domingo, 3 de maio de 2026
Cândido Mota
Fotografia de Pedro Paiva
quinta-feira, 30 de março de 2006
O que é feito deles?
A memória é mesmo assim… selectiva, autónoma. Quando de rajada escrevi o texto anterior senti, por mais de uma vez, que incorrera no erro do esquecimento. Mas não conseguia descobrir “quem”, “onde”. Num texto evocativo, recorrendo unicamente à memória, haveria sempre alguém que iria ficar de fora. Assim foi. E logo ficara de fora aquele que para mim, e sem desprimor de todas as pessoas da rádio que já publicamente mostrei admiração e apreço, considero ser o melhor radialista de todos os tempos (leia-se: do meu tempo enquanto ouvinte). É também por ele, mas não só, que sinto a obrigação de voltar a escrever uma continuação do texto de ontem. São mais dez pessoas, dez nomes. E vou começar exactamente pela grande falha memoranda que enunciei.
Cândido Mota: o mítico “Passageiro da Noite” de que fui ouvinte instável. Sentia algum desconforto quando ouvia aquilo, era demasiado novo, não tinha idade nem maturidade suficiente para compreender certas conversas. Mas ao mesmo tempo o programa tinha grandes momentos de conversa íntima, de grande proximidade entre as partes envolvidas, embora as coisas às vezes resvalassem para o plano escatológico. O “Passageiro da Noite” foi, por vezes, um esplendor de humanidade. Emissor e receptor num só. O programa durou quase dois anos. Era notoriamente um registo de enorme desgaste para o interlocutor da cabina. Até que numa célebre noite (que ouvi com grande espanto!) Cândido Mota foi inusitadamente às cordas e disse: “Hoje o passageiro sou eu! Chegou a minha hora!”… e foi por ali fora criticando a administração da Rádio Comercial onde o programa era feito. Veio processo, e foi-se embora o animador. O programa foi suspenso, conhecendo uma segunda (e curta) vida sob a moderação de Teresa Cruz e Orlando Dias Agudo que foram ao tapete em poucos meses.
Voltei a escutá-lo, já na década de 90 na Rádio Comercial, num programa diário de conversa solta durante uma hora com um convidado diferente por dia. Era também na Rádio Comercial, em directo à noite. Chamava-se «Salada com Todos». Não ouvi a derradeira emissão, mas parece ter sido problemática, com novos desabafos críticos do animador, que depois disso, não voltou mais.
Cândido Mota teve muitas e variadas aparições radiofónicas (RCP – Rádio Clube Português; RDP – Antena1 e Antena2; Rádio Comercial). Manteve-se sempre visível nos media, quer fosse na televisão, colaborando com Herman José, quer na gravação de voz-off ou em spots de publicidade. Na Rádio, é actualmente (há já bons anos) voz de estação da RDS – Rádio Seixal. E é justamente na vila do Seixal que o encontro, ao vivo, todos os anos a apresentar as festividades no dia 25 de Abril.
Cândido Mota, em nome próprio, está fora da Rádio há mais de dez anos, mas continua a ser, em minha opinião, o mais versátil, o mais completo radialista que encontrei enquanto ouvinte. Lamento duas coisas: que Cândido Mota tenha saído da Rádio tão prematuramente e de eu ainda não ser nascido nos tempos em que ele dava voz – e que voz – ao «Em órbita». Felizmente, em 2001, consegui ouvir alguns excertos dessas prestações no decorrer de uma conversa com Jorge Gil, autor do «Em órbita» e de «À Sombra de Edison». Este último já pude acompanhar como ouvinte, mas durou tão pouco tempo…
Já agora, o que é feito do próprio Jorge Gil, autor dos já citados programas «Em órbita» e «À Sombra de Edison». A última vez que o escutei foi em Março de 2001, Antena2, na derradeira emissão de «Em órbita». Dois anos mais tarde, ainda colhi com surpresa a decisão da Portugal Telecom em acabar com o financiamento dos «Concertos Em órbita» que também eram da responsabilidade de Jorge Gil. Desde então…
E o que é feito de Jorge Pego, autor do histórico “TNT –Todos no Top” na Rádio Comercial (anos 80). Muita gente talvez já não se lembre, mas o “TNT” teve também a locução de Manuela Moura Guedes. De segunda a sexta-feira, das dez da manhã ao meio-dia. Era uma manhã imperdível para mim, alternando com a onda média e as inevitáveis idas à escola. E se era difícil sair de casa àquela hora…
Actualmente ouço-o na Sic-Notícias num programa sobre automóveis, de resto uma área a que sempre esteve ligado.
E o que é feito de António Santos, autor do refinadíssimo programa “As Noites Longas do FM Estéreo” da mesma Comercial de 80. Foram seis anos e audiências que chegavam aos 48%, 49%. Valores absolutamente impensáveis para qualquer rádio portuguesa de hoje. Via António Santos muito na televisão, principalmente nos tempos do “Jornalinho”, na RTP. Nos anos 90, já na segunda metade, foi assessor político e desde então, nem rádio nem televisão.
E o que é feito de Maria José Mauperrin, realizadora do elegantíssimo “Café Concerto” na Rádio Comercial, durante os primeiros cinco anos da década de 80, de segunda a sexta-feira (22:00/00:00). Cultura nas áreas da literatura, cinema, teatro, artes plásticas, música, etc. Com ela também estavam Aníbal Cabrita, Manuela Gomes, Manuel Cintra Ferreira, Victor Consciência e um vasto leque de colaboradores, entre eles, José Duarte, Miguel Esteves Cardoso, Jorge Listopad, Carlos Amaral Dias, Fernando Dacosta, etc
E o que é feito de Graça Vasconcelos, autora do excelentíssimo “Imaginário” na RDP-Antena1, nas noites de 2ª a 6ª (antecedia o “Voo de Pássaro” de Júlio Montenegro). Um género de magazine cultural, dirigido a um público mais exigente. Classe e distinção. Tinha como indicativo um tema de Ry Cooder da banda sonora do filme “Paris Texas” de Wim Wenders.
