terça-feira, 26 de abril de 2011

BLITZ 25 anos (+2)


























Esta é a edição de Abril da revista BLITZ (nº 58). Desde Julho de 2006 que o outrora jornal se transformou em revista. O jornal semanário musical BLITZ teve o primeiro número publicado no dia 6 de Novembro de 1984. Essa mesma edição inaugural é agora publicada com a revista deste mês. 
Desde esse dia de Novembro até ao fim enquanto jornal, fui consumidor, leitor assíduo e até colaborador em algumas ilustrações através de concursos. Um deles sobre os The Doors.
Tive antigos colegas de liceu que trabalharam no BLITZ e até um antigo professor da disciplina de religião e moral.

Todas as terças-feiras eram uma ida automática às bancas.
Na maior parte desses anos nunca tive um local exclusivo de compra. Era onde calhasse. Por onde passava, comprava o BLITZ.
Houve uma ou outra banca onde comprava mais: na papelaria «Bonfim» (que ainda existe) da Dona Lurdes e, desde 1997, na loja dos jornais do Centro Comercial Via Europa.
Guardo alguns exemplares em formato jornal. Um deles - e que foi uma delícia para mim - é a última edição de 1989, em Dezembro, em que o BLITZ se dedicou à editora 4AD.
Das revistas, até agora, guardo quase todas.

Nunca se ouviu uma revista assim

O BLITZ jornal teve durante longos períodos de tempo ligações com a Rádio. Quer seja na publicação das listas rebeldes do «Som da Frente» de António Sérgio, ou nos tops dos programas «TNT-Todos no Top» de Jorge Pego e do programa «Discoteca» de Adelino Gonçalves [os três no FM da Rádio Comercial], quer na divulgação de programas como por exemplo «Colar de Pérolas» de Manuel Falcão (primeiro director do BLITZ) na RFM.
Também no BLITZ foram sendo entrevistadas ao longo dos anos várias figuras do mundo da Rádio, como por exemplo António Sérgio.
Esta ligação à Rádio conheceu hiatos e períodos de maior ou menor aproximação.
Actualmente, na revista, não há ligação nenhuma, excepto na página nº 34 da edição de Abril.
Na verdade, trata-se de uma página inteira de divulgação do programa «Rádio BLITZ», mostrando o mapa de Portugal continental e ilhas dos Açores e da Madeira, assinalado com as muitas estações locais que transmitem o programa «Rádio BLITZ».
O espaço foi inaugurado na SuperFM [104.8] na região da grande Lisboa. Sábados, das 16:00 às 18:00; Domingos das 18:00 às 20:00.
Ouvi duas vezes e dei o meu tempo por perdido.
O “programa” (com muitas "aspas") é um grande vazio, sem apresentação, sem conteúdos e sem ligação à publicação BLITZ. Uma ou outra frase pré-gravada a remeter para o BLITZ (leia ali, veja acolá, etc) e nada mais, com música a metro desprovida de qualquer tipo de apresentação ou enquadramento.

Havia uma complementaridade entre a informação musical publicada no BLITZ e a música transmitida na Rádio. Fundamentalmente nos programas de autor.
Com a implementação dos formatos de divulgação em playlist e o subsequente desaparecimento quase total dos programas de autor, essa simbiose evaporou-se.
De lembrar que estamos a falar dos tempos em que não havia a expansão que há hoje da Internet nem os múltiplos canais e formas de se chegar à música nas dimensões astronómicas, quantitativas e qualitativas que existem hoje.

Uma das coisas que mais gostava no jornal BLITZ era as listas de novidades discográficas editadas pela discoteca Motor (loja de discos, mais tarde rebaptizada de Bimotor).
Muitos discos foram assim comprados (primeiro em Vinil, depois em CD) na loja situada na Praça dos Restauradores em Lisboa.
Outras das coisas deliciosas do BLITZ era o pregão da semana.
Houve um que nunca mais esqueci, e que dizia o seguinte:

Jesus Cristo era português. Tinha mais de trinta anos, estava desempregado e vivia na casa dos pais

Blogue dedicado ao jornal BLITZ:
http://ovelhoblitz.blogspot.com/

A revista actual BLITZ:
http://blitz.aeiou.pt/

Nas imagens que se seguem: a primeira edição do BLITZ no dia 6 de Novembro de 1984; a revista BLITZ comemorativa dos 25 anos editada em Novembro de 2009 (revista nº 41) e, por fim, este que vos escreve, fotografado numa tarde de vento há vinte anos (Maio de 1991) na estação de Santa Apolónia em Lisboa, numa das muitas viagens de ida ou de regresso da cidade de Coimbra.
O BLITZ era uma companhia constante. Também o semanário/jornal de todos os espectáculos «SE7E», enquanto existiu.


BLITZ
1984-2009 
















































domingo, 2 de julho de 2006

Habilite-se
















O jornal semanal BLITZ (1984-2006) foi agora substituído pela revista mensal com o mesmo nome, nas bancas desde o passado dia 21 de Junho, também com renovado endereço na Internet. O nome, a marca BLITZ mantém-se, mas confesso que sinto ainda a falta de satisfazer o hábito de comprar, todas as terças-feiras, o jornal. Para além da música, o BLITZ (jornal) referiu-se, por muitas vezes, ao mundo da rádio em Portugal. Para uma publicação que privilegia o sentido auditivo, no nº1 da BLITZ, nem uma referência à Rádio. Mas ainda é só o início. Espero e anseio que o formato revista da BLITZ (mentalmente ainda digo O Blitz) encontre espaço para se ligar à rádio, apesar da música que por lá passa (na rádio) não merecer comentários de espécie alguma. No entanto, em Portugal ainda há mais Rádio para além da música de playlist e, no cada vez maior universo do podcast, a BLITZ pode encontrar vasta matéria informativa e de divulgação. Fica a sugestão e o desejo.

BLITZ
Nunca se ouviu uma revista assim!

Novo site: http://blitz.aeiou.pt

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

REC

"Revolução em curso" é o título de um trabalho jornalístico publicado esta terça-feira no semanário BLITZ. O fenómeno Podcast visto, entre outros, por autores de rádio.
Eis alguns extractos disponibilizados no sítio do BLITZ:

PODCAST
É a «palavra de 2005» para a Universidade de Oxford e já é considerado, por muitos, um formato tão importante como o blogue. PODCAST significa democratização e portabilidade do áudio, de um simples programa de rádio a uma emissão pirata nascida na garagem. A revitalização da rádio ou uma porta aberta a um futuro para além dela.
Textos: Luís Guerra
Pormenores no BLITZ 1108

Rádio Markl
PODCAST «Há Vida em Markl» é escutado religiosamente nas manhãs da Antena 3 mas também é um fenómeno na internet. O culpado é o Podcast do programa radiofónico, inquilino permanente do 1º lugar do top de Podcasts (nacionais e estrangeiros) no iTunes português. NUNO MARKL fala da vida.
Texto: Luís Guerra
Pormenores no BLITZ 1108

Também na mesma edição do BLITZ:

Febre da Memória
FEBRE DE SÁBADO DE MANHÃ
No Portugal de 1980, JÚLIO ISIDRO foi o mais influente impulsionador de nova música portuguesa. Pela sua mão, a rádio e a televisão fez e trouxe-nos estrelas. Em troca, tornou-se a personalidade mediática mais popular desse Portugal. Febre de Sábado de Manhã é comemorado em CD triplo e concerto com directo televisivo.
Texto: Jorge Manuel Lopes
Pormenores no BLITZ 1108

in BLITZ 1108 (24.Janeiro.2006)
http://www.blitz.clix.pt/index2.html


...e continua...

