivos na óptica do mercado e das audiências, mas da Rádio Comercial enquanto Rádio Comercial e enquanto conceito, já só restava o nome, os emissores nacionais e o mágico corredor da Sampaio Pina. De resto, toda a magia tinha sido substituída pela Radio Format Target.
O método fez doutrina e, em meados da primeira década do século XXI, todas – ou quase todas – as estações seguem o método. Até quando?


RÁDIO COMERCIAL 2006
É uma estação de matriz musical, quase totalmente preenchida por playlist (de tops, comercial). Beneficia de uma boa cobertura nacional e é esse facto que lhe dá vantagem em relação às tantas outras rádios comerciais/musicais que por aí andam (afinal o tamanho conta…). Tem como objectivo destronar a RFM da liderança de audiências. Para atingir esse fim começou, desde 2003 (com a entrada em funções administrativas do ex-RFM Pedro Tojal) a copiar a estação rival mais directa. Desde finais de 2005 que a Rádio Comercial tem nova direcção. Desconheço se os objectivos estratégicos serão os mesmos, mas até à data, nada de muito diferente aconteceu, com a excepção – justa – do regresso de António Sérgio e a criação do programa «80 à Hora».
Repito: Até à data, nada de muito diferente aconteceu. Vai acontecer?

Francisco Mateus















Eis um dos programas de então:

«Café Concerto
Rádio Comercial – FM
Emissões: de 1980 a 1985
Realização: Maria José Mauperrin
Transmissão: de segunda a sexta-feira das 22.00 às 24.00 horas
Equipa: Maria José Mauperrin, Aníbal Cabrita, Manuela Gomes, Manuel Cintra Ferreira e Victor Consciência.
Colaboradores: Professor Manuel Baptista, Jorge Listopad, Fernando Dacosta, José Duarte, Miguel Esteves Cardoso, Sílvia Chico, Dr. Amaral Dias.

Era um programa fundamental, cultural, onde era feito o tratamento exaustivo das várias actividades ligadas à literatura, ao cinema e às artes plásticas.
Houve os mais interessantes debates e informações muito detalhadas sobre as várias realizações produzidas, tanto em Portugal como no estrangeiro, porque a actualização era uma constante e uma preocupação dos responsáveis.
Semanalmente, uma peça importante: uma entrevista – sempre conduzida por Maria José – a uma personalidade importante da vida intelectual, que era repartida pelas emissões da semana. Conversa sempre em tom coloquial, despretensiosa, pois todos se encontravam num café concerto.Os ouvintes punham questões aos convidados que depois iam ao programa responder em directo às perguntas feitas.
Foram mais de trezentas entrevistas que Maria José fez aos homens e às mulheres da cultura, desde sociólogos a pintores, de músicos a antropólogos, de gráficos a escritores.
Houve, também, convidados estrangeiros, nomeadamente Mário Lagos, Chico Buarque de Hollanda, Mário Soldati, entre outros.
Espaços especiais eram dedicados à ciência, aos livros e seus autores, à informática, ao jazz, às exposições, à psiquiatria.
Foi tentada – e conseguida – criar a atmosfera de um verdadeiro café concerto, espaço de convívio que surgiu em França, no século XIX, e onde dialogavam o malabarista com o intelectual, o músico com o pintor. Esse ambiente foi conseguido, e isso foi um dos motivos do grande sucesso do programa.
O entrosamento que era dado às palavras e à música, a selecção, correcta e rigorosa, a enquadrar-se no ambiente e na atmosfera criados, este todo homogéneo, contribui para que o Café Concerto fosse considerado um dos grandes programas da rádio portuguesa.
Quando deixou de ser transmitido houve grande reacção por parte dos ouvintes, e a imprensa especializada fez coro com esse descontentamento.
Mas o programa chegara ao fim e o regresso era irreversível.»

in "Telefonia" de Matos Maia
Círculo de leitores

1994



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