E o que é feito de Luís Paixão Martins, sabendo-se que actualmente é empresário em publicidade e relações públicas. Há pouco mais de vinte anos era editor das manhãs da Comercial. As melhores manhãs informativas que ouvi na década de 80. Por essa altura fazia dupla com António Macedo. Aquilo é que era…
E o que é feito de Pedro Castelo, também ele uma das vozes do mítico «Em órbita» e o apresentador que mais gostei do programa “24ª Hora” na Rádio Comercial / anos 80. Foi e é um grande conhecedor de automobilismo. Já nem sei quando o ouvi pela última vez a fazer rádio. Já deve ter sido mesmo há muito tempo…
E o que é feito de Jaime Fernandes, radialista em todos os aspectos, autor de programas de música “Country”. Eu não sou grande apreciador do género, com a excepção de alguns artistas, mas apresentados por Jaime Fernandes na rádio eu gostava de muitos mais. Depois de se retirar da produção desses programas, o mesmo acontecendo com outro radialista – Rui Almeida – a Country Music perdeu por completo expressão no nosso país.
E o que é feito de Paulo Coelho, co-autor com Fernanda Ferreira dos célebres “Os Símbolos do Tempo” e “Círculo em FM”. Este último com divulgação de edições do Círculo de leitores, pausando com música (da boa!). O recentemente falecido José Ramos também fez aqui locução.
E o que é feito de Ricardo Camacho, músico e produtor, homem ligado à medicina mas também homem da rádio. Foi co-autor do programa “Pedras Rolantes”, em parceria com Rui Neves e Rui Morrison.
E o que é feito de Miguel Esteves Cardoso, um prodigioso da escrita, da crítica e da criação, que esteve envolvido em tantos projectos eficazes na Rádio Comercial e que agora já nem na TV se vê?
Destas gerações, e destes tempos dourados da rádio em Portugal, há ainda alguns nomes que se mantêm no activo. António Macedo, Aníbal Cabrita, Ricardo Saló, Luís Filipe Barros, António Sérgio, Rui Pego, José Nuno Martins, Francisco Amaral, Sanção Coelho, António Cartaxo, Edite Sombreireiro, José Duarte. Acho que, mesmo assim, com esta “segunda leva” de evocações e memórias, ainda me devo ter esquecido de alguém que, para mim, teve um papel importante na rádio enquanto ouvinte. Penitenciar-me-ei devidamente se disso me der conta.
Como é claramente notório, a parte de leão destas evocações pertencem a um período muito específico da Rádio Comercial, que percorreu toda a década de oitenta em Portugal. E não por acaso. É um facto histórico e inegável que foi a estação de rádio mais importante nessa altura e que muita gente recorda com saudade. Atenção: saudade, não saudosismo.
Para quem, como eu, viveu intensamente como ouvinte esses dias gloriosos da rádio, vai com certeza identificar-se com um texto que estou a ultimar e que aqui publicarei em breve.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Em Órbita 50 anos
No dia 1 de Abril, às 19:14 começava a primeira emissão do programa «Em órbita», no FM do Rádio Clube Português.
Pedro Castelo foi a primeira voz do programa, “Kind of Girl”, dos Zombies, a primeira canção.
Pedro Castelo esteve no programa até ao dia 1 de Abril de 1966, rumando depois para a Rádio Renascença.
Cândido Mota foi o segundo locutor.
Meio-século após a emissão inaugural, a Antena1 dedicou uma emissão especial de duas horas, no passado dia 1 deste mês. Há exactamente uma semana.
Mês, dia e hora exactamente iguais, ao fim de cinco décadas, alguns dos fundadores estiveram presentes em directo no programa evocativo, moderado por António Macedo.
Pedro Albergaria, Pedro Castelo e Cândido Mota foram os convidados em estúdio. Jorge Gil declinou o convite e um dos técnicos, José Ribeiro, participou por telefone, também em directo.
Especial 50 anos de «Em órbita» na Antena1 (01.Abril.2015)
Ouvir em duas partes aqui
O primeiro indicativo do «Em órbita»:
The Kinks – “Revenge”
O primeiro tema a passar no «Em Órbita»:
The Zombies – “Kind of Girl”
Apontado por muitos como o melhor programa de sempre da Rádio Portuguesa, o programa «Em órbita» conheceu várias fases, que foram descritas em dois artigos publicados anteriormente aqui na «Rádio Crítica»:
EM ÓRBITA
O MELHOR DE TODOS?
03 de Março de 2006
Em Órbita (1965 - 2010)
O MELHOR DE TODOS?
01 de Abril de 2010
Outros artigos sobre o programa «Em Órbita»:
"Em Órbita" faz 35 anos
Artigo do jornalista Luís Pinheiro de Almeida
PÚBLICO, 01 de Abril 2000
Evocando o programa "Em Órbita"
Blogue «A Nossa Rádio»
01 Abril 2015
O primeiro (e único!) tema cantado em português no programa «Em Órbita»:
Quarteto 1111 – “A Lenda de El Rei D. Sebastião”
Texto lido por Cândido Mota:
Em Órbita vai proceder hoje à transmissão de um trecho de música popular portuguesa. Porque se trata de uma medida sem precedentes neste programa, e por termos o maior respeito pela nossa própria coerência e por todos quantos nos acompanham com a sua adesão consciente e construtiva, tem pleno cabimento algumas palavras introdutórias ao trecho que vamos apresentar. Desde sempre que alguns dos mais conhecidos intérpretes e conjuntos portugueses de música ligeira nos têm procurado, seguindo modalidades várias de aproximação no sentido de Em Órbita divulgar as suas respectivas realizações, em amostra, em disco ou em registo magnético. Em face dessas sucessivas tentativas, sempre nos recusámos em elas aludir, por considerarmos que a totalidade dessas realizações não justificava o nosso interesse em abrir excepções, quer por entendermos que a sua transmissão iria ocupar tempo que poderia ser preenchido com larga vantagem pela nossa música habitual, quer por considerarmos que nenhuma delas reunia as condições mínimas para poder representar qualquer coisa de semelhante a uma tentativa honesta e inédita do lançamento das bases da música popular portuguesa que todos nós em boa consciência queremos renovada por inteiro de alto a baixo.