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

BLITZ 35 anos






































Edição especial para coleccionadores e todos aqueles que lamentam a descontinuidade da edição em papel 
BLITZ, edição iniciada no dia 6 de Novembro de 1984 em formato jornal semanal à terça-feira, até à transformação em revista mensal em Julho de 2006. Actualmente (desde Fevereiro de 2018) é mais um site sobre notícias do mundo da Música, entre milhares de milhões de outros no poço sem fundo que é Internet.
No entanto, existe esta diferenciação anual em papel com o balanço de mais um ano que termina. Há 30 anos, a última edição de 1989 do jornal BLITZ, tinha por capa destaque integral para o fim da primeira década de vida (já vai em quatro) da editora independente britânica 4AD.
Exactamente três décadas depois, a capa do/da BLITZ é dedicada a Nick Cave, antigo artista do firmamento 4AD, agora a solo e a propósito do álbum «Ghosteen», considerado pela revista do grupo Impresa como o melhor álbum do ano.
A publicação BLITZ, anteriormente dada a publicitar e divulgar programas de Rádio do éter nacional, encontra-se actualmente na Rádio SBSR com um programa semanal apresentado por Lara Marques Pereira.

BLITZ Rádio
SBSR
Sábado às 16:00
2ª feira às 22:00
Ouvir aqui

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

6 de Novembro de 1984































Há exactamente três décadas era publicado o primeiro número do semanário BLITZ.
Manuel Falcão foi o director fundador.
Em Julho de 2006 o jornal transformou-se em revista, que continua a ser publicada mensalmente.
Muita Rádio passou pelas páginas do BLITZ, com listas de temas musicais que eram transmitidos em emissões de autor, como por exemplo a Lista Rebelde do «Som da Frente» de António Sérgio, entre outros programas da Rádio Comercial, Renascença-FM e RFM. Também houve entrevistas a radialistas.
Actualmente, nem uma coisa nem outra.

















Tive vários amigos, colegas e conhecidos a trabalharem no – e para – o BLITZ. Dos que agora me lembro: António Pires, meu professor de Religião e Moral (alguns anos antes do BLITZ ser fundado), António Sérgio, Luís Pinheiro de Almeida, Carlos Didelet, Luís Mateus, Nuno Galopim, Cláudia Galhós, Rita Carmo, etc.
Já teve uma redacção maior. Hoje está reduzida ao mínimo.
Para celebrar a data está, no Cinema São Jorge em Lisboa, a exposição «Bandas-Sonoras» da fotógrafa Rita Carmo. Fotografias feitas para o BLITZ ao longo de vários anos.
Uma curiosidade em relação à primeira capa do BLITZ: dos artistas que constam, só os REM não se encontram em actividade (acabaram em 2011).

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

BLITZ 40 anos














Jornal semanal dedicado à Música, editado pela primeira vez no dia 6 de Novembro de 1984. 
Também dedicou muitas páginas à Rádio em Portugal. 
Esta noite a Antena3 realizou uma emissão especial das 20:00 às 23:00 sobre o aniversário do semanário BLITZ, que em 2006 se transformou em revista mensal. A emissão especial BLITZ 40 anos contou, entre outros, com a presença do director fundador Manuel Falcão, Pedro Gonçalves, um dos antigos directores e o actual director da publicação digital, Miguel Francisco Cadete. Também de destacar a presença da renomada fotógrafa Rita Carmo. 












Ouvir aqui

Dia 29 será publicada em papel uma revista comemorativa das quatro décadas do/da BLITZ. 














BLITZ na Rádio Crítica ao longo de vários anos aqui




quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Última edição em papel

BLITZ 
1984-2017 







































Começou por ser jornal semanal, publicado à terça-feira, no dia 6 de Novembro de 1984. Em Julho de 2006 transformou-se em revista mensal, até hoje. Em 2018 terá algumas edições especiais em papel, na forma de revista, mas a actualidade e entrevistas serão apenas no sítio na Internet. Ou seja, nem edição semanal nem mensal em suporte papel. Está a acontecer em Portugal (não só em Portugal) um tremendo equívoco em empurrar tudo para a Internet, esse poço sem fundo onde tudo se encontra e tudo se perde. Colocar publicações de leitura exclusivamente na Internet é misturar o que deveria ser diferenciado. Reduzir é desvalorizar e desvalorizar é fazer desaparecer.

BLITZ na Rádio Crítica:

REC (25.Janeiro.2006)
Habilite-se (02.Julho.2006)
Retratos da vida de um Lobo da Rádio (27.Novembro.2009)
BLITZ 25 anos (+2) (26.Abril.2011)
Hoje em Portugal (31.Outubro.2014)
BLITZ 30 anos (06.Novembro.2014)
BLITZ 31 anos (06.Novembro.2015)
O homem que caiu do céu (27.Janeiro.2016)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

BLITZ

Há 31 anos



























No dia 6 de Novembro de 1984 era publicado o primeiro número do jornal semanal de Música BLITZ. Foi sempre publicado à terça-feira, até à transformação em revista mensal, em Julho de 2006. 
Já nenhum dos fundadores permanece actualmente na publicação, outros já morreram. 

Tabela de singles mais vendidos em Portugal na semana antecedente à publicação da primeira edição do BLITZ:  















Houve muita gente da Rádio a trabalhar no BLITZ ao longo destes 31 anos e o assunto Rádio foi algumas vezes tema de página. Também houve estreita ligação de programas à publicação, nomeadamente com divulgação de tabelas de temas que tinham passagem em espaços da Rádio Comercial, Renascença FM e RFM. 


























Directores do(da) BLITZ desde a fundação até hoje:

Manuel Falcão
Rui Monteiro
Sónia Pereira
Pedro Gonçalves
Vítor Raínho
Miguel Francisco Cadete  

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Festa dos 40 anos


























Esta edição especial dedica uma página à Rádio, referindo programas de António Sérgio na Rádio Renascença e Rádio Comercial: «Rotação», «Rolls Rock» e «Som da Frente». 
António Sérgio, juntamente com Ana Cristina Ferrão, foi autor do suplemento «Manifesto» que fazia parte do BLITZ uma vez por mês. Também no jornal semanal BLITZ era publicada a Lista Rebelde do programa «Som da Frente». 
A festa do quadragésimo aniversário do BLITZ realiza-se esta quinta-feira à noite no Parque das Nações em Lisboa, no antigo Pavilhão Atlântico da Expo 98. Inclui actuações musicais ao vivo dos artistas nacionais Xutos & Pontapés, Capitão Fausto, Gisela João e Maro. 

Mais sobre o BLITZ na Rádio Crítica ao longo dos anos aqui

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Hoje em PORTUGAL

Publicada hoje edição comemorativa do trigésimo aniversário

























O primeiro exemplar semanal do jornal BLITZ chegou às bancas no dia 6 de Novembro de 1984.
Na imagem, o fundador e primeiro director do BLITZ, Manuel Falcão, com a primeira edição em papel nas mãos.
Desde 2006 que a publicação se transformou em revista mensal, encontrando-se actualmente também disponível em formato digital.
















A Rádio já esteve muito presente no BLITZ. Viviam-se os tempos em que eram publicadas listas de temas que passavam em programas de autor, como o «Som da Frente» de António Sérgio na Rádio Comercial, ou anúncios a programas, como por exemplo «Colar de Pérolas» do próprio Manuel Falcão, nos primeiros tempos da RFM, o outro canal da Renascença.
Actualmente a programação da Rádio não aparece em nenhuma publicação de distribuição nacional.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Retratos da vida de um Lobo da Rádio

Calou-se a Voz 
Em destaque na revista BLITZ [Dezembro 2009; publicada hoje], um notável trabalho de Rui Miguel Abreu, de seis páginas e com várias fotografias, sobre o mais importante e influente radialista português dos últimos 30 anos.

retrovisor; pags 32 a 37:























António Sérgio é o destaque do Retrovisor deste mês

Quatro décadas de rádio e a assinatura de programas que tiveram a capacidade de definir os tempos fizeram de ANTÓNIO SÉRGIO uma referência maior do panorama musical português. O homem do Som da Frente ou d' A Hora do Lobo desapareceu a 1 de Novembro, aos 59 anos. Rui Miguel Abreu falou com Ana Cristina Ferrão, mulher do radialista durante 30 anos, e juntos contam a história da vida do Mestre.

"Quando se abre o microfone, numa estação de rádio, não se tem, normalmente, ninguém pela frente - o auditório é invisível e isso é quase sempre ponto fulcral na hora de se tentar explicar a magia deste meio. Mas nem a invisibilidade contraria a certeza de que do outro lado há sempre uma multidão à escuta. Para António Sérgio, no entanto, bastava que uma só pessoa o escutasse para que aquilo que fazia valesse a pena. Cada pessoa que o ouviu ao longo das últimas décadas terá sentido pelo menos uma vez que Sérgio lhe falava ao ouvido, naquela voz grave e segura que revestia qualquer sugestão de uma improvável nobreza.

Ana Cristina Ferrão, sua mulher desde 1979, confirma esta ideia na hora de fazer o balanço de uma vida: 'Claro que ele tinha a noção de que estava a falar para muita gente, mas nunca ligou muito a isso. Penso que privilegiava mais a comunicação singular. Aliás, costumávamos brincar e dizer às vezes 'será que esta noite temos um ou dois ouvintes?'. E depois alguém telefonava a dizer que nos estava a ouvir e nós brincávamos: 'afinal já são três'. Eram muitos mais. Continuam a ser muitos mais.

Ler texto integral na revista BLITZ nº42 / Dezembro 2009.
+ editorial do Director Miguel Francisco Cadete e ilustração/caricatura de Rui Ricardo (pag. 4).

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O que eles dizem (27)

Ninguém sabe a razão do crescente ruído da nossa cultura.
Uma sinfonia de Haydn é menos barulhenta do que uma de Beethoven.
Beethoven tem muito menos decibéis do que Wagner, enquanto Stravinsky é dez vezes mais alto do que uma sinfonia de Haydn. Ninguém entende porquê. Hoje em dia há barulho por todo o lado. Talvez seja uma forma de afastar os nossos medos.
Talvez. Não sei.


Wim Kayzer

In: «Of Beautiful & Consolation»
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Mal dizer
Tanto barulho

Portugal é um país barulhento. Sempre foi. Éramos (e somos) conhecidos por falar alto, seja em que lugar for (num restaurante, na fila do aeroporto para apanhar um avião, numa conversa no meio da rua, no trabalho). A chegada dos telemóveis à nossa vida pôs-nos a falar ainda mais alto nos restaurantes, nos aeroportos, no meio da rua, no trabalho. A esta barulheira há que juntar outras: os toques dos telemóveis das chamadas e das mensagens que recebemos, que são sempre muito altos, sobretudo quando se está em espaços públicos (é a única garantia de que vamos ouvi-los), o som dos motores dos carros a acelerarem sempre que vemos um bocadinho de rua livre à nossa frente ou do pára-arranca das filas nas horas de ponta e nas outras todas (há sempre filas). Como se não fosse suficiente, é cada vez maior o barulho das buzinas dos carros. Há cada vez mais buzinadelas. Por tudo e por nada. Se um cão se atravessa à frente do nosso carro, buzinamos, se há um acidente, buzinamos todo o tempo que leva a mudar os automóveis que bateram para um lugar que não atrapalhe o trânsito, se vemos um amigo no outro lado da rua, buzinamos. E já nem compras podemos fazer sem música de fundo.
É barulho a mais para tão pouca gente. Seria bom se nos tornássemos menos ruidosos.


Ana Gomes Ferreira
In: revista «PÚBLICA»
Domingo, 21 de Outubro 2007

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foto: Rita Carmo 


António Sérgio
Bicho da Rádio

É a voz de uma geração que
aprendeu a ouvir música
com a rádio.
No final do Verão, foi dispensado
pela Rádio Comercial.
Lia Pereira

Quais foram para si os anos áureos da rádio em Portugal?
Os anos dos programas de autor na antiga Rádio Comercial, ainda pertencente à RDP.
A rádio era ouvida com uma clubite muito especial. Uma das funções da rádio é espalhar magia: nós não temos cara, temos vozes, e isso ajuda a incendiar o imaginário dos ouvintes. E esta rádio de hoje, coitada, não incendeia absolutamente nada. Põe o ouvinte a um canto e diz-lhe: ouve isto, que não te maça, que não te assusta, não te provoca, não te faz comprar discos. Outra verdade: a rádio de hoje não te faz comprar discos – as rádios de autor conseguiam fazer as pessoas ter paixão por comprar música.