Por varias vezes e sob diversos pretextos temos aqui exprimido alto e bom som que somente transmitiríamos qualquer modalidade de música popular portuguesa que tivesse um mínimo daqueles requisitos que poderemos condensar assim:
1 ° - Autenticidade aferida em função do ambiente e da sociedade portuguesa e da tradição folclórica do nosso país.
2° - Afastamento radical da utilização puramente oportunista de padrões internacionais e pseudo internacionais, impossíveis de transpor com verdadeira honestidade para o nosso meio.
3° - Rompimento frontal com as formas de música popular comercial mais divulgadas em Portugal e que se caracterizam pela teimosa insistência em seguir os figurinos caducos e provincianos de Aranda do Douro, San Remo ou Benidorm.
4° - Demonstração de um poder criador e interpretativo que ultrapassasse de forma a não deixar dúvidas, apelando a uma imitação grotesca que se faz no estrangeiro, quer na forma de copiar pura e simples, quer na de adaptações apressadas, quer na utilização de uma língua, de um estilo ou de um som de importação, tudo defeituosamente assimilado.
Estes portanto os requisitos mínimos que sempre exigimos a nós próprios e aos que nos procuraram com pedidos de transmissão. Nunca nos limitámos porém a uma recusa seca é peremptória. Os nossos pontos de vista sempre os exprimimos desenvolvidamente em particular e em público.
Os que nos ouvem com regularidade, devem recordar-se do que aqui foi dito sobre este mesmo tema no ano passado. As nossas sugestões sobre os caminhos a seguir na nossa opinião ficaram então bem claras. Recordemos algumas delas:
Recurso ao folclore português nas suas múltiplas variedades e manifestações.
A ligação intima à realidade portuguesa nos seus mil e um aspectos e facetas.
Recurso à poesia portuguesa popular ou erudita, medieval, clássica ou contemporânea.
O aproveitamento das formas melódicas e rítmicas da musica popular portuguesa, ainda não adulterada.
A revisão total dos temas e respectiva forma de expressão com base na construção lírica dos poetas da literatura portuguesa, do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende aos poetas da actual geração de Coimbra. Sem preocupações de síntese, estas são algumas das formas possíveis no nosso entender de encarreirar a música popular portuguesa para alguma coisa de novo, de verdadeiro e de autêntico. Há anos que vimos proclamando. Nunca ninguém demonstrou ou procurou demonstrar que no plano dos princípios e em concreto, estávamos errados.
Posto isto temos, temos para nós, que o trecho que vamos hoje apresentar, preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa com todas as implicações que a sua transmissão através de Em Órbita acarretam.
Tendo por título A Lenda del Rey D. Sebastião, é escrito por um português é tocado e cantado por portugueses. Não vamos fazer uma apreciação exaustiva desta gravação, das suas qualidades que são muitas, e dos seus defeitos que terá alguns.
Vamos apenas apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo. Assim é desde logo um apontamento especial sobre os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais, e num período em que neste programa se dá cada vez mais importância aos criadores e cada vez menos aos intérpretes, a gravação que vamos apresentar tem qualidade interpretativa mais do que suficiente, e uma nota que sobressai com rara evidência.
O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito, é que em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos precisos, directos, certeiros, desenfeitados. Conta-se uma história, uma lenda. Como lenda que é trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.
Depois, é um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal. É um Sebastianismo colectivo que na lenda se retrata.
É a ideologia negativista dos que têm uma crença irracional em coisas, em valores e em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação. A lenda del Rey D. Sebastião, escreveu José Cid, é o Quarteto 1111.
segunda-feira, 3 de abril de 2006
A segunda dinastia
Fiquei a saber isto, em primeira-mão, numa emissão especial dos “Reis da Rádio” que foi para o ar em directo na tarde de Sábado passado (16:00/18:00). Estiveram presentes os quatro reis, numa conversa animadíssima moderada por outro “rei”, António Macedo. Foram contadas histórias incríveis por eles vividas nas longas carreiras radiofónicas que efectuaram. Caricatas, embaraçosas, ridículas, engraçadas. De tudo um pouco. A iniciar esta emissão especial, os presentes homenagearam José Ramos que, como é sabido, morreu prematuramente no passado dia 21 de Março.
Pessoalmente, enquanto ouvinte, fiquei muito contente com o elenco da segunda dinastia. Poucos dias antes tinha expressado aqui a minha admiração e saudade por alguns dos nomes que agora vão regressar – por um tempo curto, é certo – aos ares da rádio. Particularmente Cândido Mota. Instigados a pronunciarem-se sobre os nomes dos sucessores, Júlio Isidro disse, numa frase lapidar, o seguinte sobre Cândido Mota: “É uma voz que nos põe Em Órbita”.
Assim seja.
P.S: Apenas uma coisa: não gosto do nome “Os Reis da Rádio”. É demasiado pomposo, pedante até. Não se arranjaria um melhor?
Os Reis da Rádio
RDP-Antena1, 2ª a 6ª feira
(vários horários ao longo do dia e da noite, a disponibilizar em breve)
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Em Órbita (1965 - 2010)

Dia 01 de Abril de 1965
O percurso do “Em Órbita”, iniciado na década de 60, sofreu alterações de figurino, percorreu várias décadas e atingiu várias gerações de ouvintes. Terminou a primeira fase de vida no dia 31 de Maio de 1971. Durante esse período, o conceito base assentava na seguinte frase: “Dedicação à divulgação, à selecção, à explicação e ao enquadramento das formas mais representativas da música popular de expressão inglesa”.
No meu caso, enquanto ouvinte, só entrei em órbita nos anos 80, já o programa de Jorge Gil aderira à chamada “música antiga” de carácter erudito (desde 1974), com especial enfoque no período Barroco.