Poderá haver uma rádio desse tipo, na era da Internet?
Quando o BLITZ ainda era jornal, dei uma entrevista onde dizia que não havia hipótese nenhuma de regresso a uma rádio de autor. Com aquela perspectiva de canal cheio, a jorrar talento por todo o lado, como foi o caso da década de 80. A XFM voltou a pegar naquilo que eu achava que valia a pena: trabalhar para uma imensa minoria, levar as pessoas a interessarem-se por artistas que correm o risco de compor e não copiar.
Já passaram [três] anos e hoje não respondia como respondi – hoje acredito que é capaz de haver uma hipótese de os programas de autor voltarem a despontar e a singrar.
(…)
Apesar de ser um bocadinho tarde para mim, por uma questão de idade, é provável que surjam, em rádios não nacionais e universitárias, [projectos] para estimular as pessoas e não estupidificá-las.

In: BLITZ /Novembro 2007

sábado, 26 de janeiro de 2013

Momento Azul

























O fundador dos saudosos American Music Club estará de regresso a solo, e em solo nacional, no próximo dia 8 de Fevereiro.
Na edição da revista BLITZ publicada esta sexta-feira (ontem), em entrevista à jornalista Lia Pereira, Mark Eitzel afirmou o seguinte acerca do programa «Vidro Azul» de Ricardo Mariano:

























Mark Eitzel
In: BLITZ, 25 de Janeiro 2013

sábado, 1 de agosto de 2009

João Paulo Patrício A.K.A. «Single Again»




















Sem pertencer a nenhuma das já numerosas redes sociais que proliferam na Internet, lá vou descobrindo pessoas que algures na minha vida e história no mundo da Rádio se cruzaram nos mesmos caminhos.
Confesso que já não sabia nada de João Patrício. A última notícia que dele tive foi através da revista ‘BLITZ’, onde João Patrício apareceu na página de coleccionador de discos (revista ‘BLITZ’ nº2, Agosto de 2006; página 39 «IN VINIL VERITAS»).
De lá até agora redescobri João através de um texto no blogue «Raízes e Antenas» do jornalista e ex-radialista António Pires (Autor do livro «As Lendas do Quarteto 1111»). Curiosidade: António Pires foi meu antigo professor de Religião e Moral em 1980/81.

Em Janeiro/Fevereiro de 1996, João e eu partilhámos a feitura de um mini trabalho para a TSF sobre a actuação do então novel projecto musical nacional chamado Danças Ocultas que, na altura, se preparava para actuar no CCB, após a então recente edição do disco de estreia.
João Patrício foi radialista na Rádio F (Guarda) RUC-Rádio Universidade de Coimbra, TSF-Rádio Jornal e recentemente colaborava na RDP-Antena2.
João Patrício estará por aí ao longo do Verão a distribuir música em performances algures pelo país, em espaços de festas (alguns ao ar livre), actuações em centros históricos, locais de diversão nocturna, etc.
Se o virem por aí cumprimentem-no. Para além de outros talentos, é um homem da Rádio.

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Single Again SITE
Single Again NOTÍCIAS

segunda-feira, 4 de abril de 2005











A VOZ DO LOBO
Há quantos anos ouvimos a voz deste lobo solitário? Durante quantos mais teremos o privilégio de a ouvir?
No primeiro mês deste ano, António Sérgio completou 55 anos de idade, e o programa de que é autor na Best Rock FM, dedicou-se à celebração da data. A emissão, que contou com depoimentos de várias pessoas que se foram cruzando na vida pessoal e profissional de António Sérgio, foi uma homenagem - em vida! - a uma das personagens mais marcantes do panorama radiofónico português dos últimos trinta anos.
Ouço-o há, pelo menos, vinte e cinco anos, dava eu os meus primeiros "passos" enquanto ouvinte. Já António Sérgio estava no projecto pioneiro que se iria transformar na saudosa Rádio Comercial, a então RDP - Canal 4, já depois de bons tempos passados na Rádio Renascença com o mítico programa "Rotação" (que nunca cheguei a captar por motivos de escassa idade!). "Rolls Rock" é então o primeiro programa de António Sérgio na RDP-Canal 4 / Rádio Comercial e o primeiro em que o escutei. Sei que era um espaço de divulgação musical, música essa que não ouvia em mais lado nenhum, tendo em conta que o que mais (ainda) se ouvia por esses tempos eram as emissões em Onda Média.
Não me lembro bem do formato do programa (era ainda muito miúdo), mas o que se destacou logo - e eu senti-o muito - foi aquela voz. Aquele timbre.
Absolutamente distinto dos demais. Uma voz funda, muito grave, estranha até. Nunca mais a perdi de ouvido. Já ouvi pessoas dizerem "Ah, não percebo lá muito bem o que ele diz". Eu digo-lhes: "Podem não perceber (sempre) o que ele diz, mas sempre podem perceber o que ele quer dizer".
Seguiu-se o advento em força do FM em Portugal e entrava-se no período dourado da rádio de autor.
"Rolls Rock"; "Som da Frente"; "Rei Lagarto e Outras Histórias"; "Lança Chamas" e "O Grande Delta" são títulos memoráveis de António Sérgio na Rádio.
Já em 1993, após o definhar e a consequente privatização da "velha" Comercial, António Sérgio integra o elenco (de luxo) fundador da XFM. A aventura terminou em 97, altura em que António Sérgio regressa à comercial para fazer "A Hora Do Lobo" (3ª a sábado/ 00:00-02:00).
Em 2003, com a reformulação das rádios do grupo Media Capital, A Hora Do Lobo abandona a cobertura nacional da Rádio Comercial para encontrar "toca" na então recém criada Best Rock FM, com uma cobertura local reduzida às cidades de Lisboa, Porto, Coimbra e Santarém e também através da Internet no portal IOL.
Merecedora de outros quadrantes, a "voz do lobo" lá vai soando na noite para todos aqueles que conseguem captar a sua sintonia ou têm acesso à internet. A Hora Do Lobo (Best Rock FM / 3ª a Sábado / 00:00-02:00) dedica-se ao pensar, ao ser alternativo. Num tempo de massificada formatação e segmentação na rádio, o programa e a atitude de António Sérgio é um produto cujo conceito é, por motivos conjunturais, contra corrente.
A Hora Do Lobo não se "limita" a divulgar novas edições das chamadas franjas da industria Pop-Rock. O espaço está recheado de rubricas fixas: "Santuário"; "Lista Rebelde"; "Viagens Downtown"; "Debaixo da Língua"; "Tempo de Descobertas"; "Fadas, Unicórnios e Cyborgs" e "A Fala da Tribo"(onde há um ou mais convidados em estúdio, por vezes com interessantíssimas sessões musicais ao vivo nas noites de 6ª feira). Estas duas últimas rubricas contam com a colaboração/autoria preciosa de Ana Cristina Ferrão. Seria exaustivo esmiuçar cada uma destas rubricas, pelo que o melhor é mesmo ouvi-las. Aliás, recomendam-se vivamente.
Em declarações ao semanário BLITZ em Março de 2004, António Sérgio questionado pelo jornalista Jorge Mourinha dizia que « Estar no ar um determinado período de horas por dia é uma necessidade absoluta, apesar de não ver ninguém, de não saber se me estão a ouvir do outro lado. Há aqui algo de catártico...»; «Não me sinto dinossáurio; sinto-me um bocado mais velho e, sim, francamente solitário. Na época dos realizadores, conversávamos muito entre nós, trocávamos muitas impressões».
A época dos realizadores a que António Sérgio se refere é, essencialmente, a Rádio Comercial, principalmente na primeira metade dos anos 80, em que essa Doce mania de rádio destilava talento e conteúdos originais de extremo interesse, obtendo considerável impacto junto dos ouvintes.
Sou do tempo em que se faltava às aulas para ficar em casa a ouvir rádio. Cheguei a "fugir" da escola, correndo para casa para apanhar o início dos programas.
Doce mania de rádio... é de lá que vem o uivo do lobo. O mais admirável no estoicismo e na atitude de "A Hora Do Lobo" é o conservar daquele tipo de programas repletos de pontos de interesse, que se ligam todos uns aos outros. Bem diferente do que aparece hoje no ar, em que as peças do puzzle sonoro não encaixam entre si.
O Mestre, como carinhosamente é chamado, é o último "sobrevivente" em actividade - e que nunca suspendeu funções - desse tempo de autores de radiodifusão da antiga Comercial.
Como ele próprio afirma: «Sou o último dos moicanos!».
Mas o Mestre deixa legado. Para além dos muitos fãs e admiradores (eu incluído) e, para além de lamentáveis plágios e imitações, ainda há quem queira seguir as sábias pegadas deste lobo solitário. Existem já alguns nomes na praça: Miguel Quintão, Nuno Calado, António Freitas, e mais haveria se o actual mercado rádio não asfixiasse o romper de novos talentos. As novas gerações estão a perder referências.
Citando ainda António Sérgio no semanário BLITZ há pouco mais de um ano. Então e sobre o futuro? «Hoje em dia, uma pessoa vai tendo a noção que não vai fazer rádio eternamente, se bem que se conseguir ser como o John Peel (entretanto falecido já depois destas declarações), ainda tenho uma boa década ou mais de rádio por fazer...».
Mas hoje em dia, o "futuro" ou a "morte", podem muito bem assumir outras formas. Rodeado de "playlists" por todos os lados, a rádio de autor está a ser dizimada quase por completo. O futuro que António fala, pode aparecer em fato cinzento, envergado por alguém menos escrupuloso, isento de sensibilidade humana e rádiofónica e comunicar, talvez por e-mail, talvez por SMS ou MSN e deixar escrito em caracteres trincados: "a partir d'amanhã o sr. deixa de fazer parte do projecto"; ou "o sr. no dia tal escusa de aparecer para fazer o seu programa".
Não queremos que António Sérgio seja o "John Peel português", porque comparações destas podem, no mínimo, ser injustas. Queremos que António Sérgio continue a ser "O António português".