Depois de ter estado em várias frequências e estações (RCP, Rádio Comercial, RDP), o “Em órbita” conheceria o canto do cisne nos primeiros meses de 2001 na Antena 2. Foi há nove anos. O fim chegara por decisão do próprio autor. Fica na história, fica a história:
Uma das vozes do programa «Em Órbita» foi a de Cândido Mota. Cândido Mota está fora da Rádio há mais de 14 anos, mas continua a ser, em minha opinião, o mais versátil, o mais completo radialista que encontrei enquanto ouvinte. Lamento duas coisas: que Cândido Mota tenha saído da rádio tão prematuramente e de eu ainda não ser nascido nos tempos em que ele dava voz – e que voz – ao «Em órbita». Felizmente, em 2001, consegui ouvir alguns excertos dessas prestações no decorrer de uma conversa com Jorge Gil, autor do «Em órbita» e de «À Sombra de Edison». Este último já pude acompanhar como ouvinte, mas durou tão pouco tempo…
Pedro Castelo, João David Nunes e Júlio Isidro foram outras das outras vozes que apresentaram o programa.
Quarenta e cinco anos depois o que é feito do próprio Jorge Gil? A última vez que o escutei foi em Março de 2001, na Antena2, na derradeira emissão de «Em órbita». Dois anos mais tarde, ainda colhi com surpresa a decisão da Portugal Telecom em acabar com o financiamento dos «Concertos Em órbita» que também eram da responsabilidade de Jorge Gil. Desde então e até hoje…
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Crónicas do Passageiro da Noite
Uma recolha de textos, a cargo das duas filhas, publicados pelo radialista em redes sociais.
Mais sobre Cândido Mota na «Rádio Crítica» desde 2006 aqui
terça-feira, 25 de maio de 2021
Prémio Igrejas Caeiro
Os prémios deste ano, e do ano passado, são entregues hoje.
2013 – Luís Filipe Costa
2014 – João Paulo Guerra
2015 – Adelino Gomes
2016 – António Cartaxo
2017 – António Sala
2018 – José Manuel Nunes
2019 – Joaquim Furtado
2020 – João David Nunes
2021 – Cândido Mota
domingo, 3 de abril de 2016
Prémio Carreira
domingo, 7 de maio de 2006
A «Doce Mania de Rádio»

Naquele tempo havia um rádio ligado em minha casa 24 horas por dia. Só existiam quatro canais nacionais de rádio: a RDP Antena 1 e Antena 2, a Rádio Renascença e a Rádio Comercial, que também pertencia à Radiodifusão Portuguesa. A Rádio estava sempre ligada na Rádio Comercial, especialmente na emissão de Onda Média. Isto até ter-se dado o advento do FM em Portugal, em larga escala, a partir de 1979. Não me lembro do nome do aparelho de recepção que o meu pai trouxe para casa em 1975 e que, na primeira vez que foi ligado, apareceu a voz de Raul Durão na Antena 1. Não me lembro da marca do modelo do aparelho, mas se tiverem oportunidade de ver o filme Apocalypse Now Redux (de Francis Ford Coppolla, rodado entre 1976 e 1979) aparece um rádio exactamente igual no momento do enterro do jovem soldado. Seria, todavia, com um outro receptor, um pequeno transístor manual (que lá em casa chamávamos de “bonequinha”) que escutaria, pela primeira vez, uma madrugada inteira de rádio. Fi-lo em segredo. Tinha nove anos e o programa que escutei durante toda essa noite chamava-se «A Noite é Nossa», de Ruy Castelar. Foi a primeira de muitas, imensas, incontáveis noites em claro a ouvir Rádio. E, obviamente, a ouvir a Rádio Comercial. O programa «A Noite é Nossa», de Ruy Castelar, não duraria muito mais tempo e, passado um ano ou dois, apareceu um outro programa na Rádio Comercial, no mesmo horário, que quase nunca perdia. Era o programa «No Calor da Noite», feito a várias mãos. Uma equipa de notáveis profissionais, entre eles Fernando Correia, Jorge Perestrelo, Luís Filipe Barros e José Augusto Marques. Cada qual fazia à sua maneira mas, em todos eles, havia uma forte dedicação. «No Calor da Noite» era uma companhia nocturna absolutamente arrebatadora. Eu já sabia que se começasse a ouvir esse programa não conseguiria dormir mais até ao fim. Este é apenas um dos muitos exemplos que trago na memória desses templos absolutamente dourados da doce mania de rádio. «Doce mania de Rádio», era uma frase cliché do programa «24ª Hora». Esse era outro dos espaços de emissão que eu ouvia assiduamente. Por exemplo, neste programa havia duas crónicas diárias absolutamente imperdíveis: o ressurgimento dos «Cinco minutos de Jazz» de José Duarte (após um interregno de vários anos na rádio portuguesa) e a crónica socio-política de José Manuel Homem de Melo. Mas tal como disse, estes são apenas alguns exemplos de uma torrente contínua de programas na Rádio Comercial, ao longo de 24 horas por dia. As manhãs, até um certo período, eram em simultâneo em Onda Média e FM. Podiam começar com a equipa de Luís Paixão Martins («Hora de Ponta»), Luís Pereira de Sousa («Hora a Hora»), Carlos Pinto Coelho, José Ramos, Herman José, Júlio Isidro, continuando depois com Ruy Castelar, Jorge Pego, etc.
As tardes em Onda Média também foram, durante algum tempo, preenchidas com um programa feminino chamado «Ela», feito por várias elas, e que tinha uma crónica social interessantíssima feita por Carlos Castro. Em FM, era a «Discoteca» de Adelino Gonçalves, «O Vapor» de José La Féria, o «Rock em Stock» de Luís Filipe Barros, «Tempo de Fuga» (rigoroso exclusivo Pausadas de Portugal) com apresentação de José Ramos, «Cabo da Boa Esperança» com apresentação de António Macedo, já pela noite dentro «Quando o Telefone Toca» com Matos Maia (à 4ª feira havia o Top dos discos mais pedidos), o «Café-Concerto» com Maria José Mauperrin, depois a já falada «24ª Hora» que teve como apresentadores Pedro Castelo, Aníbal Cabrita e João Chaves entre muitos outros. Depois vinha «O Passageiro da Noite» de Cândido Mota, «O Som da Frente» de António Sérgio e «O Calor da Noite» dos notáveis de que já falei.
A Rádio nessa altura em minha casa era e, acho que em todas as casas, mais importante que a Televisão. Muita gente não se lembra mas só havia a RTP 1 e 2. E a televisão em Portugal nessa altura não funcionava 24 por dia. As emissões começavam à tarde, por volta das 17:00 e às duas da manhã ou muitas vezes antes, já estavam encerradas. A Rádio sempre foi o órgão de comunicação social mais importante na minha casa. Estava então ligada 24 horas por dia. Acordava a ouvir rádio, tudo o que fazia era ao som da Rádio, estudava a ouvir Rádio, faltei a algumas aulas para ouvir Rádio, quase que gostava de ficar doente para poder ficar em casa a ouvir Rádio, deitava-me (e deito-me) sempre a ouvir Rádio. Muitas dessas noites, não chegava a dormir. Toda a bagagem musical que fui acumulando ao longo dos anos foi através da Rádio. E todo o investimento musical que, posteriormente fiz, foi estimulado pelo que conheci através da Rádio. É claro que muitas das coisas que conheci me levaram a conhecer outras e por aí fora (as playlists não permitem isso, salvo as raras excepções do costume). Nessa altura, nos últimos 25 a 30 anos, a Rádio tinha uma componente que hoje em dia caiu em desuso: a formação. A Rádio tinha três componentes fundamentais: a informação, o entretenimento e a formação. Hoje em dia, a formação está completamente posta de parte. Os programas tinham, de facto, impacto junto das pessoas. Havia muito mais ouvintes que há hoje. Havia mais tempo, as pessoas estavam mais disponíveis para ouvir Rádio. E faziam-no, sobretudo em casa. Na altura, a maioria das pessoas não tinha ainda transporte próprio. Hoje em dia a rádio ouve-se essencialmente nos automóveis. Esta diferença de disponibilidade demonstra o quanto diferentes são hoje os ouvintes de Rádio. Hoje, ouvem com menos atenção. São menos exigentes na subjectividade das emissões mas, por outro lado, as audiências de hoje em dia são mais exigentes no que toca à informação, ao jornalismo radiofónico. Hoje em dia há mais participação de ouvintes em directo na Rádio, há maior interactividade por via dos vários fóruns que se multiplicam em estações de referência, sendo que em muitos destes casos o excesso de palavra cai em redundância e na inutilidade. Transforma-se em ruído. E o excesso de informação transforma-se em desinformação (mas esse é um outro assunto que não interessa agora).
Por vezes, eu colocava dois aparelhos de rádio ligados em simultâneo. Um com o volume de som mais elevado que o outro, para assim produzir-se um efeito em eco que se espalhava por toda a casa. Aquilo era mágico!
DADOS HISTÓRICOS
Dia 10 de Março de 1979: João David Nunes assumia o cargo de director da Rádio Comercial. António Ribeiro é o director de informação.
Junho de 1980: Jaime Fernandes assume o cargo de director de programas.
Outros nomes pioneiros no arranque da Rádio Comercial: Rui Morrison, Paulo Coelho, Júlio Isidro, Dora Maria, Fernando Quinas, Jorge Moreira, Dulce Varela e Pedro Castelo.
Acho que alguma da Rádio que já se vai fazendo, neste momento, em Portugal, não nos deixa muito envergonhados em relação à Rádio que se faz lá fora.
PROGRAMAS PARA A HISTÓRIA
«Quando o Telefone Toca» que teve vários apresentadores, mas o único que me lembro bem é Matos Maia. Acompanhava com maior entusiasmo a emissão de quarta-feira por causa do top dos dez mais pedidos da semana. O objectivo era ouvir as canções “Eyes Without a Face” de Billy Idol e “Take a look at me Now de Phill Collins. Estavam lá sempre (1983/84).
«Piadinhas e Torradinhas» e «Graça com Todos» dos «Parodiantes de Lisboa». As “piadinhas surgiam cedo pela manhã (no Inverno ainda de noite) e a “Graça” à hora do almoço (13:00/14:00) . Sempre de segunda a sexta-feira. Inesquecível a dupla Patilhas e Ventoinha, que aparecia já nos últimos dez ou quinze minutos da sessão «Graça com Todos». Lá iam eles desvendar mais um bizarro crime. Patilhas era o chefe, o inteligente. Ventoinha o bronco, o desastrado. Mas não eram poucas as vezes que o subalterno surpreendia e embrulhava o chefe…
«Café da Manhã» com Ruy Castelar e companhia. Da companhia fizeram parte duas estreantes vozes femininas, hoje ausentes do éter: Maria Alexandra e Isabel Risques. Onda média pura e dura, com música portuguesa, francesa e latino americana. Passatempos/ofertas e ouvintes em directo. Este era o Ruy Castelar diurno. Antes tinha havido o histórico «A Noite é Nossa» e, depois do «Café da Manhã», Ruy Castelar voltaria à terna noite para realizar o «Fantástico». Durou anos a fio, só sendo pulverizado pela privatização da Comercial em 1993. Fica na memória do «Fantástico» as intervenções da astróloga brasileira Diva Ferreira e especialmente os directos de Carlos Rebelo a partir da discoteca “Green Hill” na Foz do Arelho. O programa «Fantástico» ainda teve um remake na Rádio Nova (Porto) numa altura em que dispunha de emissão de e para Lisboa. Mas nunca mais voltou a ser a mesma coisa e a fantasia perdeu-se.
«A Grafonola Ideal» de Júlio Isidro. Salvo erro, apenas em Onda Média. E, se a memória não me atraiçoa, Júlio Isidro teve uma ou mais vozes femininas a acompanhá-lo neste programa da Comercial. Mas fez mais, especialmente a «Febre de Sábado de Manhã». Este último conseguiu feitos impensáveis na rádio de hoje. Qual é o programa que hoje conseguiria encher um estádio de futebol durante três horas para assistir a actuações musicais numa manhã de Sábado?
«Cantores do Rádio» de José Nuno Martins. Destaque óbvio para a música brasileira e estórias associadas. Outro programa de José Nuno Martins que deixou marcas na Rádio Comercial nos anos 80 foi «Interiores».
«Piquenicão» de Costa Macedo, numa romaria anual com ouvintes, amigos, familiares e agricultores. A rádio ao vivo e em directo. Literalmente.