Take care 
Stay tuned! 

(Há uma "extensão" escrita da "Hora Do Lobo" no caderno indígena do semanário Independente às sextas feiras).

segunda-feira, 25 de abril de 2005












A NOVA SENHORA 

Aquando o 30º aniversário do 25 de Abril, em 2004, levantou-se – com toda a razão de ser – uma polémica em relação à tentativa de retirada da letra "R" na palavra "Revolução" em troca da palavra "Evolução". Passados 31 anos, Revolução sim, Evolução talvez. Depende das áreas que queiramos analisar. Na rádio, Revolução não, Evolução ainda menos.
Até há pouco tempo, ainda era possível ouvir na rádio os cantautores de intervenção que por via da história ficaram ligados à revolução. Quase sempre acontecia no dia 25 de Abril (e até mesmo no 1º de Maio). Era previsível que assim fosse, pelo menos nesse dia, ouvir-se com toda a naturalidade canções de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Luís Cília, Manuel Freire, etc. Não constituía surpresa que nesse dia passassem na rádio "Grândola Vila Morena", "Queixa das Almas Jovens Censuradas", "Trova do Vento Que Passa", "Pedra Filosofal", entre muitas outras canções.
Era previsível, era esperado, não era surpresa, mas era necessário. Chegados às três décadas do dia que mudou Portugal, já é quase impossível ouvir aquelas canções que ficaram ligadas à revolução. Não era previsível, nem esperado. Foi uma surpresa e não era necessário.
O que fez mudar – por um dia no ano – o saudavelmente previsível e o naturalmente necessário? A "evolução"? A mudança de mentalidades? Nada disso. Apenas a formatação das rádios e a ditadura desse instrumento (?!) chamado "play-list". A "lista" corta a direito e não contempla a diferença neste dia diferente. Faz tábua rasa da história e da memória. Como formato importado que é, não se adapta às realidades de cada contexto especifico em que é implementada. É um acto sofisticado de censura silenciosa, camuflada.
Pouco ou nada visível, mas que existe e persiste em surdina. Chamam-lhe "estratégia"; marketing; "leis do mercado"; "livre comércio"; adopção de "formatos de sucesso"; etc... eu chamo-lhe censura. Uma forma nova de censura, difusa, inconcreta, sem cara nem corpo físico, logo diferente das formas de censura clássicas que ficaram conhecidas pelas piores razões em Portugal durante 48 anos.
Um radialista que tenha um disco novo (e, ao contrário do que as rádios "mostram", há discos novos e bons todos os dias!) e o queira partilhar com os ouvintes, chega à rádio onde trabalha e não o pode fazer. Está literalmente impedido de fazê-lo. Nem um só tema! Não pode partilhar com quem deve partilhar uma descoberta, uma nova edição, uma reedição ou uma notícia ou curiosidade que se envolva no contexto musical. Se o fizer sofrerá consequências disciplinares. O que é isto senão censura?
Neste dia 25 de Abril, em que rádios nacionais se pôde escutar, por exemplo, a voz de José Afonso? Independentemente de José Afonso ter sido um dos mais destacados autores da chamada cantiga de intervenção e de "Grândola Vila Morena" ter sido magistralmente utilizada como uma das senhas da revolução em Abril de 74, estamos diante de um outro problema bem grave. José Afonso deveria fazer parte dos temas musicais emitidos em qualquer rádio que se preze. Não só no dia da liberdade, mas na liberdade de todos os dias ao longo do ano. Por critérios unicamente ligados com a qualidade. Quando estamos a falar de José Afonso, não estamos a falar de um qualquer artista que obteve êxito nos tops de vendas, ou que teve um hit, ou até que tenha feito um álbum bom. Quando falamos de José Afonso falamos de um dos melhores músicos, compositores e intérpretes de todos os tempos em Portugal.
Falamos do autor (pelo menos para mim) do melhor disco de música portuguesa alguma vez feito: o álbum "Cantigas Do Maio". Toda a obra de José Afonso ultrapassa em muito todas as conotações políticas. É um esteta eclético, intemporal, moderno, único, lusófono, universal.
No entanto, ele está actualmente proibido na rádio. Não por decreto lei, não por imposição de regime, não por ser branco ou por ser português. Mas censurado, sim. O que para o caso vai dar no mesmo. Ele e milhares, milhões de outros. José Mário Branco, por exemplo, editou em 2004 (30 anos depois do 25 de Abril) um novo e magnífico trabalho. Ouviu-se com regularidade na rádio? Não! E hoje, alguém o consegue "captar" na rádio? Também não! Há também gente mais nova a fazer coisas interessantes na música em Portugal, mas não há divulgação na rádio para eles. Alla Polacca; Novembro; Melo D; Sloppy Joe; Les Éléphants Terribles; Old Jerusalem; Los Tomatos; Cool Hipnoise; etc. Onde os podemos ouvir? Não na rádio, salvo sempre as raras (cada vez mais raras) excepções.
Que rádio temos nós que não "arranja" espaço para os melhores? Até os Beatles (mundialmente reconhecidos como a melhor banda de sempre) estão fora das "play-lists". Em detrimento de outros infinitamente menos valiosos. E os Beatles nunca deixaram de ser notícia desde 1962!
Os cantautores de intervenção eram proibidos porque as mensagens que transmitiam faziam pensar. Abalavam as consciências adormecidas pelo desconhecimento e acossadas pelo medo.
Eram proibidos porque despertavam o pensamento para o espírito crítico, para a lucidez sobre o que se estava a passar política e socialmente no país. Eram proibidos porque as letras das suas canções mostravam o caminho para sair da lama que alimentava os algozes, porque faziam reflectir no que não poderia ser ignorado.