«TNT-Todos no Top» de Jorge Pego, que numa determinada fase contou também com apresentação de Manuela Moura Guedes. Lembro-me da entrevista a Paul McCartney por altura da edição do álbum “Pipes Of Peace” (1983). A guerra-fria estava num dos seus pontos mais críticos.
«Rock em Stock» de Luís Filipe Barros. (Por um bom período de tempo foi feito por Ana Bola). Talvez o mais memorável dos programas da Comercial de 80, a par do «Som da Frente» e da «Discoteca». Rasgou horizontes e deu o Rock que os ouvintes portugueses nunca tinham escutado.
«Círculo em FM» de Paulo Coelho e Fernanda Ferreira, um programa que também contou com a apresentação de José Ramos.
«Discoteca» de Adelino Gonçalves. Um dos marcos da Comercial de 80. Enfoque especial para a chamada música negra mais dançante (funk) acompanhada por muito mais. Foi aqui, por exemplo, que se ouviu pela primeira vez o tema “Drive” dos Cars ou “Nightshift” dos Commodores em homenagem ao então assassinado Marvin Gaye (1984).
«O Vapor» de José La Féria. A ponte entre a «Discoteca» e o «Rock em Stock». Muito diferente – para melhor – era este La Féria daquele que também militava na Onda Média.
«Rolls Rock» , «Lança Chamas» , «Rei Lagarto e outras histórias» e em particular «Som da Frente», todos estes programas da autoria de António Sérgio. A história fala por si.
«Cabo da Boa Esperança» Apresentação de António Macedo. Um programa que abordava assuntos africanos. Não teve vida longa este programa da Comercial de 80 (final da tarde), mas a inigualável apresentação fica na memória. Outro programa de António Macedo que marcou: «É de Noite Já se Vê». (E aquela entrevista em directo em que o cantor Toni de Matos ainda conseguia fumar mais cigarros que o entrevistador?).
«Café Concerto» calmo e intimista de Maria José Mauperrin (ver mais abaixo).
«Morrison Hotel» de Rui Morrison. Sobriedade e bom gosto. Música de todos os tempos em perfeita simbiose. A voz distinta do autor complementava o atraente enquadramento.
«Pedras Rolantes» do próprio Rui Morrison com Rui Neves e Ricardo Camacho. A três mãos, uma emissão musical mas com palavra. Dos três.
«24ª Hora» O melhor magazine radiofónico que alguma vez ouvi. Era uma segunda e nova vida do mítico «23ª hora» vindo da Rádio Renascença (que nunca ouvi pela simples razão de que ainda não era nascido), mas já aqui os tempos eram outros. Um programa idealizado e concebido pelo grande produtor de rádio, que foi João Martins. A «24ª Hora» teve vários apresentadores (José Nuno Martins, Jorge Pego, Aníbal Cabrita, João Chaves, António Macedo, etc.) sendo Pedro Castelo o mais assíduo. Outros nomes participantes: Tomás Taveira (arquitectura), Paulo Gil, António Rolo Duarte, José Vaz Pereira (cinema). O lugar deixado vago pela “vigésima” ainda continua por preencher devidamente na rádio em Portugal.
«Cinco Minutos de Jazz» de José Duarte. Começou em 1966. Conheceu um hiato de vários anos após o 25 de Abril, mas retornou em Outubro de 1983 justamente na 24ª hora. Aí sim, apanhei o acontecimento na hora e sigo os «Cinco Minutos» até hoje.
«O Passageiro da Noite» O programa mais famoso na longa carreira radiofónica de Cândido Mota. O mais famoso e o mais polémico…
«Country Music» de Jaime Fernandes. Até hoje, o melhor programa de rádio sobre a canção tradicional norte americana.
«Dança Atlântico», «Trópico de Dança», «A Escola do Paraíso» e «W». O que uniu todos estes projectos? Um homem, um nome, muitas ideias: Miguel Esteves Cardoso. Não esteve sozinho. Ao lado do seu poder de génio, também materializado no mundo da rádio, estiveram João David Nunes, David Ferreira e Margarida Mercês de Melo. Já agora, onde estás tu, MEC?
«Pão Com Manteiga» durou 98 semanas. Uma equipa de luxo liderada por Carlos Cruz: José Duarte, Mário Zambujal, Joaquim Furtado, Bernardo Brito e Cunha, Eduarda Ferreira, Orlando Neves.
Parte desta equipa esteve também envolvida em outros programas memoráveis, ainda sob a liderança de Carlos Cruz «Contra Ataque», «Duplex» e «Uma Por Semana». O Senhor Televisão também era um Senhor Rádio. Qualidade acima da média (na altura muito elevada).
Irreverência, intransigência, independência. Alguém consegue pedir mais?
«A Flor do Éter» e «Rebéu-béu Pardais ao Ninho» de Herman José & companhia: Vítor de Sousa, Margarida Carpinteiro, Lídia Franco e Ana Bola. Lembram-se do infindável folhetim «Fedora Fedoreva»? Radio novela humorística. Hoje não existe nada parecido.
«Se7e por Se7e» uma extensão radiofónica do semanário de artes e espectáculos «Se7e», com coordenação do então director da publicação Carlos Cáceres Monteiro.
E que equipa: António Macedo, João Gobern, Pedro Rolo Duarte, entre outros.
«As Noites Longas do FM Estéreo» António Santos no seu melhor momento (monumento) de rádio.
«À Sombra de Edison» de Jorge Gil com locução de Cândido Mota. A arte do som e da palavra num ensaio experimentalista.
«Tardes de Desporto» O futebol era quase sempre ao Domingo. Por vezes, raramente, também ao sábado. Artur Agostinho, Fernando Correia, Jorge Perestrelo, David Borges, Fernando Emílio, Abel Figueiredo (relatadores); António Macedo (como repórter de pista); Carlos Cardoso (comentador de arbitragem); Fernando Neves de Sousa (comentador de futebol); José Augusto Marques, Orlando Dias Agudo, etc. Mas o desporto na Comercial não era só futebol, como hoje acontece nas três maiores estações nacionais (Antena1, TSF, Renascença). Havia transmissões dos campeonatos mundiais e europeus de Hóquei em Patins, o atletismo tinha acompanhamento regular, o automobilismo também, em particular o saudoso Rali de Portugal Vinho do Porto. As inesquecíveis vitórias olímpicas de Carlos Lopes (Los Angeles, 1984) e de Rosa Mota (Seul, 1988) foram relatadas em directo na Rádio Comercial por Fernando Correia. Arrepiante, soberbo.
Tantos e tão bons nomes da rádio feita em Portugal, todos juntos sob o mesmo tecto. Nunca mais aconteceu nada assim.
E já agora, retomando e reforçando a saga dos paradeiros de radialistas desta altura:
O que é feito de Abel Figueiredo? Foi com ele a relatar que o Sporting ganhou o último título nacional (1981) antes de uma longa travessia de 19 anos. No final do encontro, o ponta de lança sportinguista Jordão ofereceu a camisola a este narrador da Rádio Comercial. Ouvi tudo em directo! Em 1986, no verão, eram dele os relatos em directo – noite dentro – do campeonato Mundial de Hóquei em Patins no Sertãozinho, Brasil. Lembram-se?
O que é feito Fernando Emílio? Era narrador desportivo (Futebol, Hóquei em Patins, atletismo e ciclismo). Entusiasta, por vezes frenético. Permaneceu na Rádio Comercial após a privatização desta em 1993, mas ainda no decorrer da década de noventa “desapareceu” do éter.
O que é feito de Carlos Cardoso? Especialista em arbitragem de futebol, detentor de uma inconfundível voz rouca. As análises dele ao jogo em directo, principalmente nos grandes encontros de futebol, davam uma outra dimensão aquele tipo de transmissão. Sobriedade e saber, mesmo quando as emoções estavam ao rubro. Já na década de noventa exerceu as mesmas funções na TSF, mas depois disso – já na segunda metade dos anos 90 – nunca mais se ouviu. E se fazem falta análises correctas sobre arbitragem…
O que é feito de Carlos Rebelo? Era o entusiasta repórter de serviço em programas de Ruy Castelar, particularmente nos directos a altas horas da noite na discoteca “Green Hill” na Foz do Arelho. Em que “praia” andará ele agora?
O que é feito de João Gobern? Rádio Comercial e CMR – Correio da Manhã Rádio, onde foi um dos autores do programa «Faces Ocultas». Tem estado com muita regularidade e presença na imprensa escrita. A sua última (?) aparição radiofónica de que me tenha dado conta foi como cronista na TSF na primeira metade dos anos 90.
MEMÓRIA E PASSAGEM
Naqueles tempos fluorescente de rádio – que era um meio mais importante que a televisão – a Rádio Comercial era A Estação. Era a Rádio de referência em Portugal. A mais avançada profissionalmente e em conteúdos. Havia ideias, autores e realizadores que materializavam as ideias e os conceitos. Havia competição interna saudável. Discutia-se a rádio dentro da rádio com os seus protagonistas. Era a casa que albergava formas de expressão diversificadas e artísticas. Só foi possível porque vivia-se e respirava-se um clima de liberdade criativa, de respeito pela liberdade de pensamento e expressão de quem e para quem se fazia a rádio. Impensável nas outras Estações da época (RDP e RR).
Eis que entretanto se desenvolve a grande ritmo o fenómeno das chamadas “Rádios Pirata”, mas isso não foi “o mal” que veio por mal e que tenha afectado a Comercial. O pior veio depois, com o espectro da privatização. Começara a agonia.
1993, A PRIVATIZAÇÃO
O método fez doutrina e, em meados da primeira década do século XXI, todas – ou quase todas – as estações seguem o método. Até quando?
RÁDIO COMERCIAL 2006
É uma estação de matriz musical, quase totalmente preenchida por playlist (de tops, comercial). Beneficia de uma boa cobertura nacional e é esse facto que lhe dá vantagem em relação às tantas outras rádios comerciais/musicais que por aí andam (afinal o tamanho conta…). Tem como objectivo destronar a RFM da liderança de audiências. Para atingir esse fim começou, desde 2003 (com a entrada em funções administrativas do ex-RFM Pedro Tojal) a copiar a estação rival mais directa. Desde finais de 2005 que a Rádio Comercial tem nova direcção. Desconheço se os objectivos estratégicos serão os mesmos, mas até à data, nada de muito diferente aconteceu, com a excepção – justa – do regresso de António Sérgio e a criação do programa «80 à Hora».
Repito: Até à data, nada de muito diferente aconteceu. Vai acontecer?
«Café Concerto
Rádio Comercial – FM
Emissões: de 1980 a 1985
Realização: Maria José Mauperrin
Transmissão: de segunda a sexta-feira das 22.00 às 24.00 horas
Equipa: Maria José Mauperrin, Aníbal Cabrita, Manuela Gomes, Manuel Cintra Ferreira e Victor Consciência.
Colaboradores: Professor Manuel Baptista, Jorge Listopad, Fernando Dacosta, José Duarte, Miguel Esteves Cardoso, Sílvia Chico, Dr. Amaral Dias.
Era um programa fundamental, cultural, onde era feito o tratamento exaustivo das várias actividades ligadas à literatura, ao cinema e às artes plásticas.
Houve os mais interessantes debates e informações muito detalhadas sobre as várias realizações produzidas, tanto em Portugal como no estrangeiro, porque a actualização era uma constante e uma preocupação dos responsáveis.
Semanalmente, uma peça importante: uma entrevista – sempre conduzida por Maria José – a uma personalidade importante da vida intelectual, que era repartida pelas emissões da semana. Conversa sempre em tom coloquial, despretensiosa, pois todos se encontravam num café concerto.Os ouvintes punham questões aos convidados que depois iam ao programa responder em directo às perguntas feitas.
Foram mais de trezentas entrevistas que Maria José fez aos homens e às mulheres da cultura, desde sociólogos a pintores, de músicos a antropólogos, de gráficos a escritores.
Houve, também, convidados estrangeiros, nomeadamente Mário Lagos, Chico Buarque de Hollanda, Mário Soldati, entre outros.