Eram proibidos porque levantavam a cortina de ferro que fazia de Portugal um campo de concentração mental.
E hoje, são proibidos porquê? Pelas mesmas razões? Os "play-listers" sempre podem dizer que se quiserem colocar José Afonso na lista de "passáveis" que o poderão fazer sem restrição nenhuma. A verdade é que não o fazem. Podem alegar muitas coisas, como por exemplo dizer que José Afonso "é antigo, já não se usa", ou que "é antiquado", que "não se contextualiza no perfil da estação", que "não encaixa no resto da lista", que "não é dançável", que "as canções são velhas, fora de moda", etc, etc...
Mas estes "play-listers" são os mesmos que repetem até ao inaudível o hit-single, que foi sucesso de plástico há vinte e muitos anos e que rodou até riscar-se nas pistas de carrinhos de choque numa qualquer feira popular. São os mesmos que repetem ad eternum o slow rock-fm vão-de-escada. Nos tempos da ditadura, nos tempos da "Velha Senhora", estavam proibidos na rádio (e fora da rádio) uma série de discos e artistas – a lista negra – e vivia-se no bafiento nacional cançonetismo (que também conseguiu trazer algumas - poucas - coisas boas, como a história se encarregou de comprovar).
Imperava a política sinistra dos três FFF = Fátima, Fado e Futebol, que eram o ópio do povo. Em 2005 só o futebol se mantém inalterado (na verdade, aumentado para quantidades industriais).
Mas tirando os proscritos, podiam-se passar na rádio milhares, milhões de outros. Assim os discos chegassem cá com a rapidez e a facilidade com que chegam hoje. É preciso lembrar que Portugal estava fora do mundo em tudo! Nos actuais tempos de "liberdade", nestes tempos da "Nova Senhora", só podem ser emitidos na rádio uns quantos discos e artistas previamente seleccionados (eleitos?) e com isto proíbem-se todos os outros, que são milhares, milhões deles. Maneira mais cavalheiresca de censurar autores musicais em tempo de democracia ainda ninguém inventou.
O tempo presente na rádio de âmbito nacional em Portugal mais parece o tempo passado do dia 24 de Abril de 1974. Com as óbvias adaptações temporais e estéticas.
Dá a impressão (assustadora, diga-se) que a rádio está a ser feita não para quem devia - OS OUVINTES - mas para uma entidade etérea, digna da obra prima de George Orwell. Foi (para) isto que Abril abriu?
Algo ou alguém está a lucrar – e muito (?!) – com isto, mas não são os ouvintes nem são os profissionais de rádio.
Repare-se no estado a que as coisas chegaram. Já nem sequer se exige que ouçamos José Afonso com a regularidade merecida na rádio ao longo do ano, mas que ao menos se ouça uma vez por ano no dia 25 de Abril. Mas nem isso acontece. O que diria o próprio Zeca de tudo isto se pudesse? Ao certo, ninguém pode saber, mas todos podemos suspeitar o que pensaria sem corrermos o risco de resvalar para a valeta da especulação.
Na altura, tal como hoje, a música emitida na rádio (relembro: com honrosas excepções) não serve a missão de serviço público, não serve o interesse do público, não serve para satisfazer os gostos do público nem serve a música portuguesa. Serve apenas e só para controlar o público. 


P.S. I: Há poucos meses, Jorge Palma, entrevistado por Ana Sousa Dias no programa "Por Outro Lado" na 2 (RTP), mostrou-se bastante indignado com a rádio em Portugal no que diz respeito à divulgação de música portuguesa (Jorge Palma referiu-se à rádio em geral, excluindo a TSF, dizendo que "é uma rádio de notícias"...) E ele não é um dos mais prejudicados. Aqui e acolá, ainda se vão ouvindo alguns (poucos) dos belos temas do autor de "A Canção de Lisboa". Também há os mais favorecidos, que são sempre os mesmos.
A recentemente criada associação "Venham Mais Cinco" (curiosa esta utilização de um título histórico da autoria de José Afonso...) destina-se, dizem os seus fundadores, à defesa da música portuguesa. Da música portuguesa ou da música deles? Defende-se a música portuguesa criando uma associação em prol disso?
Segue-se uma citação do radialista António Sérgio, quanto mais não seja porque eu não o diria melhor: «nunca fui apologista dessas manobras dos "coitadinhos dos músicos portugueses" – uma série de gente que não consegue parir uma canção há mais de 30 anos e quer que ela rode incessantemente nas rádios para viverem à custa daquilo nas quintas onde estão estabelecidos? Artisticamente, penso que estamos a precisar de um novo porta-estandarte». 

António Sérgio (BLITZ/02/Março/2004). 



P.S. II: Eis alguns dos melhores trabalhos discográficos da música portuguesa na segunda metade do século XX.
A opinião é estritamente pessoal, e, tirando o álbum "Cantigas do Maio" de José Afonso – que para mim é o melhor disco de sempre da música portuguesa – a ordem é perfeitamente arbitrária. São apenas 10. Podiam ser 31.

José Afonso – Cantigas do Maio
Fausto – Por Este Rio Acima
Carlos Paredes – Guitarra Portuguesa
José Mário Branco – Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades
Amália Rodrigues – Busto
Sérgio Godinho – Pré-Histórias
Carlos do Carmo – Um Homem Na Cidade
Jorge Palma - Só
Sétima Legião – A Um Deus Desconhecido
GNR – Psicopátria

A luta dos povos contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento. 