Espaços especiais eram dedicados à ciência, aos livros e seus autores, à informática, ao jazz, às exposições, à psiquiatria.
Foi tentada – e conseguida – criar a atmosfera de um verdadeiro café concerto, espaço de convívio que surgiu em França, no século XIX, e onde dialogavam o malabarista com o intelectual, o músico com o pintor. Esse ambiente foi conseguido, e isso foi um dos motivos do grande sucesso do programa.
O entrosamento que era dado às palavras e à música, a selecção, correcta e rigorosa, a enquadrar-se no ambiente e na atmosfera criados, este todo homogéneo, contribui para que o Café Concerto fosse considerado um dos grandes programas da rádio portuguesa.
Quando deixou de ser transmitido houve grande reacção por parte dos ouvintes, e a imprensa especializada fez coro com esse descontentamento.
Mas o programa chegara ao fim e o regresso era irreversível.»
in "Telefonia" de Matos Maia
Círculo de leitores
1994
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Ela (e eles) ali ao lado
Uma canção passou no rádio
E quando o seu sentido
Se parecia apagar
Nos ponteiros do relógio
Encontrou num sexto andar
Alguém que julgou
Que era para si
Em particular
Que a canção estava a falar
E quando a canção morreu
Na frágil onda do ar
Ninguém soube que ela deu
O que ninguém
Estava lá para dar
Um sopro um calafrio
Raio de sol num refrão
Um nexo enchendo o vazio
Tudo isso veio
Numa simples canção
Depois de os Clã terem tocado “Sexto-Andar”, Manuela Azevedo dirige-se ao público. Fá-lo-ia por numerosas vezes, mas nesta intervenção em particular (a mais longa), soltou palavras directas ao coração. Acertadas em cheio como uma flecha no “Sopro do Coração”: “Há trinta e quatro anos, esta noite começou com uma canção que passou na rádio. Esta canção que acabaram de ouvir, fala sobre a importância de uma simples canção… da importância que uma pequena canção pode ter nas vidas das pessoas. Diz-se que é uma coisinha assim sem importância, apenas três minutos e algumas palavras. Mas a verdade é que há gente que se casa por causa de uma canção, há gente que se separa por causa de uma canção, há gente que vive e morre por causa de uma canção”. E é verdade. De facto, uma pequena e simples canção pode alterar e muito o percurso de uma vida. As palavras de uma canção podem resolver o “Problema de Expressão” (…) “Só para dizer que te amo”.
Lamentavelmente foi não ter sido possível chegar a tempo para assistir à apresentação do espectáculo por Cândido Mota (para mim, o melhor e mais versátil profissional de Rádio português ainda vivo). A última vez que tive esse gosto foi há três anos, antes da actuação de Paulo de Carvalho.
Terceiro e inesperado encore, com Manuela a dizer: “Nós vamos tocar outra, só que ainda não sei qual é…” E foi “Sangue Frio”, a canção do gelo quente. Há oito anos, quando apareceu, identificava-me com grande parte da letra da canção. Hoje não. Sinto maior identificação com o boneco do vídeo de “Sexto Andar”. O homem estendido na cama do seu quarto num sexto andar de um prédio de habitação, a ouvir rádio à cabeceira, e a voar ganhando asas.
Há uma interessante versão ao vivo semi-privada (só para cinquenta fãs) num ensaio registado em Agosto de 2007. Ver aqui
Antes de todas estas canções, tinha descido sobre a lindíssima baía do Seixal aquele que é descrito por muitos como sendo o melhor Fogo de Artifício de toda a margem sul. E quem é capaz de dizer o contrário?
Em todo o espectáculo dos Clã esperei uma surpresa – a suprema surpresa – de ver subir ao palco, perto do final, o próprio Sérgio Godinho para um daqueles incríveis momentos em dueto com Manuela Azevedo. Afinal, ele tinha terminado a sua actuação pouco antes ali ao lado, na cidade que vai receber a nova ponte sobre o Tejo. Estavam muito perto um do outro. Será que ninguém se lembrou de fazer acontecer essa proeza?
Afinidades
Sérgio Godinho e os Clã são presenças habituais e seguras nas rádios portuguesas. SG desde o fim da censura em 1974, os Clã desde que apareceram em 1995. Ambos estão inseridos em playlists, o que tem um lado bom e um lado mau. O lado bom é apenas e só lá poderem estar. O lado mau é que nesse tipo de opção de difusão, muitas das outras grandes canções que assinam nunca são escutadas pelo público. Insiste-se e repetem-se um ou dois singles dos mais recentes trabalhos e pouco ou nada mais para além disso. E isso é muito pouco. Desfavorece não só os ouvintes – que ficam a saber pouco (na verdade quase nada) sobre o álbum, e desfavorece os artistas – que têm mais canções merecedoras de atenção.
sexta-feira, 3 de março de 2023
Ruy Castelar
1932-2023
Nome histórico da Rádio portuguesa durante seis décadas
Realizou no RCP os programas «Meia-Noite», «Sintonia 63» e principalmente «A Noite é Nossa», «Fantástico» e «Clube da Manhã» na Onda Média da Rádio Comercial.
Na RDP Internacional Ruy Castelar foi autor do programa «Meia-Noite e Uma Guitarra», onde esteve até ao ano passado. Tinha 90 anos de idade.
segunda-feira, 7 de abril de 2025
Prémio Igrejas Caeiro 2025
O Prémio Igrejas Caeiro distingue desde 2013 uma personalidade da Rádio em Portugal cujos méritos estejam há muito reconhecidos em qualquer área do meio.
Este ano é distinguido o autor do mítico programa «Rock Em Stock» na RDP-Rádio Comercial (1979-1982; 1986-1993) e também «Ondas Luisianas» na Antena1, até à reforma.
2013 – Luís Filipe Costa
2014 – João Paulo Guerra
2015 – Adelino Gomes
2016 – António Cartaxo
2017 – António Sala
2018 – José Manuel Nunes
2019 – Joaquim Furtado
2020 – João David Nunes
2021 – Cândido Mota
2022 – João Paulo Diniz
2023 – José Nuno Martins
2024 – Maria Elisa Domingues
2025 – Luís Filipe Barros
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