Milan Kundera

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O que eles dizem (01) 

Carlos Tê
EXPRESSO, suplemento Guia, página 30: 

«Os Dias Da Rádio»

«(...) É depois de definido o seu público-alvo que uma emissora elabora a "play-list", esse hambúrguer radiofónico destinado a impedir que o radialista se disperse pelo labirinto do seu próprio gosto. Daí hoje já não haver autores de programas de rádio, mas sim amanuenses que accionam o "enter" do programa do computador. Por isso a "play-list" não é uma emanação diabólica do mercado, mas uma ferramenta que fideliza o "target" consumidor e o agrilhoa a uma irresistível cadeia de canções ao fim da qual o espera um "jingle" a um plano de poupança. Poder-se-ia dizer que é uma variante maciça dessa entidade que ganhou espessura artística no século passado – o "disc-jockey". É ela que leva os promotores de markting das editoras a andar
com os discos dos seus artistas no bolso a mendigar um lugar na lista».

Fonte: Jornalismo Porto Rádio

NOTA: O próximo texto neste blogue será sobre o actual trabalho na RDP do radialista Álvaro Costa. Como aperitivo, e no seguimento dos textos de hoje, eis apenas uma curta citação sobre o que Álvaro Costa pensa da rádio actual: «Está tudo tão computorizado que, se o mundo acabasse hoje, parte das rádios portuguesas só o dizia amanhã...»

Álvaro Costa
(BLITZ/11/Janeiro/2005) 

E acrescento eu: ... e muitas outras nunca o diriam, pois não está lá ninguém dentro para o fazer. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

BLITZ 40 +1























Edição especial que inclui uma extensa entrevista a Júlio Isidro 
Fala-se de Rádio numa boa parte da entrevista, principalmente sobre o programa «Febre de Sábado de Manhã», que Júlio Isidro realizou na antiga Rádio Comercial (no tempo em que a estação pertencia à RDP) na primeira metade dos anos 80. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

40 anos de Rock português com muita Rádio na algibeira


















Em rigor, não foi em 1979 ou 1980 que nasceu o Rock português. Nos anos 60 já havia artistas nacionais a fazerem Rock, cantado em inglês e português. A grande diferença está no contexto político-social das épocas

O jornalista Rui Miguel Abreu publicou um artigo sobre as quatro décadas do chamado 'Boom' do Rock português e refere a importância que a Rádio teve para que tal tivesse acontecido.

BLITZ
Ler artigo aqui

Quatro décadas que não seriam o que foram sem a acção decisiva da Rádio 
Houve aqui uma conjugação perfeita de desenvolvimento das duas partes. Nem o chamado 'Boom' do Rock Português teria sido o que foi sem divulgação diária na Rádio, nem a Rádio teria o impacto que teve sem a música que provinha dos criadores desse período fervente.
A Rádio teve um papel absolutamente decisivo no rápido desenvolvimento das duas partes através de numerosos programas como «Meia de Rock» de Rui Pego no FM da Rádio Renascença, mas principalmente no FM-Estéro da Rádio Comercial, em programas como «Rock em Stock», de Luís Filipe Barros, «Som da Frente» de António Sérgio (que foi o produtor do primeiro disco da banda), «O Vapor», de José La Féria e «Discoteca» de Adelino Gonçalves, entre muitos outros.
A Rádio Comercial, que no início da década de 80 era a estação de radiodifusão mais moderna, diversificada e avançada do país, também teve na programação de Onda Média um protagonismo exuberante, fundamentalmente no programa «Febre de Sábado de Manhã» de Júlio Isidro.
Na TV eram os programas «O Passeio dos Alegres» de Júlio Isidro, nas longas tardes de Domingo na RTP1 e o magazine semanal «Viva a Música», de Jaime Fernandes e Jorge Pego, também ao fim-de-semana na RTP, a única Televisão em Portugal na altura. 

sábado, 21 de junho de 2025

Adelino Gonçalves

1959-2025 





































Fotografia Velho BLITZ 


Radialista inovador, moderno, vanguardista. Um dos nomes fundamentais da Rádio Comercial na primeira metade dos anos 80, onde assinou «Discoteca», um programa para a história da Rádio portuguesa. Os primeiros anos da primeira década completa vivida em liberdade na jovem Democracia. 
Adelino Gonçalves, juntamente com outros profissionais de Rádio (José La Féria, Rui Morrison, António Sérgio, Luís Filipe Barros, Jaime Fernandes, João David Nunes, Pedro Castelo, Júlio Isidro, Maria José Mauperrin, Aníbal Cabrita, etc.) trouxe luz, cor e movimento à recém saída do país da longa noite escura em que esteve mergulhado durante quase meio-século. Tudo era novidade estimulante a partir do início do programa, em 1981 através de uma voz inconfundível, clássica voz de FM. 
O espaço de 2ª a 6ª feira, das 13:00 às 15:00, tinha especial enfoque na música negra mais dançante, acompanhada por muito mais. Foi aqui, por exemplo, que se ouviu pela primeira vez o tema “Drive” dos Cars ou “Nightshift” dos Commodores, em homenagem ao então assassinado Marvin Gaye, morto pelo seu próprio pai no dia 1 Abril de 1984. 
Também semanalmente era divulgada a tabela Top musical da revista norte-americana Billboard, levando-nos a conhecer as principais novidades discográficas que de outra forma, ou muito dificilmente, chegariam a este lado do oceano. 
A Pop nas edições mais recentes da altura conheceram ampla divulgação na «Discoteca» no início do Verão do ano de 1984 com, por exemplo, os temas "Wake Me Up Before You Go-Go" dos Wham, "I Won’t Let The Sun Go Down On Me" de Nick Kershaw e, entre outros mais, "You Spin Me Round (Like A Record)" dos Dead Or Alive quando atingiu a primeira posição do Top no Reino Unido na Primavera do ano seguinte, ou ainda no Outono de 1984 – os depois muito badalados – "I Feel For You" de Chaka Kahn e "Solid" (as a rock) do casal Ashford & Simpson. 
O Rock igualmente não ficava de fora e o álbum «Born In The USA» de Bruce Springsteen com a E Street Band figurou nas escolhas regulares desde a publicação do disco, em Junho de 1984, até ao sétimo 'single' "My Hometown", em finais de 1985. 


Adelino Gonçalves na «Rádio Crítica»: 

Paradeiros (29.Março.2006) 
A Doce Mania de Rádio (07.Maio.2006) 
Rádio Nostalgia (03.Junho.2011) 
Discoteca (17.Março.2014) 
Discoteca / Maio 1985 (22.Maio.2015) 
Hoje na RADAR (04.Julho.2016) 
Discoteca / Julho 1984 (07.Julho.2016) 
Rádio Comercial 1984 (04.Novembro.2020) 

Depois da Rádio Comercial, Adelino Gonçalves passou pela NRJ-Rádio Energia e Rádio Marginal, tendo também sido voz de estação da Rádio Capital e Rádio Estádio, entre outros trabalhos radiofónicos, narrativos e publicitários. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Falta um mês

O meu trabalho sempre foi medir a distância entre a realidade e o sonho americano – o quão distante está uma coisa da outra em determinado momento




















E-Street Band em 2007 (da esquerda para a direita): Danny Federici [teclista, falecido em 2008]; Max Weinberg (baterista); Nils Lofgren (guitarrista); Roy Bittan (teclista); Clarence Clemons [saxofonista, falecido em 2011]; Bruce Springsteen (voz e guitarra); Patti Scialfa (guitarra acústica); Steve Van Zandt (guitarrista); Garry Tallent (baixista).

É grande a ligação da obra de Bruce Springsteen ao mundo da Rádio.
São várias as composições do Boss que se referem às ondas hertzianas. Para além do relativamente recente tema "Radio Nowhere" (2007), há duas canções que têm ligação directa à Rádio: "Save My Love", editado em 2010, mas gravado em 1978 aquando das sessões do álbum «Darkness of the Edge of Town», e "Bobby Jean", do famosíssimo «Born In The USA» (1984).

Bruce Springsteen & The E-Street Band - "Save My Love" (1978)
[Edição em 2010]:



Now there’s something coming through the air
That softly reminds me
A voice is coming through
So keep me in your heart tonight
So turn up your radio and darling dial me in close
We’re riding on the airwaves
Just let the music take us
And carry us home
There’s a prayer coming through the air
And it’s shot straight through my heart
Tearing open the evening sky and tearing me apart
Now I’ll ride that signal down the line
I’m home again with you
So turn up your radio
And I’ll save my love for you
Turn up your radio and I’ll save my love for you

Bruce Springsteen & The E-Street Band - "Bobby Jean" (1984)
[Ao vivo em Hyde Park, Inglaterra, em 2009]:



In some motel room therell be a radio playing
And you'll hear me sing this song
Well if you do you'll know Im thinking of you and all the miles in between
And Im just calling one last time not to change your mind
But just to say I miss you baby, good luck goodbye, bobby jean

O que eles dizem (88):

Eu só disse: "quero tocar na tua banda!". Tocámos "Spirit of The Night", olhámos um para o outro e não foi preciso dizer mais nada. Soubemos logo que éramos aquilo que faltava na vida um do outro. No fundo ele não passava de um miúdo escanzelado. Mas era um visionário e queria seguir o seu sonho. A partir daí, eu passei a fazer parte da história.

Clarence Clemons


Conheci o Clarence quando eu tinha 22 anos – é a idade do meu filho. Olho para o meu filho e ele ainda é uma criança... Aos 22 anos és um puto! Acho que o Clarence teria uns 30 na altura, portanto ele remonta ao início da minha vida adulta.
Tivemos uma relação que foi, diria, essencial desde o início. Não passava pelo que dizíamos um ao outro, mas sim pelo que acontecia quando estávamos juntos. Algo acontecia que fazia disparar a imaginação das pessoas, a minha própria imaginação e os meus sonhos.
Fez-me querer escrever canções para aquele saxofone.
Perder o Clarence foi como perder algo elementar, como a chuva ou o ar.
Mas faz parte da vida. A corrente da vida afecta até o mundo de sonho da música popular; não há fuga possível.

Bruce Springsteen
In: «BLITZ»
Abril 2012























Desde o início da carreira que Springsteen tem ocupado as rádios um pouco por todo o mundo.
Em Portugal tem conhecido presença assídua, através de canções que percorrem várias etapas e diferentes facetas da sua já longa carreira de quatro décadas.
No entanto, os tempos primordiais estão totalmente votados ao esquecimento. O que mais se escuta na Rádio em Portugal são temas muito conhecidos, de grande sucesso e de enorme projecção comercial.
Houve um tempo em que não foi assim. Mesmo depois do estoiro à escala mundial de «Born in the USA» em 1984 – que colocou o Boss na dimensão estelar de Michael Jackson e Madonna – houve um período, de certa forma curto, em que canções dos aos 70 e da primeira metade da década e 80 tinham passagem na Rádio. Para tal facto contribuiu de forma decisiva a edição de uma caixa de cinco discos em vinil (3 CD's) da colectânea «Bruce Springsteen & The E-Street Band Live 1975-1985», editada em Outubro de 1986, a partir da qual muita da obra anterior do autor de «Born to Run» ganhou uma visibilidade algo tardia para a maioria dos ouvintes portugueses, mas absolutamente necessária para uma melhor compreensão do percurso de Springsteen com a E-Street Band.
Nada melhor que uma maratona de registos ao vivo para provocar um impacto junto das audiências. Animal de palco por excelência, a colectânea «Bruce Springsteen & The E-Street Band Live 1975-1985» mostrou todo o poderio comunicacional deste contador de estórias da América contemporânea, herói e representante das classes trabalhadoras. O primeiro e mais legítimo Rei do Rock depois de Elvis Presley. São absolutamente imperdíveis as introduções de Bruce, por vezes muito longas, a alguns dos mais emblemáticos temas, como por exemplo "The River".
A Rádio não passou ao lado de tamanho manancial sonoro e dedicou amplo espaço a esta edição histórica, apontada por grande parte da crítica como um dos melhores discos ao vivo de sempre da música popular.
O extinto (e saudoso) CMR-Correio da Manhã Rádio preencheu várias madrugadas com a passagem integral destas quase quatro horas de legado histórico de uma década de palco. Essa transmissão ocorreu essencialmente ao longo do Verão de 1987, mesmo com o spot de publicidade Malhus Informática a entrar aleatoriamente por cima das canções.
Antes disso, no início do Outono de 1986, o tema "Jersey Girl" (original de Tom Waits) era presença assídua nas manhãs da Rádio Comercial, soberbamente comandadas por José Ramos. O radialista não se cansou de dizer que aquela versão ao vivo de Springsteen ultrapassava em muito o original de Waits. E talvez estivesse certo. Tom Waits é, desde sempre, uma influência assumida e fundamental na obra de Bruce, a par de Elvis e dos Suicide.
No último dia desse ano de 1986, o programa «Rocklandia» na Antena1 dedicou a totalidade das suas duas horas de emissão à transmissão de uma selecção prévia da então recente edição do disco «Bruce Springsteen & The E-Street Band Live 1975-1985». A apresentação esteve a cargo de Jorge Alexandre Lopes, num rockpark imaginário elaborado em pleno estúdio de emissão em directo para todo o país.
Enfim, um trabalho discográfico marcante. Apesar de nos últimos tempos Bruce Springteen ter editado outros discos ao vivo, nenhum voltou a possuir semelhante importância.